João só percebeu que estava correndo além do próprio limite quando a bota enroscou em uma raiz exposta e ele se debruçou sobre o chão. Marina agarrou a alça do colete dele no último milésimo de segundo, impedindo que quebrasse o nariz nas pedras, mas nenhum dos dois diminuiu o ritmo.
Atrás deles, o vento na floresta parecia gritar. Não era o som de vento forte; era o som de uma natureza sendo desfeita. Troncos centenários estalavam e desabavam sozinhos. Pedras rolavam como se a própria terra estivesse convulsionando. De tempos em tempos, um clarão metálico rasgava a copa das árvores, iluminando a fuga deles com uma luz que não aquecia, apenas engolia as sombras.
Alexander vinha logo atrás, os dentes trincados, segurando a costela onde o impacto de Azoth o atingira. Mesmo mancando e deixando um rastro ralo de sangue nas folhas, o guerreiro mantinha a retaguarda, girando o rosto a cada ruído.
O problema era que corriam às cegas, haviam deixado a fortaleza em ruínas sem o mapa, sem provisões, sem Daiquiri. E, acima de tudo, haviam deixado Edran para trás.
Quando os pulmões de João finalmente ameaçaram falhar, suas pernas fraquejaram. Ele despencou de costas contra o tronco de um carvalho largo, puxando o ar com o desespero de quem se afogava. Marina parou ao lado dele, as mãos nos joelhos, os olhos cravados no caminho escuro por onde vieram. Ela não precisava dizer nada, o peso daquela noite esmagava os dois.
João passou a manga da camisa no rosto sujo de terra e sangue, soltando uma risada seca e completamente sem humor. — A gente realmente conseguiu transformar uma viagem de escolta fuleira numa guerra contra um lorde das trevas... Eu sabia que devia ter cobrado mais caro.
Marina não sorriu, seus nós dos dedos estavam brancos de tanto apertar a alça da bolsa de couro.
— Edran morreu — soltou ela.
João fechou os olhos.
— Eu sei.
— Daiquiri matou o Edran...
— Eu sei, Marina.
Ela puxou o ar, trêmula, tentando engolir o nó na garganta antes de dizer a única coisa à qual podia se agarrar: — Ele não matou... Azoth usou o corpo dele.
João abriu os olhos, o olhar pesado.
— No momento, se importar com isso não me parece ser a prioridade pra gente.
Marina girou nos calcanhares, encarando-o com uma fúria repentina que o calou no ato.
— Não é pequena! Se existe uma gota do Daiquiri lá dentro, então essa diferença é tudo. Eu vi os olhos dele, João. Eu vi o rosto dele no meio daquela explosão. Ele estava tentando voltar. Ele entregou o controle para o Azoth não matar a gente!
João a observou por longos segundos. Aos poucos, a tensão nos ombros dele cedeu. Ele assentiu devagar. — Então é isso. A gente traz o seu 'namoradinho' de volta.
Marina olhou para a escuridão da mata. — E como a gente faz isso?
João apoiou as mãos nos joelhos e forçou o corpo dolorido a se levantar, espanando a poeira da calça rasgada.
— Ainda não faço a menor ideia. Mas você falou com tanta convicção que eu vou fingir que você tem um plano excelente.
Alexander os alcançou logo depois, encostando o ombro bom em uma árvore. A mancha escura na túnica havia crescido, mas quando Marina deu um passo para examiná-lo, ele levantou a mão, dispensando a ajuda. Alexander tinha um jeito muito particular de decidir quando um ferimento era letal ou não, e aparentemente aquele não merecia atenção.
Mas havia algo muito pior do que sangue acontecendo ali e Marina sentiu primeiro. O ar estava viciado. O vento mudava de direção abruptamente, como se estivesse fugindo, não havia o canto de um pássaro noturno, nem o zumbido de um inseto. A floresta inteira prendera a respiração.
Foi então que ela abaixou os olhos e viu as marcas na terra úmida.
Não eram pegadas humanas, eram sulcos profundos, largos, com três dedos alongados terminando em garras afiadas que rasgavam o solo. Alexander agachou-se perto de uma delas e, no mesmo instante, o som do aço de sua espada saindo da bainha ecoou pela clareira.
João suspirou, olhando para a copa escura das árvores.
— Se forem bichos do tamanho que essas garras sugerem, eu gostaria de dizer que meu dia já atingiu a cota de tragédias.
Marina, porém, não sacou a faca. Os livros que devorara em Arken piscaram em sua memória. — Não são monstros — murmurou ela, maravilhada. — São homens-fera, como você Alexander.
Alexander não relaxou a postura. — Tem certeza?
Ela assentiu, as lendas contavam sobre tribos antigas, conectadas à própria raiz do mundo. Tinham lutado ao lado de Ezekiel na Grande Guerra do Rei Demônio, sentindo as perturbações na magia muito antes de qualquer humano, mas haviam sumido dos mapas comerciais há décadas, com uma pequena minoria ainda servindo como mercenários nas cidades mais próximas da capital.
— Se eles estão aqui, estão fugindo de Azoth também — concluiu Marina.
— Ou esperando a gente entrar numa armadilha bonitinha — rebateu João.
— Se for uma armadilha, pelo menos é um conforto saber que não somos os únicos a ter planos ruins — grunhiu Alexander.
Um estalo ecoou acima deles. Três sombras despencaram dos galhos altos com a leveza de folhas caindo, aterrissando sem fazer ruído. Alexander ergueu a lâmina, mas Marina espalmou a mão no peito dele, forçando-o a parar.
As criaturas não atacaram, eram impressionantes: altas, cobertas por uma pelagem espessa, com traços faciais que misturavam humanidade e predadores selvagens. A postura, no entanto, era de guerreiros experientes. Uma segurava um arco longo tensionado; a outra, uma lança de madeira negra. A terceira, que parecia ser a líder, tinha o pelo grisalho e cicatrizes naturais cruzando o focinho achatado, diferente de Alexander, elas possuíam um aspecto mais canino e não reptiliano.
Ela avaliou os três com olhos cor de âmbar antes de falar em um idioma humano perfeito, áspero, mas calmo.
— Abaixem as armas, não há presa aqui.
João apontou o polegar para Alexander, depois para si mesmo.
— Alguma regra local sobre viajantes machucados, ou podemos continuar sobrevivendo em paz?
A mulher-fera ignorou a piada, seus olhos felinos cravaram-se em Marina. Mais especificamente, no ombro de Marina. — Vocês carregam um artefato.
Marina puxou a bolsa instintivamente contra a barriga. — Como sabe disso?
— A floresta avisa — respondeu a criatura, a voz rascante. — Algo antinatural rasgou nossas terras esta noite, algo que não pulsa com vida... Seguimos o rastro de decomposição que ele deixou, e encontramos vocês.
João piscou para Marina. — Eu adoraria que você parasse de guardar cacarecos misteriosos que fazem todo mundo da floresta encontrar a gente.
— A bolsa não é o problema, João — ela retrucou, voltando-se para a líder. — O que vocês querem?
— Queremos impedir que a escuridão alcance a Fonte de Raiz — disse a mulher-fera. — O coração vital desta região, é para lá que o demônio marcha.
Marina compreendeu no mesmo instante. A Fonte de Raiz era como o ponto no mapa que havia feito o papel queimar na fortaleza, um nodo de energia pura.
— Vocês sabem como separar Azoth do Daiquiri? — perguntou ela, o coração acelerando.
A líder hesitou, as orelhas abaixando levemente. — Separar, não. Mas sabemos onde o elo dele com a casca mortal é mais fraca.
Foi a primeira faísca de utilidade real que encontraram desde a morte de Edran. Marina aceitou segui-los sem pestanejar. Alexander relutou, não por preconceito, mas pelo instinto de quem não confia em terreno desconhecido. Já João deu de ombros, resmungando que perder a chance de acampar com criaturas de contos de fadas seria um desperdício.
A líder apresentou-se como Nara. Enquanto marchavam em ritmo acelerado, ela revelou que o povo-fera sentira o despertar de Azoth semanas antes do ataque a Arken. Fontes de água secando, pássaros caindo mortos em pleno voo, carvalhos milenares apodrecendo de dentro para fora.
— A possessão da casca não foi o começo do despertar do demônio, foi o gatilho final — disse Nara.
— Daiquiri — corrigiu Marina, ríspida. — Ele tem nome e não é só uma casca.
Nara não pareceu ofendida.
— Eu sei o nome dele, garota. E é por ter um nome que precisamos alcançá-lo antes que a entidade corroa a mente do garoto e o transforme em uma extensão permanente de si mesmo.
Sob a luz filtrada da lua, Nara compartilhou pedaços de história que Ezekiel jamais contara. Havia registros de uma mulher na Grande Guerra, uma aliada de Ezekiel, descrita apenas como "a guardiã". Ela sabia sobre a divisão da essência, e sabia que, um dia, o sangue de Ezekiel pagaria o preço do esconderijo.
Marina absorveu cada palavra em silêncio, a mente dela girou, conectando peças. A mulher da caravana sabia do ataque. Sabia que Daiquiri estava na carroça. Sabia que eles precisavam chegar a Arken. Ezekiel não contava nada, mas aquela mulher parecia saber até o fim da história antes dela começar.
Mais tarde, abrigados entre as raízes formidáveis de uma árvore colossal, João sentou-se ao lado de Marina.
— Por que você tem tanta certeza de que o Daiquiri ainda tem salvação? — perguntou ele, espetando o fogo com um graveto.
— Eu vi, João. Quando Azoth entrou, o Daiquiri tomou o controle por uns segundos para não nos atacar, se o domínio fosse perfeito, isso nunca teria acontecido.
Nara, ouvindo da escuridão, aproximou-se.
— Chamamos isso de Resistência Espiritual, uma força externa pode ocupar o espaço da energia, mas jamais apaga a alma de quem tem laços fortes com a vida.
— Então o Daiquiri ainda tá lá — João constatou, uma ponta de alívio na voz.
— Sim, mas é uma corrida contra o tempo — alertou a Nara. — Quando Azoth mergulhar na Fonte de Raiz, a fusão se selará. Não haverá mais humano, apenas Azoth
Alexander, polindo a espada em silêncio, finalmente ergueu a voz grave. — Por que estão nos ajudando? Não devem nada a Ezekiel.
Nara olhou para o céu sem estrelas. — Não lutamos por Ezekiel, lagarto. Lutamos pela terra. Reis humanos querem governar; Azoth quer consumir. Impérios caem e a grama volta a crescer, mas uma criatura que devora a própria energia do mundo... só deixa poeira para trás. Lutamos contra o silêncio que ele deixará quando não houver mais nada para devorar.
Alexander assentiu, para um homem-fera, não havia argumento melhor.
Muito longe dali, a quilômetros de distância, Daiquiri caminhava, ou melhor, os pés de Daiquiri pisavam na grama. Azoth estava no comando.
Por onde passavam, o mundo apodrecia. A folhagem secava e virava pó cinzento ao toque das bota, pequenos animais caiam mortos em suas tocas. Daiquiri assistia a tudo de um camarote afogado na própria mente. Era um prisioneiro atrás dos próprios olhos, sentindo o ardor do frio mágico que Azoth irradiava, mas incapaz de mover um mindinho.
A entidade estava eufórica, caminhava com a familiaridade de um lorde inspecionando suas terras, vestindo o corpo de Daiquiri com um conforto assustador. Mas algo estava errado. Daiquiri notou a frustração borbulhando nas bordas da mente invasora: Azoth não conseguia ver tudo.
Ele tinha acesso às memórias militares, aos traumas, à culpa sobre Polaris, ao rosto de Edran. Mas havia portas trancadas. E, toda vez que Azoth tentava forçá-las, batia de frente com uma barreira: A mãe de Daiquiri.
Daiquiri sequer lembrava dela conscientemente. Mas, de repente, lá no fundo de sua prisão mental, um cheiro doce de lavanda inundou sua alma. Uma voz suave, quase um murmúrio de cantiga de ninar, a sensação de uma mão macia escovando seus cabelos na infância. A imagem tremeluziu e apagou, mas o efeito foi imediato. Azoth urrou dentro da mente dele, irritado, enojado pela pureza daquela lembrança intransponível, naquele segundo escuro e solitário, Daiquiri sorriu em espírito. Azoth era quase onipotente. Mas não conseguia tocar naquilo que foi feito de amor puro. E se havia buracos na percepção da entidade, então havia uma forma de lutar — Havia um ponto cego.
De volta ao acampamento nas raízes, Marina abriu a bolsa de couro e tateou o fundo. Puxou a pequena pedra que estava na caixa de madeira, que haviam encontrado na caravana, que Harlan dizia não ser da conta deles, ela pegou-a e pôs no chão. Assim que a pedra tocou o solo de musgo, algo bizarro aconteceu, as raízes grossas ao redor do acampamento começaram a vibrar. Lentamente, como cobras atraídas pelo calor, as ramificações de madeira rastejaram em direção ao fragmento.
Nara levantou num pulo, os pelos do pescoço eriçados. — Isso estava com você?! — ela ofegou.
Marina engoliu em seco. — Sim.
A mulher-fera esticou a mão, pairando os dedos com reverência a centímetros do objeto, sem ousar tocá-lo. — Isso não é uma pedra qualquer...
— Então o que é? — João perguntou, já com a mão no cabo do arco.
Nara levantou os grandes olhos cor de âmbar para Marina, repletos de terror e fascínio.
— Isso é a casca de algo que foi ocultado dos olhos dos deuses... Uma âncora contra Azoth.
Marina ficou petrificada: O fragmento, as anotações, a bolsa indestrutível e o mapa que queimou. Pela primeira vez, a garota olhou para a bolsa de couro em suas mãos não como uma herança de pesquisa, mas como uma arma perfeitamente calibrada. Alguém havia arrumado aquela bolsa muito antes de ela nascer. E pior: alguém havia planejado que Daiquiri estivesse exatamente naquela caravana miserável, para que os dois colidissem e começassem aquela jornada.
Então a caravana nunca foi um evento acidental, desde o começo era um contra-ataque contra Azoth.