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Capítulo 19: Meu Amor

BELADIA
Pensamento

Pensamento

NunoParreira

Fiquei a pensar na frase da Maraíra sobre as pessoas só fazerem connosco o que permitimos. Com o Pedro que li nos capítulos atrás, o das transferências e dos golpes, e ainda com a Vivi a rondar a casa dela com a mesma calma de sempre, custa-me aceitar que

Fiquei a pensar na frase da Maraíra sobre as pessoas só fazerem connosco o que permitimos. Com o Pedro que li nos capítulos atrás, o das transferências e dos golpes, e ainda com a Vivi a rondar a casa dela com a mesma calma de sempre, custa-me aceitar que ela tenha dado assim tanta licença sozinha. Ela acredita nisso ao volante, com o vento na mão, mas a mãe e a meia-irmã ainda andam por aí, e não me parece que a ideia aguente o próximo encontro.

Conteúdo da publicação

livro ( Querida, Sorria!)

O céu exibia um azul cobalto imaculado, manchado apenas por nuvens brancas e solitárias que se deixavam arrastar pelo vento sul. O calor da tarde beirava o sufocante. Pássaros revoavam em direção às árvores ao norte, cortando a imensidão clara das plantações que margeavam a estrada e se estendiam a perder de vista. Ao volante do jipe, Maraíra deslizava pelo chão batido. Pelo retrovisor, observava a densa cortina de poeira vermelha que se erguia atrás dos pneus; a terra subia e se moldava pelo acostamento como pinceladas vivas de uma pintura rústica, marcando a paisagem por onde ela passava.

— Até que é bonito — pensou.

Baixou o vidro da janela e permitiu que o ar quente inundasse o interior do veículo. Colocou a mão para fora, brincando com a força invisível do vento que escorria por entre seus dedos. A ventania desordenava seus cabelos, e os óculos escuros escondiam seus olhos, mas não conseguiam disfarçar o leve sorriso que despontava em seus lábios. Respirou fundo, deixando escapar um suspiro de puro contentamento — uma felicidade genuína e rara. Levou a mão ao peito, acolhendo uma sensação que não experimentava há anos. Ela estava, finalmente, viva e feliz. Fazia tanto tempo que não sentia aquela pulsação vibrante que sequer lembrava qual fora a última vez. Um calor que nascia no peito e irradiava, aquecendo todo o corpo. Sorriu, passando as mãos pelos cabelos.

Embalados pelo movimento do carro, seus pensamentos voaram para a noite em que chegara ao bangalô, abandonada à própria sorte. Aquele instante representara a grande virada de sua vida. Lembrava-se do corpo debilitado, da dor nauseante, da solidão esmagadora. É curioso como a mente opera quando se está presa no ciclo da autodestruição — um ciclo ininterrupto que vai corroendo até não sobrar mais nenhum vestígio da sua alma, de quem você foi um dia. Mas é aí, quando não resta mais nada, quando até as mentiras reconfortantes perdem o efeito e sobra apenas você diante do espelho, que algo desperta. Se houver coragem para olhar de verdade, para encarar a própria imagem sem filtros e finalmente se aceitar, o processo de reconstrução começa. É nesse exato ponto zero que você consegue se reerguer.

Fora exatamente no fundo daquele abismo que encontrara a coragem para destroçar as grades da jaula que a prendia por tantos anos. Ali, sem os olhares julgadores da mãe pesando sobre seus ombros, as intrigas venenosas da meia-irmã ou as agressões cruéis do marido ecoando pelas paredes, o silêncio absoluto do bangalô a obrigou a escutar a própria voz e a enxergar a si mesma pela primeira vez em anos. As lágrimas derramadas naquele chão vazio não haviam sido de derrota; elas serviram para lavar e costurar um coração há muito estilhaçado por pessoas que, em tese, deveriam amá-la.

A memória retrocedeu um pouco mais, esbarrando em Pedro e na época em que o conheceu. Ali, sob o sol implacável daquela tarde, uma clareza assustadora e libertadora a atingiu: ele nunca tivera o verdadeiro poder sobre ela. Fora ela mesma quem lhe entregara as chaves da sua destruição. O sentimento que por tantos anos jurara ser amor não passava do reflexo de uma dor muito antiga e profunda que carregava dentro de si — um apego cego à própria escuridão. Havia projetado no marido a expectativa irreal de ser salva, vestindo-o com a armadura de um príncipe que viria curá-la. E, ironicamente, a cada vez que ele a feria com palavras afiadas ou com golpes físicos, ela se agarrava com ainda mais força a essa ilusão tóxica de ser salva.

Sorriu mais uma vez, balançando lentamente os dedos contra a corrente de ar. A sensação de estar completa, mesmo sozinha, era libertadora. Durante todo aquele tempo, a única pessoa de quem realmente precisava era de si mesma. Uma verdade esmagadora atingiu Maraíra: as pessoas só fazem conosco aquilo que permitimos. Ela precisava apenas arrancar o poder que dera ao outro para machucá-la. Era assustadoramente simples: bastava tomar de volta as rédeas da própria vida.

Como um castelo de vidro estilhaçado, você recolhe os cacos do chão, une-os um a um e se reconstrói. E esse processo doloroso transforma, blindando o interior que antes era tão frágil. Ao refletir sobre tudo o que vivera e sobre a dor a que havia se submetido em silêncio por tantos anos, Maraíra teve apenas uma única e cristalina certeza: não suportara nada daquilo por amor.

Havia suportado por falta de amor. Amor por si mesma.

 

Thoughts

  • cadernoPreto

    Discordo do Nuno: a mãe voltar é o menor problema. Ela decide sozinha no carro que já superou o Pedro, a mãe e a meia-irmã de uma vez. Certeza feita no silêncio quebra no primeiro telefonema.

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  • brunocosta

    O silêncio do bangalô a obrigá-la a ouvir a própria voz, pois, foi isso que me fez a primeira casa vazia em que vivi, aos vinte e um. Ninguém a falar por cima de ti, e tu sem saber o que dizes.

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  • anogueira52

    Li a parte do jipe na estrada de chão batido e parei ali, vendo a poeira vermelha subir atrás. Quem já andou por estrada assim sabe que se vê mais o que ficou pra trás do que o que vem à frente, e a Maraíra passa o capítulo todo olhando o retrovisor. Ela chega a uma certeza dura, que aguentou tudo por falta de amor por ela mesma, sozinha na estrada. Vai conseguir dizer isso na frente da mãe, quando chegar a hora?

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  • Simao

    Epá, depois do capítulo 17 um capítulo inteiro sem ninguém a fazer mal a ninguém, e eu à espera que aparecesse um carro no retrovisor atrás do pó vermelho.

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  • Ovid

    A Maraíra com a mão fora da janela a brincar com o vento me fez pensar naquelas viagens de carro em que a gente percebe que está bem antes de ter palavra pra isso. Aposto que este foi o capítulo mais leve de escrever dos dezenove, o primeiro em que ela não está a fugir de ninguém. Obrigado por continuar a série!

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  • NunoParreira

    Fiquei a pensar na frase da Maraíra sobre as pessoas só fazerem connosco o que permitimos. Com o Pedro que li nos capítulos atrás, o das transferências e dos golpes, e ainda com a Vivi a rondar a casa dela com a mesma calma de sempre, custa-me aceitar que ela tenha dado assim tanta licença sozinha. Ela acredita nisso ao volante, com o vento na mão, mas a mãe e a meia-irmã ainda andam por aí, e não me parece que a ideia aguente o próximo encontro.

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