Fui profanado até a próxima vida,
maculado e consumado por aquela víbora.
Travestido em imperador, sob pompa heroica,
fez de mim poppAea, enquanto Nero me invoca.
.
Tragou-me até o que já não me resta,
hasteou-me à glória pelo altar daquela festa.
Fez de meu torso um ornamento inestimável,
e, entre incensos e proscênios sepulcrais,
deificou-me, tornando-me intocável.
.
Presenteou-me então com um buquê deveras sublime —
de flores etéricas, de perfume que me oprime.
Toquei suas pétalas; nesse gesto consagrei,
e, ao aspirar sua fragrância, com veneno essa união honrei.
.
Cheirei-o com esmero de devoto casto,
e vi-me a esvair daquele rito nefasto.
Pois de beladona era o buquê funesto.
Por fim, uma pétala ruiu ao chão,
Selando meu último suspiro modesto.