Carregando…

Capítulo 13: Um dia. Um belo dia.

aleroz
Pública 4 conversas 5 pensamentos 34 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Duas semanas depois, no pátio do colégio, durante o exercício de celebração e orgulho que acontece duas vezes por ano, mais de cinco mil alunos — entre dez e dezenove anos — formavam um exército de…

Em séries

In groups

Pensamento

Pensamento

Vivi_Souza

Ameiii

Ameiii

Conteúdo da publicação

Duas semanas depois, no pátio do colégio, durante o exercício de celebração e orgulho que acontece duas vezes por ano, mais de cinco mil alunos — entre dez e dezenove anos — formavam um exército de estátuas cinzentas sob o céu de chumbo.
Todos vestiam o uniforme militar de vanguarda, sem costura, num tom cinza escuro como ferro queimado.

Enfileirados em blocos perfeitos, divididos por idade e mérito, respiravam ao mesmo tempo. As colunas impecáveis desenhavam uma geometria rígida sobre o chão de concreto. Entre eles: Cora, Vans, Cors, Dru, Kan, Daime — em sua cadeira, alinhada na fileira, os ombros firmes como os demais — Ana, Tycho e Ceres, com seu olhar solitário e indecifrável.

Ao fundo, tremulava a enorme bandeira negra e cinza escuro de Mãe Ceres. Diante dela, o palanque erguido, com oficiais e professores, medalhas cintilando no frio da manhã.
O hino de Ceres ecoava nos alto-falantes, uma melodia grave e esmagadora, que penetrava a carne.

Tanques militares sobre rodas cruzavam o pátio lentamente. Suas portas metálicas se abriram para liberar os alunos que haviam passado por correção.
Theo caminhava entre eles.
O uniforme impecável, a cabeça erguida.
A estrela arrancada da lapela deixava um vazio no peito — mas seus olhos sorriam, mesmo que o rosto não ousasse.

Um alívio silencioso percorreu os blocos.
Seus amigos o acompanharam apenas com o olhar: imóveis, sem mover um músculo, sem permitir-se trair pela emoção.

Ceres respirava fundo.
O turbilhão dentro dela era sufocante, mas por fora… o mesmo semblante de sempre. Frio. Inatingível.

Vieram os discursos.
O mestre de cerimônias recitou nomes, méritos e vitórias do time do colégio. Medalhas foram erguidas e entregues uma a uma.

Ceres e Theo subiram juntos ao palanque.
Ombro a ombro.
Tão próximos que seus dedos quase se encontravam — mas não se ousava o toque.
A tensão entre eles era pura centelha.
Um prazer que nascia da expectativa, do proibido, do antes.

— Ceres. Medalha de Lealdade. Melhor aluna. Líder do ano letivo, em nome de Mãe Ceres.
Ela deu um passo à frente, recebeu a medalha, fez uma leve inclinação.

— Theo. Medalha de Lealdade. Melhor aluno. Líder do ano letivo, em nome de Mãe Ceres.
Ele repetiu o gesto. Quando voltou para junto dela, por um instante, sentiu o calor do braço dela roçar seu uniforme.

O mestre ergueu as mãos, e então veio o auge da cerimônia.
Ao comando uníssono, os cinco mil alunos, em perfeita sincronia, ergueram a mão direita para o alto — firme — e a esquerda aberta, de lado, em pé: um gesto ritual que simbolizava a neutralidade e a devoção.

Uma só voz cortou o céu:
— Viva Mãe Ceres, que cuida, que educa, que alimenta e nos devora!

O eco foi monstruoso.

E então… silêncio.
Um minuto inteiro.

Um silêncio tão profundo que gelava a espinha.
Um frêmito correu entre todos — um arrepio que não era medo, mas reverência.

Nesse instante, um relâmpago monstruoso cortou o céu cinzento com um rugido seco.
Ninguém se moveu.

Perfeita sincronia.

Uma chuva fina começou a cair, quase translúcida, molhando os rostos serenos, ofegantes, de semblantes frios.
Alguns deixaram lágrimas escorrer junto da água, sem desviar o olhar.
Outros desfaleciam por dentro de emoção.
Ninguém se mexeu.

Então, quando o minuto terminou, o céu se abriu como se as nuvens se rasgassem num gesto de misericórdia.
Um raio dourado de sol iluminou os blocos de alunos, como um farol descendo dos céus.
Um arco-íris floresceu sobre eles, arco após arco, atravessando a bandeira e cobrindo os filhos de Ceres num espetáculo impossível.

Como o milagre do raio laranja de marigolds que, anos antes, havia pintado quinze quilômetros de flores num único amanhecer.

A Mãe lhes sorria — ainda que ninguém ousasse sorrir de volta.

Os corredores do colégio ainda ecoavam o som da sirene.
Os alunos marcharam de volta para as salas, espalhados pelo pátio em pequenos grupos.
Ainda vestidos com seus impecáveis uniformes de apresentação, as capas pesadas nos ombros, o calor abafado da chuva fina secando devagar.

No centro do pátio, Theo e Ceres permaneceram. Um diante do outro.
Ceres sorria com os olhos semicerrados — aquele azul intenso que carregava o próprio céu, cruel e sereno ao mesmo tempo.
Theo sentiu a garganta fechar: queria morar para sempre naquele sorriso.
E ela, por um segundo, esqueceu a cidade, a torre, o hino, as fileiras — e sorriu só para ele.

Foi quando Daime passou por eles, empurrando sozinho a cadeira de rodas, com seu ar debochado e língua afiada.
Olhou os dois, ergueu uma sobrancelha e disparou:
— Vão pro quarto trepar, seus doentes! Aqui no pátio não pode, não!

Alguns alunos riram abafado, envergonhados. Outros fingiram não ouvir.
Todos sabiam: nada era tão perigoso quanto rir fora de hora na frente da Mãe Ceres.

Ceres não desviou os olhos de Theo.
Soltou um risinho baixo, venenoso. Depois murmurou só para ele:
— Esse filho da puta desgraçado e aleijado sempre foi assim, né?

Theo levou um segundo para processar — e então riu.
Não era só ele.
Ceres também ria agora, de verdade.
Riam juntos. Sem máscara, sem uniforme, sem Mãe Ceres.
Só dois jovens rindo da vida e da cidade que devora seus filhos.

Mais adiante, um guarda fingiu que não viu.
O céu ainda cinza, com o arco-íris sumindo lentamente atrás da torre, parecia aprovar em silêncio.

Os dormitórios eram separados, claro. Como tudo em Ceres.
Cada aluno em seu bloco, fileiras de beliches, silêncio vigiado por botas no corredor.
A disciplina não dormia. E nem o desejo.

Nem sempre se obedecia.

Mais tarde, naquela noite, o ginásio ficou vazio.
As luzes apagadas, só as de emergência deixavam aquele tom azulado e frio sobre o piso encerado.
Theo já a esperava, encostado na grade da arquibancada. O coração batendo mais alto do que o som das próprias botas.

Ela apareceu.
O uniforme impecável. A capa já largada em algum lugar.
Ceres.
O nome dela era um veneno doce que pulsava na mente dele.

Sem dizer nada, ela caminhou até ele. Nenhum dos dois sorriu.
Os olhos azuis dela queimavam.
Na penumbra, ela parecia menos humana — a própria encarnação da cidade, da torre, do poder que tudo devora.
Theo sentia um nó na garganta. Ódio e desejo misturados.

Quando se aproximou, Ceres o agarrou pelo colarinho.
Não pediram nada.
Não hesitaram.
Puxaram-se um para o outro.
Se devoraram ali mesmo, como dois inimigos que se amam e não podem mais fingir.

Rolaram pelo piso frio.
Tropeçaram no limite da piscina.
E foi ali, com a água gelada respingando na borda e o ginásio como testemunha muda, que Theo foi até o fim.
Ele a deitou, rasgou as meias dela com pressa, sentindo o corpo inteiro gritar de desejo e raiva.

Ceres não recuou.
Ela queria aquilo com a mesma intensidade cruel que tinha nos olhos.

E quando ele a penetrou pela primeira vez, não foi só por ela.
Na mente dele, por um segundo, não era Ceres ali.
Era a Mãe.
Ele viu a cidade, a torre, os hinos, as bandeiras — e foi a cidade que ele devorou.
Vingativo. Brutal.

Ceres sentiu.

E sorriu.

Um sorriso que dizia:
Sim. Me odeie. E me queira mesmo assim.

Entre respirações ofegantes e o som da água, Theo enterrou o rosto no pescoço dela e murmurou, amargo:

— Viva a Mãe Ceres… que cuida… que educa… que devora…

E naquele instante, os dois gozaram juntos — como se a cidade inteira os observasse. E aplaudisse em silêncio.

Ficaram em silêncio depois, lado a lado, sobre o piso frio.
A piscina escura refletia o teto metálico.
Nada existia além deles.

Theo se apoiou num cotovelo, olhando para ela — o rosto pálido, os olhos azuis ainda brilhando sob a luz fraca.
Ele respirava fundo, tentando decifrar o turbilhão por dentro.
Ceres o olhava de volta, serena e predatória, como quem já sabe tudo o que será dito.

— Eu… — Theo começou, a voz rouca. — Eu imaginei a Mãe, sim… quando… quando foi a primeira vez. Era o jeito de aguentar. De vingar.

Ceres ergueu uma sobrancelha, mas não desviou o olhar. Ele continuou:

— Eu imaginei a cidade toda… a torre… o hino… a bandeira me esmagando. E você era ela. Eu te usei pra isso.

Um silêncio.

Ceres fechou os olhos por um segundo e soltou um riso baixo, quase debochado.

— E você acha… que isso me ofende? — Ela abriu os olhos, agora ainda mais azuis, cravados nele. — Eu não ligo, Theo. Pode imaginar quem quiser… desde que, no fim, seja eu aqui. Entre suas pernas. Sob você.

O sorriso que ela deu, quase imperceptível, gelou e incendiou ele ao mesmo tempo.

— Desde que sempre… me deseje — completou, com a voz baixa e cortante.

Theo sentiu um peso sair do peito, mas não era alívio. Era só outro tipo de peso — mais fundo, mais dela. E então balançou a cabeça, devagar, como quem reconhece uma derrota doce.

— Mas não foi a Mãe desta vez — ele disse. — Não mais. Foi você. Você que me ajudou na detenção. Você com esses olhos… que parecem carregar o céu inteiro dentro deles. Que parecem… só pra mim.

Ceres não reagiu de imediato. Apenas manteve o olhar firme, como se o estudasse, caçando cada medo e cada desejo dele ao mesmo tempo.

— Você sabe o que eu faço com almas, Theo? — perguntou, a voz suave, quase um sussurro.

Ele engoliu seco. — Devora todas.

Então ela ergueu a mão e tocou o rosto dele com a ponta dos dedos frios. Os olhos azuis faiscavam como a lâmina de um punhal.

— Todas. Menos a sua — disse, e um canto da boca se curvou num sorriso sutil. — Eu só devoro quem é desconhecido pra mim.

Theo sentiu o coração dar um salto dolorido no peito. Ficou olhando pra ela por mais um tempo, antes de se abaixar e encostar a testa na dela.

— Então nunca me esqueça, Ceres. Nunca.

Ela fechou os olhos devagar, aceitando o peso daquilo, e respondeu baixinho:

— Não esqueci de nada até agora. Por que esqueceria logo de você?

E naquele instante, mesmo no chão frio e úmido, sob o teto de ferro do ginásio vazio, Theo sentiu que o mundo inteiro cabia só ali.

Só nela.

O ginásio agora estava em silêncio absoluto, exceto pelo som lento da água pingando da borda da piscina. O ar ainda era frio, cortante, mas entre eles a temperatura parecia febril. Theo sentou-se primeiro, ajeitando a camisa amarrotada e úmida no peito. O uniforme ainda colava à pele. Penteou os cabelos para trás com a mão, tentando recuperar aquela postura impecável que a Mãe Ceres exigia de seus filhos.

Ceres permaneceu deitada por mais alguns segundos, fitando o teto cinzento, antes de finalmente erguer o tronco com calma felina. Alisou a saia do uniforme sobre as coxas, recolheu os cabelos num coque apressado e, por fim, se levantou por completo — um pouco mais digna, e muito mais perigosa.

Nenhum dos dois falou enquanto recolhiam suas coisas. Theo notava, nos cantos dos olhos, o jeito como ela passava as mãos sobre o uniforme para desamassar, como se nada tivesse acontecido ali minutos antes. Ela era perfeita naquilo — em esconder tudo e ainda assim deixar, nos olhos, aquele brilho azul, incendiando só para ele.

Antes de atravessarem a porta do ginásio de volta para os corredores iluminados do colégio, Theo parou. Pousou a mão nas costas dela, leve. Ela olhou por cima do ombro, séria, mas sem afastar o toque.

— Ninguém pode saber — ele disse em voz baixa, só para ela ouvir.

Ceres o fitou por um segundo inteiro, como quem o media por dentro e por fora, antes de responder, seca:

— Eu não conto nada. Nunca contei.

Theo assentiu, retirando a mão. Então ambos atravessaram juntos a porta de metal e foram engolidos pela claridade impessoal do corredor.

Lá fora, o som distante da sirene ecoava para a próxima aula. Os alunos começavam a encher os corredores, marchando em blocos, as botas batendo ritmadas no chão. Alguns os cumprimentavam com olhares respeitosos, quase reverentes — afinal, Theo e Ceres eram líderes aos olhos de todos.

Marcharam lado a lado por alguns metros, as cabeças erguidas, sérios como se nada mais os ligasse além do uniforme. Mas entre os olhares frios e impecáveis, um detalhe traía o segredo: nos olhos de Ceres ainda reluzia aquele tom predador, azul como céu de inverno. E nos de Theo, um desejo mudo de voltar para o ginásio e ficar ali para sempre.

Ao dobrarem a última esquina antes do dormitório masculino, ela se afastou dele sem dizer nada. Só um último olhar por cima do ombro — rápido — antes de desaparecer por outra porta.

E, sozinho, Theo sentiu que nunca antes na vida estivera tão perto do inferno — ou do paraíso.

Naquela noite, depois de tudo, Ceres dormiu um sono pesado e doce, como há muito não sentia.

O sonho veio suave, em tons pastel — um mundo acolhedor e difuso, como se pintado em aquarela. Ela estava de volta ao colégio, mas não havia dureza, nem marchas ou ordens — só um céu claro, azul-claro, que invadia os corredores. As paredes cintilavam, como feitas de vidro fosco.

E no centro do pátio, sentada num trono simples coberto por um véu branco, Mãe Ceres a chamava com um sorriso. Vestida inteiramente de branco, dos pés à cabeça, emoldurada por cristais brilhantes que flutuavam ao redor de seu rosto, cintilando como estrelas. Tinha uma auréola dourada e majestosa. E os olhos… os olhos eram idênticos aos de Ceres. Azuis — tão azuis que não apenas guardavam o céu dentro deles, mas o universo inteiro.

Ceres se aproximou, tímida. Mãe Ceres abriu os braços e ela, sem hesitar, sentou-se em seu colo como uma filha querida. Sentiu dedos suaves afagando seus cabelos, penteando-os para trás num carinho maternal que quase a fez chorar de alívio.

A voz de Mãe Ceres soou quente e baixa em seu ouvido:
— Theo… ele é bom para você, minha filha.

Um nó se formou na garganta de Ceres ao ouvir aquilo. Mas no sonho não havia vergonha. Havia apenas paz — e um conforto impossível de descrever, deitada no colo daquela mãe divina, respirando o perfume etéreo dela.

O cenário então começou a mudar, quase imperceptivelmente. O branco ao redor foi se tingindo de dourado, como um amanhecer cintilante. Agora ela caminhava pelos corredores do colégio — ou talvez flutuasse, leve, macia, como uma pena no vento.

Quando chegou ao campo de treinamento, viu Theo de longe, abaixado, amarrando as chuteiras. Ele ergueu o rosto e sorriu para ela. Era um sorriso sereno, que não cobrava nada, que não pedia nada. Um sorriso que dizia apenas: estou aqui.

O cenário mudou mais uma vez. Agora era o ginásio vazio. Ceres parou à porta, sentindo a ansiedade subir, segundo após segundo. Não ousava entrar, mas também não recuava. Ela sabia que Theo estava lá dentro. Não precisava vê-lo para saber.

E era essa certeza que a destruía e a salvava ao mesmo tempo: o maior prazer não era encontrá-lo, não era tocá-lo. O maior prazer era esse instante antes de começar. Esse saber que alguém, sem obrigação nenhuma, a esperava. Que ele estava lá. Por ela. Só por ela.

A tortura da espera era deliciosa e melancólica — uma dor preguiçosa que fazia seu corpo inteiro querer desmaiar devagar. Um medo suave de perdê-lo, e ao mesmo tempo a alegria de saber que ele a esperava.

Por mim. Por mim. Por mim.

Como um instinto natural do corpo dela — um treinamento antigo — de amar alguém e nunca dizê-lo em voz alta.

Quando acordou, a manhã já queimava pela janela do dormitório. Ceres abriu os olhos, sentindo a boca amarga e o coração pesado.

Era só um sonho.

E a decepção de voltar à realidade foi tão grande que ela se sentiu de novo pequena, vazia e só.

Ceres caminhava pelo dormitório vazio, os ecos dos passos ritmados enchendo o silêncio. A mão alisava a barra do uniforme como quem tenta se manter no eixo — mas por dentro… por dentro havia um tremor doce. Era difícil explicar para si mesma por que agora tudo parecia calmo. Como se, enfim, algo tivesse dado certo. Como se, desta vez, não houvesse nada para corrigir, nada para fingir ser, nada a esconder.

E isso a apavorava.

Porque nada nunca foi assim antes. Nada nunca foi dado de graça para ela. Sempre havia um teste depois do prazer. Sempre um espinho depois do campo florido. Mãe Ceres ensinara isso desde cedo: toda colheita custa suor. Toda medalha custa joelhos ralados e olhos secos.

Por isso, mesmo confiante — e ela estava, sim, confiante — algo a interrompia por dentro. Uma pequena sombra que dizia que talvez aquela paz não durasse. Que talvez aquela sensação boa que Theo lhe causava — aquela de ser devorada de um jeito só dele, e não como Mãe Ceres devora seus filhos — fosse só um intervalo bonito antes do próximo vendaval.

E isso era real. A realidade não tem tons pastéis, ela se lembrava, enquanto via sua mão tocar a madeira fria da porta do ginásio, onde se encontraram da última vez. A realidade tem cheiro de ferro, cor de chumbo, gosto de lágrimas engolidas.

Ainda assim… o que Theo fazia com ela era tão diferente. Theo não a devorava como um filho ingrato que Mãe Ceres precisava educar e punir. Theo a devorava porque a queria. E só por isso.

Por um instante, Ceres fechou os olhos e imaginou de novo aquele sorriso dele — e o seu próprio, aquele que só aparecia por causa dele — e sentiu um arrepio: medo de perder, medo de estragar, medo de ser feliz demais para durar.

E, mesmo assim, sussurrou para si:
— Deixe-me ser devorada, por Mãe Ceres e por ele. Mas por favor… que ele continue bem. Que ele continue sendo… meu.

E por um breve instante, sentiu como se o universo — esse universo duro, sem pastéis — lhe concedesse uma pequena trégua.

Ceres inspirou fundo, abriu os olhos devagar e, antes de se virar para dormir, sussurrou mais uma vez — mais para si mesma do que para qualquer deus ou mãe:
— Só por mais um tempo… só mais um pouco, deixe ele ser meu.

Virou o rosto para a janela do dormitório.
E lá, no horizonte, recortada contra o céu cinzento da madrugada que já clareava, erguia-se a silhueta colossal da torre central da Mãe Ceres — rígida, imponente, inevitável.
Parecia observá-la mesmo dali, de tão longe, como uma divindade que não precisava se aproximar para exercer domínio.
Ceres a fitou por um instante, sentindo o estômago revirar numa mistura de devoção e medo.
A silhueta negra, contra os primeiros tons alaranjados do amanhecer, parecia responder ao seu sussurro com um aviso mudo:

Nada escapa da Mãe. Nem mesmo você.

E ainda assim, mesmo assim, o peito de Ceres se aqueceu com uma pequena rebeldia doce — enquanto ele estivesse lá, enquanto Theo ainda fosse dela, valia a pena ser devorada depois.
Fechou os olhos e deixou-se adormecer outra vez, ainda sentindo sobre a pele o peso do olhar da Mãe Ceres no horizonte.


A gata selvagem

Ceres acordou sensível naquela manhã.
Havia algo no ar — talvez o cheiro das flores do pátio, ou a lembrança ainda fresca do sonho colorido, do colo confortável da Mãe Ceres.
Ou talvez fosse só Theo, ainda estampado em sua memória com aquele sorriso que parecia morar nela.

No pátio, durante a hora livre, Ceres manteve-se em pé num canto, de braços cruzados, o olhar caçando Theo entre os blocos de alunos conversando. Encontrou-o.
Ele estava perto da grade lateral, rindo de alguma coisa que uma garota dissera.
Ela tocou o ombro dele — do mesmo jeito que Ceres costumava tocar.

Ceres não ouviu nada, mas a risada dele ecoou como um tiro no peito.
De repente, aquela sensação doce e ansiosa da manhã desmoronou dentro dela como um castelo de cartas.
Sentiu as bochechas queimarem, o peito doer, a garganta fechar.
O mundo parecia olhar para ela, zombar dela.

Num impulso, girou nos calcanhares e saiu correndo em direção à parte interna do colégio, desviando por entre os blocos de alunos como quem foge de uma humilhação.

Quase derrubou Daime, que vinha pelo corredor em sua cadeira de rodas. Ele recuou por instinto, e só não caiu porque segurou firme na roda.

— Ô, louca! — gritou atrás dela, com a risada mais sarcástica que conseguia. — Doente, mulher, doente. Que falta de respeito com os cadeirantes…

Ela sumiu sem olhar para trás, e ele murmurou para si mesmo, abanando a cabeça:

— Esse menino não tá comendo essa gata selvagem direito, não… sorte dele que eu tô de cadeira. Senão eu já tinha mostrado como é que doma uma dessas…

Daime riu sozinho, ajeitou-se na cadeira e seguiu seu caminho, ainda imaginando a cena.

Mais tarde, encontrou Theo sozinho na área do ginásio e foi logo soltando a língua, divertido:

— Ô, campeão… tua gata selvagem quase me atropelou hoje. Parecia um míssil desgovernado.

Theo ergueu uma sobrancelha.

— Ela?

— É. Deve estar “naqueles dias”, né? — disse Daime com um sorriso debochado. — Dá um jeito nela, cara… ela tá precisando de um trato. Ou vai acabar me derrubando da cadeira mesmo, e aí eu vou sair correndo por milagre só pra catar essa doida no laço.

Theo abafou um riso, meio sem jeito, mas por dentro não conseguiu evitar um nó na garganta.
Porque sabia que, o que quer que tivesse acontecido com ela… não era só “daqueles dias”.


O laço

Theo não conseguiu mais prestar atenção no que estava fazendo.
As palavras debochadas de Daime ecoavam em sua mente como um aviso:

“Ela tá precisando de um trato. Ou vai acabar me derrubando mesmo…”

E ele sabia. Sabia que Ceres não era de desmoronar à toa. Não diante dos outros.
Aquela corrida, aquela fuga desesperada, não era só “um dia ruim”.

Levantou-se devagar do banco do ginásio, onde ainda segurava as faixas da última cerimônia.
Respirou fundo e atravessou o pátio, os corredores, o salão. Os olhos atentos, buscando-a no meio das sombras que a tarde já começava a projetar.

Alguns alunos o cumprimentavam; outros apenas desviavam o olhar.
Ele caminhava em linha reta, determinado.

Encontrou-a num canto vazio, perto da sala de equipamentos, sentada no chão frio, os joelhos encolhidos contra o peito.
Os olhos azuis pareciam ainda maiores, ainda mais fundos, como se ela tentasse esconder neles todo um universo só dela.

Por um instante, Theo sentiu um aperto no peito.
Ela parecia tão pequena ali.
Tão diferente daquela líder fria que todos temiam e admiravam.

E ele entendeu:
A mulher que todos viam era só a superfície.
E ali, diante dele, estava a Ceres verdadeira.
A que só ele podia ver.

Ele se aproximou devagar, sem fazer barulho, e se agachou ao lado dela.
— Ceres…
Ela não levantou a cabeça.
Theo estendeu a mão, hesitante, e tocou a ponta dos dedos dela.
Ela ergueu os olhos devagar e, quando finalmente o encarou, havia neles um misto de vergonha e raiva, medo e desejo.
Ele sorriu de leve. Um sorriso só para ela.
— Eu tô aqui — disse apenas.
Ela respirou fundo, como quem engole um soluço, e depois deixou escapar, num fio de voz:
— Por que eu sempre sinto que… que a qualquer momento vou perder você?
Theo não respondeu de imediato. Só segurou firme a mão dela e levou-a aos lábios, beijando-a com delicadeza.
— Porque você é assim. Você sente demais — murmurou. — Mas eu não tô indo a lugar nenhum. Eu tô aqui. Só pra você.
Ela fechou os olhos por um momento, como se as palavras dele fossem um bálsamo.
E então, sem dizer nada, encostou a cabeça no ombro dele.
Theo sentiu o coração dela bater acelerado, sentiu o calor dela através do uniforme gelado.
Por um instante, não havia mais medo, nem vergonha, nem as sombras do pátio.
Havia só aquele laço invisível entre eles, apertando os dois cada vez mais perto um do outro.
E Theo jurou para si mesmo, em silêncio: que não deixaria ninguém, nem mesmo a Mãe Ceres, arrancar dela aquele momento.

Recomposta
Ela ficou ali, por longos minutos, encostada no ombro dele, respirando fundo, deixando o silêncio preencher os espaços.
Sentia o cheiro leve de sabão do uniforme dele, o calor discreto da pele de Theo por baixo do tecido.
Os dedos entrelaçados, quase sem força, só presença.
E, aos poucos, a respiração foi voltando ao ritmo.
O coração já não doía tanto.
Era como se o simples fato dele estar ali tivesse afastado as garras frias que apertavam seu peito.
Quando finalmente ergueu a cabeça, ainda havia um brilho de lágrima nos olhos azuis — mas já não era uma lágrima de medo.
Era outra coisa. Uma tristeza madura, quase bonita, como um outono tardio.
Ela se levantou devagar. Endireitou o uniforme amarrotado, alisou a saia com as palmas frias.
Theo a observava em silêncio, respeitoso.
Ela não era do tipo que se despedaçava na frente de alguém por muito tempo.
Ceres era assim: caía, mas sempre se recompunha. Sempre.
Mesmo que por dentro continuasse latejando.
Antes de sair, ela olhou por cima do ombro e disse, quase num sussurro:
— Eu odeio ser assim. Fraca, às vezes.
Theo se aproximou por trás e, sem tocá-la, murmurou perto do ouvido dela:
— Você não é fraca. Só sente mais do que a maioria.
Ela fechou os olhos. E pela primeira vez desde que fugira do pátio, sorriu.
Um sorriso pequeno, íntimo, que era só para ele.
Quando abriu os olhos de novo, já eram os mesmos olhos de sempre — azuis como o céu antes da tempestade, azuis como uma prece.
Com passos firmes, voltou para o corredor, rumo ao dormitório.
A cada passo, sentia o coração ainda doer… mas também sentia a força que vinha disso.
Era assim com ela: o que machucava também a tornava mais viva.
Mais perigosa.
Mais inteira.
E Theo, ficando para trás, a olhava ir embora com um nó na garganta.
Ele também entendia: nada no mundo seria capaz de quebrar Ceres por completo.
Nem a Mãe Ceres, nem ninguém.
Era só questão de tempo para que ela voltasse a devorar a todos com aqueles olhos de caçadora.
Mas, por um instante breve e precioso, ela tinha sido apenas uma menina.
Uma menina que ainda sabia amar.

A Prece e os Relances

No corredor vazio, já perto do dormitório, Ceres parou.
A respiração ainda trêmula, os dedos frios apertando o tecido da própria saia.
Fechou os olhos — e então vieram eles.
Os relances.
As memórias.
Um por um.

O som metálico de uma grade no fundo do colégio, quando Theo a encontrou sozinha, ferida e fugida de Silencium, ajoelhando ao lado dela sem fazer perguntas, só ficando lá.
O olhar dele antes disso — sempre de longe — o único que não recuava, não tremia, não tinha medo dela como todos os outros.
O leve desmaiar dele no alto da rampa de mergulho, quase sem fôlego de medo, e ela segurando o rosto dele enquanto caíam juntos na água, a vertigem de ser dois, a vertigem de ser inteira.
O primeiro beijo na beira da piscina, misturado à risada nervosa dele, um beijo durante a queda, durante a vertigem, como um mergulho.
E agora, no corredor gelado, as memórias ainda dançavam com o refrão da música.
Um nó se formou em sua garganta.
Olhou para o teto branco e opaco do colégio — e, por dentro, rezou em silêncio:

“Mãe Ceres, protege ele pra mim. Que nenhum mal o alcance. Eu sei que um dia você vai devorá-lo, vai devorar a mim também… mas, por favor, tenha piedade. Só por mais um pouco… só por esses dois anos. Eu moraria pra sempre nesses dois anos, se pudesse. Oh, Mãe, não tira isso de mim agora.”

Ela respirou fundo.
As lágrimas não caíram dessa vez.
Os olhos se abriram, frios outra vez, caçadores outra vez.
Mas dentro dela, o pedido continuava queimando, entre a melancolia e a esperança.

E, como se soubesse, mesmo distante, Theo sentiu um arrepio e olhou para trás, no pátio, com a estranha sensação de que alguém acabara de salvar sua alma mais uma vez.
No fim do corredor, a silhueta dela sumia na sombra.
Mas ainda era ela.
E ele ainda estava lá.
Por ela.

O mundo está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente.

Ceres repete isso para si mesma enquanto observa Theo lá embaixo no pátio, sentado num banco sob a sombra, o uniforme impecável e a medalha ainda brilhando no peito. Ele ri de alguma piada qualquer, tranquilo, despreocupado — e isso a corrói por dentro.

Por que tudo está tão calmo agora? Por que as engrenagens da cidade giram tão lentas, como se nada pudesse dar errado?

Ela sente a paisagem presa na garganta, como se respirar fosse difícil. É bonito demais, calmo demais, azul demais. E isso não a conforta. Isso a tortura.

A esperança, pensa, é uma das formas mais perversas de sofrimento. Porque faz parecer que é possível escapar — mas ela sabe que não é.

O mundo está constantemente em guerra. O caos é a única lei.

Então ela se pergunta quanto tempo ainda resta antes de ser devorada. Por Mãe Ceres, por Theo, pelo próprio destino. E sente uma pontada melancólica no peito, um medo doce e terrível ao mesmo tempo:

— Que venha logo — sussurra para si mesma, ainda encarando Theo lá embaixo. — Antes que eu me acostume com isso.

Ela fecha os olhos por um instante e inspira fundo, sentindo o ar gelado, o cheiro metálico do pátio, o eco das sirenes ao longe.

— Que venha logo… — repete baixinho, mas desta vez completa, só para si:
— …porque eu não aguento desejar por tanto tempo assim.

Ela ergue os olhos de novo para Theo, o sorriso dele ainda aceso, a medalha pendendo no peito como um alvo fácil. Ele não a olha agora, não percebe o quanto ela já está dilacerada só de imaginar perdê-lo.

A paz é uma tortura, conclui. A esperança é a pior de todas as armas.

Então ela encosta a mão fechada no coração, como se fosse uma prece muda, e pensa:

Oh, Mãe Ceres… se vai devorar, devore logo. Mas por favor, devore ele só depois de mim.

Ela sussurra para dentro de si, como uma oração secreta, as mãos entrelaçadas sobre o peito:

— Oh, Mãe Ceres…
— Que cuida, que educa, que alimenta…
— Que devora.

Sua voz vacila, mas não para:

— Tenha piedade de mim, tua filha.
— Devora-me antes.
— Leva a minha alma primeiro, arranca de mim a carne, o sangue, as lágrimas…

E respira fundo, mais um murmúrio:

— Mas deixa ele… deixa ele por último.
— Para que eu saiba, nem que por um instante, que ele ainda existe…
— Para mim.

Silêncio.

— Que assim seja. Viva a Mãe Ceres.


Pátio do colégio — treino improvisado de Flagball

Daime e Theo discutiam acalorados, bola de flagball em mãos.

Theo (arqueando a sobrancelha):
— Você não tem a menor noção do que tá falando, Daime. Isso aqui é precisão, agilidade e força.

Daime (revirando os olhos):
— E você não tem a menor noção do quanto é um palhaço. Quer apostar?

Antes que Theo respondesse, Ceres surge por trás, braços cruzados, sorriso afiado.

Ceres (sarcástica):
— É fácil. É só passar pelo marcador.

Daime (empolgado, aproveitando a deixa):
— Ó, tá vendo? Até a gata sabe. Vai lá, mostra pra ele.

Theo (encarando Ceres, confiante):
— Tenta então. Tenta passar por mim. Quero ver.

Ceres pega a bola com a mão, o olhar cintilando de desafio.

Theo (com um sorrisinho de desdém):
— Vai precisar de precisão, agilidade… e força.

Ceres apenas dá um sorriso sínico.
— Ah, eu tenho minhas armas.

Quando ela se posiciona para o ataque, Daime se inclina em sua cadeira e, bem alto, dispara com toda a malícia que tem:

Daime (gritando):
— THEO! TODO MUNDO SABE QUE TEU PINTO É DO TAMANHO DO MEU MAMILO!

O pátio inteiro faz um “ooooooh!” sufocado. Theo congela por um segundo, incrédulo, enquanto Ceres não consegue conter e explode numa gargalhada tão intensa que quase tropeça, mas ainda assim passa dele, marcando o ponto.

Enquanto Ceres se curva rindo e ainda vermelha, Daime levanta a camisa, esfrega o próprio mamilo, completando a humilhação:

Daime (provocando):
— E olha que até o meu que não funciona é maior que o teu, hein!

Theo (vermelho de ódio):
— FILHO DA—

Theo larga tudo e parte pra cima de Daime como um touro cego, furioso, enquanto Daime ainda grita:

Daime (indignado):
— COMO ASSIM?! NA TRAIRAGEM?!

Mas antes que Theo chegue até a cadeira dele, Ceres dá um passo, agarra a perna dele com um movimento limpo e dá uma rasteira impecável. Theo despenca no chão, ainda tentando se desvencilhar, mas Ceres já está sentada em cima do peito dele, prendendo-o no chão com um sorriso maldoso.

E, bem alto, ela declara para todo mundo ouvir:

Ceres (triunfante):
— EU VI! NÃO É PEQUENO!

O pátio explode em gargalhadas, Daime gargalha mais alto que todo mundo, batendo palmas e gritando para Theo, ainda caído no chão:

Daime (debochado, contando nos dedos):
— Tá 3 a 0 pra boneca aí, hein, Theo! No campo simulado, no drible do pátio e agora na rasteira que tu caiu feito um saco de batata!

Ele sacode a cabeça, ainda rindo:
— Boneca estranha… mas né brinquedo não, irmão!

Ceres se levanta devagar, estende a mão para Theo, ainda rindo por dentro.

Theo ainda está no chão, o rosto completamente vermelho de raiva e vergonha, ofegante, olhando para cima, onde Ceres permanece de pé, com a mão estendida para ele, o mesmo sorriso sínico de sempre.

Ele hesita por um segundo, os olhos indo de Ceres para Daime — que agora gargalha dobrado na cadeira, ainda esfregando o mamilo como provocação — e depois de volta para Ceres.

O pátio inteiro ri, mas o barulho parece sumir nos ouvidos dele.

Devagar, Theo aceita a mão de Ceres. Ela o puxa com força e ele se levanta, ainda com a postura tensa. Ele limpa a poeira do uniforme, encara Ceres com aquela intensidade crua que só ele tem… e finalmente solta um riso baixo, rouco e quase orgulhoso:

Theo (num tom só pra ela ouvir):
— Tá bom, boneca estranha… ganhou essa. Mas não me acostuma mal, não.

Ceres apenas arqueia uma sobrancelha, os olhos brilhando de satisfação:
— Já é tarde pra isso.

Ao lado, Daime aproveita para gritar, só para incendiar ainda mais:

Daime:
— ISSO! HUMILHA MAIS, CERES! FAZ ELE ENGOLIR O PRÓPRIO ORGULHO COM UM MANÉ!

Theo fecha os olhos e balança a cabeça, tentando não rir, e diz para si mesmo, baixinho, enquanto olha para Ceres se afastando:
— Boneca estranha mesmo… mas né brinquedo não.

E o som das risadas continua ecoando pelo pátio, junto com o barulho da bola quicando e Daime repetindo entre gargalhadas:
— 3 a 0, campeão! 3 a 0!

A Carta

Os dias passavam lentamente, e numa manhã cinzenta, Theo e Tycho receberam a carta. Vinha carimbada com o selo de Ceres — o sinal de que era um dos raros informes enviados aos irmãos, pais ou mães de um dos filhos escolhidos. Em média, três por ano eram entregues no colégio.

Era Tomas quem escrevia. O irmão que seria o astronauta de Ceres. Um dos filhos de Mãe Ceres que não seria devorado.

As cartas só chegavam depois que as crianças completavam dez anos. Era assim que funcionava desde sempre: aos dez, os filhos eram entregues à disciplina do colégio. Já chegavam treinados para se virar sozinhos, alimentados pela nutrição precisa e pelos exercícios motores e sociais, supervisionados em tudo — banhos, saúde, estudos, esportes.

Chamavam-nos de os Filhos de Mãe Ceres.

Era a iniciação. Aos filhos ensinava-se a respeitarem uns aos outros através da força ou da astúcia — porque no mundo de Ceres não havia espaço para fraqueza. Nenhum filho era deixado para trás. Até mesmo as crianças mais medrosas e covardes acabavam transformadas por exercícios psicológicos e físicos. Mãe Ceres tinha paciência. Não abandonava ninguém. Seus filhos eram nutridos, endurecidos e ensinados a odiar aqueles que ousassem odiar Mãe Ceres.

As crianças mais difíceis eram banhadas em água gelada. Dormiam no chão. Recebiam poucas refeições. Passavam noites inteiras no escuro como castigo.

Era simples: obedeça, ame Mãe Ceres, e terá o privilégio das suas tetas — que jorram mel.

O carinho de Mãe Ceres era não ser abandonado.

E, se fossem dignos, seriam devorados por ela com orgulho — controlados, obedientes, forjados numa noção perfeita. Não a perfeição absoluta, mas a borda da perfeição.

Todos pereceriam um dia.

Só não morreriam de fome aqueles que mamam nas tetas de Mãe Ceres.

Porque seus filhos não morrem de fome.

Morrem por ser devorados por ela.

A carta chegou numa manhã fria, dobrada com precisão, de cor cinza escuro, o selo carimbado com a face de Mãe Ceres gravada a fogo. Theo e Tycho a abriram juntos, os dedos trêmulos, sentindo já a pressão do chumbo que se formava na garganta antes mesmo de lerem a primeira linha.

Era de Tomas.

O irmão mais velho.

O que todos chamavam de o astronauta de Ceres.

Um dos poucos filhos que não seriam devorados por ela — não agora.

A caligrafia dele era firme, bonita, quase militar:

“Irmãos,
A vida aqui é dura. O treino é absoluto. Todos os dias me preparam para comandar a nave que nos levará à Estação Flutuante. Cada simulação que enfrento, cada sacrifício que faço… sinto que Mãe Ceres tem orgulho de mim.
Saudades da teimosia de Theo, da pureza tola do meu caçula, Tycho. Um dia vocês vão me superar — porque cada geração deve ser melhor que a anterior.
Tenho um filho agora. Um ano já, sob os cuidados da mãe no alojamento em Pietà. Ele também será mais forte do que nós. Nunca vai me conhecer, mas já amo esse menino como Mãe Ceres me ensinou a amar vocês: com orgulho e sem lágrimas.
Estou na melhor fase da minha vida, irmãos. Se um dia sentirem saudade, olhem para o céu. Quando virem meus olhos lá em cima, é porque estou vigiando vocês.
Gostaria de abraçá-los. Mas quando eu chegar na estação espacial, lá no alto eu abraçarei o mundo inteiro.
Não pensem que é fácil deixar vocês. Por vezes pensei em desistir… mas Mãe Ceres é minha motivação. Ela me lembra que nós, filhos dela, não choramos.
A saudade dói como uma bola de chumbo na garganta, mas a obrigação é maior. É absoluta.
Envio a Tycho uma medalha — só posso mandar um presente por carta. Guarde bem.
Não sejam emocionais agora. Sejam eloquentes. E, se puderem usar suas emoções, que seja para fortalecer a razão.
Amo vocês. E amo Mãe Ceres.
— Tomas”

Quando terminaram de ler, Theo fechou os olhos com força, tentando engolir o nó. Tycho segurava a medalha com as duas mãos, como se fosse frágil, mas era fria, pesada e resistente como tudo que Mãe Ceres tocava.

Eles se abraçaram ali mesmo, no dormitório gelado, sem dizer nada. Apenas sentiram a saudade descer pelos ossos como um fim de tarde, queimando devagar.

Mas não choraram.

Porque filhos de Mãe Ceres não choram.

E não se despediram como se despede do sol — fizeram como a lua no crepúsculo: quietos, sóbrios, com um brilho que ninguém mais vê.


Thoughts

Related posts