Estás a encarar, pupilas a dilatar
Por conta do então vislumbre
De cores oliva, traços de mel,
Caramelo salgado e doce maresia.
Em prosa e clericot, a recitar
Rimas e versos, de deslumbre,
Inescrutáveis como uma cascavel,
Sibilando retórica para sua fantasia.
Sobrancelhas perfeitas e abundantes,
Rosto de maxilar e nariz marcantes;
Trazendo um traço assimétrico e estético.
Como pode alguém deificado e poético?
Sua silhueta esguia e alta,
Como os templos de Malta,
Esculpida em Globigerina*,
Numa nobreza tão genuína.
A brisa do mar vem destruindo as rimas
Que, há instantes, eram truísticas,
Por conta de uma cena toda cênica,
De uma gota de suor, lenta e obscena.
Sua presença, por si só,
É um poema.
Seus gestos, delicados,
Trazem tormento
Para aqueles que o cercam.
O azul parahyba**, ele contempla,
Em olhos cheios de melancolia
E maresia de águas gélidas.
Essa poesia vai encaracolando
os versos.
Em seus cabelos,
emaranhados pelo vento.
E ao descrever o suposto amor de verão.
Irão faltar cores nos outros,
ao moço rabiscar.
“A taça de clericot sobre a mesa,
O teu corpo sob o meu;
Meus cabelos em teus dedos;
Gosto de sangria no teu beijo.”
Tão atento vi-me a contemplar-lhe
Que o espelho vem a relembrar-me
O amante que outrora eu já fora,
Um poema em cores de valia.
Vívido em meus amores,
afora pelo mundo,
Esculpindo minhas dores.
Rodapé
*: Calcário cor de mel formado por microfósseis marinhos, típico da construção e da escultura em Malta.
** Turmalina azul-neon, colorida pelo cobre, descoberta nos anos 1980 na Paraíba, Brasil. Uma das gemas mais raras que existem.