O Mefi espremido entre os dois de manhã, satisfeitíssimo. Esse gato é quem manda naquela casa, ninguém me tira isso da cabeça.
Capítulo 1: Quer Pertencer - Parte 5 Final
Na Sé, desceu junto com a multidão.
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O Mefi espremido entre os dois de manhã, satisfeitíssimo. Esse gato é quem manda naquela casa, ninguém me tira isso da cabeça.
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Na Sé, desceu junto com a multidão.
Fez a baldeação no horário de pico.
Empurrões.
Passos apressados.
Avisos pelos alto-falantes.
Encontrou uma tomada perto de um banco ocupado.
Sentou-se no chão.
Não era pelo descanso.
Era pelo carregador.
Ligou o celular.
Esperaria a estação esvaziar um pouco.
Não tinha pressa de enfrentar outro vagão lotado.
Abriu o Instagram.
Os três perfis.
Outra vez.
As fotos pareciam diferentes agora.
Não olhava mais apenas para eles.
Olhava para os detalhes.
A luz âmbar atravessando a janela do apartamento de Anton.
O sofá.
Os pufes espalhados pela sala.
A coleção de discos.
O gato preto.
Mefi.
Sorriu sozinha.
Imaginou o gato caminhando entre eles como se fosse o verdadeiro dono da casa.
— Se esse gato falasse...
Riu baixinho.
Lembrou de um meme qualquer da internet.
Olhou novamente para as fotos.
Imaginou-se sentada naquele sofá.
Tomando café.
Escutando um disco.
A vista da Augusta iluminada.
Depois imaginou outra coisa.
Os bares.
As prostitutas elegantes.
Os casais.
Os grupos.
A cidade que nunca parecia dormir.
Mordeu o lábio.
Sem querer.
A cabeça começou a inventar histórias.
Será que eles moravam juntos?
Será que eram um casal?
Os três?
Ou nada daquilo?
Fechou os olhos por um instante.
— Para, Clarisse...
Abriu-os de novo.
Não adiantou.
A curiosidade voltava.
Mais forte.
Lembrou das palavras de Linda.
"Cuidado com eles."
Mas cuidado por quê?
Quem era a garota de quem haviam falado?
O que tinha acontecido?
Voltou ao perfil de Anton.
Silencioso.
Difícil de decifrar.
Depois Iago.
Um sorriso que parecia convencer qualquer pessoa a esquecer os próprios problemas.
Por fim, Guillian.
Parecia saída da capa de uma revista alternativa.
As tatuagens delicadas.
O olhar doce.
E, ao mesmo tempo...
Algo que Clarisse não conseguia explicar.
Como se inocência e perigo ocupassem o mesmo corpo.
Passou o polegar pela tela.
Desligou o celular.
Respirou fundo.
— Meu Deus...
Sorriu sozinha.
— Que confusão...
A bateria carregava lentamente.
A mente dela, não.
Cada minuto parecia inventar uma nova pergunta.
E nenhuma resposta.
Ela entrou na Galvão Bueno.
O cheiro das barracas ainda vinha da praça.
Pensou em parar.
Comer qualquer coisa.
Mas não.
A cabeça estava cheia demais.
Era a segunda noite seguida que pulava o jantar.
O primeiro dia de trabalho ainda girava dentro dela.
[...]
A água quente escorria pelos ombros.
Fechou os olhos.
Pela primeira vez naquele dia...
Silêncio.
Nenhum metrô.
Nenhuma buzina.
Nenhuma voz.
Apenas a água.
Ela respirou fundo.
Tentou pensar em qualquer outra coisa.
Não conseguiu.
O trio voltou.
As risadas.
O almoço.
Os olhares.
A facilidade com que se tocavam.
Como se o mundo inteiro não existisse quando estavam juntos.
Ela passou a mão pelo rosto.
"Para, Clarisse..."
Abriu os olhos.
Foi até o celular.
O Spotify continuava no aleatório.
A próxima faixa começou.
Back To Friends.
Ela sorriu sozinha.
— Não é possível...
Voltou para debaixo da água.
A música parecia conhecer seus pensamentos.
Encostou a testa na parede do box.
Por um instante, deixou a imaginação seguir sem resistência.
Imaginou o apartamento.
Os discos.
Mefi andando pela sala.
As janelas abertas para a Augusta.
O sofá.
As conversas.
Ela ali.
Não sabia fazendo o quê.
Apenas ali.
Sentindo aquele lugar.
Sentindo aquelas pessoas.
Sem perceber, levou a mão ao próprio corpo num gesto quase automático.
Parou.
Respirou.
Como se despertasse de um sonho.
— Meu Deus...
O coração acelerado.
— O que está acontecendo comigo?
A música chegou ao refrão.
Ela fechou o chuveiro.
Permaneceu imóvel.
Quando a última nota terminou, o banheiro voltou ao silêncio.
E, estranhamente...
isso a incomodou mais do que a própria música.
No apartamento de Anton.
Chão de taco de madeira.
Algumas plantas espalhadas pela sala.
Ao fundo da lavanderia, a caixa de areia de Mefi.
O gato apareceu e miou como quem desejava boa noite.
Anton foi para o segundo banheiro do apartamento.
Pegou uma muda de roupas simples.
Tomou um banho quente.
Vestiu uma camiseta branca, calça de moletom preta.
O piso estava gelado.
Mesmo assim, preferia andar descalço.
Foi até a cozinha.
Encheu um copo com água gelada.
Enquanto bebia, escutou o chuveiro do outro banheiro.
Guillian cantava junto com a música.
Desafinava de propósito.
Era sua maneira favorita de irritar Anton.
Ele sorriu sozinho.
— Manezona...
Mefi voltou a miar.
Agora era um pedido bem conhecido.
Carinho.
Sachê.
Comida.
Anton se abaixou para fazer um cafuné.
— Né, Mefi... só você me entende sem dizer nada além de "miau".
Foi até a sala.
Ligou a televisão.
Passava um documentário sobre onças-pintadas.
Nem prestou atenção.
Sua mente vagava por lugares muito mais distantes.
Pensou no pai.
Na herança.
Na loja da galeria.
Nos apartamentos alugados que garantiam parte de sua renda.
Depois...
Na mãe.
Olhou o celular.
O aluguel havia caído na conta.
Logo abaixo, três ligações perdidas dela.
Seu olhar parou na tela.
Por alguns segundos, tudo ao redor desapareceu.
Até a voz desafinada de Guillian pareceu distante.
— Anton... tudo bem?
Ele levantou os olhos.
Guillian estava parada na porta.
Vestia uma camiseta branca dele.
Um moletom preto.
E apenas uma calcinha.
Anton respirou fundo.
— Gui...
Ela sorriu.
— Hum?
— Faz um favor pra mim.
— Qual?
— Coloca uma calça de moletom.
Ela olhou para si mesma.
— Não gostou?
— Não é isso.
— Então?
— A gente já conversou sobre isso.
Ela deu uma voltinha.
— Eu não estou bonita?
Anton desviou os olhos.
— Você está.
Ela sorriu, satisfeita.
— Então qual é o problema?
Ele voltou a encará-la.
— Coloca uma calça.
E uma meia.
Ou um chinelo.
Você vai sentir frio.
Ela fez bico.
— Chato...
Virou-se resmungando.
Mefi observava a cena como quem tentava entender aqueles humanos.
Poucos minutos depois, Guillian voltou.
Agora vestia uma calça de moletom larga, cobrindo as pernas tatuadas.
Sentou-se ao lado de Anton.
Bem perto.
— Tô com frio.
— Jura?
Ela encostou o ombro no dele.
— Do seu ladinho esquenta.
Anton apenas suspirou.
— Fica quietinha.
Ela sorriu.
— Hum...
O silêncio voltou a tomar conta da sala.
Durou menos de um minuto.
— Tô com fome.
Anton fechou os olhos.
— Gui...
— Desculpa.
Esse silêncio abriu meu apetite.
Ele pegou o celular.
— Tá.
O que você quer comer?
Ela pensou.
— Não sei...
Anton sorriu de lado.
— Ótimo.
Vou pedir urubu assado com mocotó.
Ela deu um tapa leve no braço dele.
— Nossa... grosso!
Ele riu.
— Tá bom.
O que você quer?
— Qualquer coisa.
Ela respondeu já encostada demais.
Anton virou o rosto para responder.
Foi quando percebeu.
O hálito doce.
As pequenas sardas entre os olhos.
A pele sem esforço para parecer bonita.
O jeito distraído como a língua passeava entre os dentes enquanto pensava.
Por um instante...
Esqueceu completamente a pergunta.
Piscou.
Respirou.
Voltou para si.
— Vou pedir duas batatas assadas com queijo e bacon.
Ela abriu um sorriso.
— E água com gás.
— Fechado.
Anton fez o pedido.
Como se aqueles poucos centímetros entre os dois nunca tivessem existido.
Guillian encostou os pés gelados no colo de Anton.
— Gui... como você consegue ser tão irritante?
Ela abriu um sorriso, satisfeita ao vê-lo estremecer com o frio.
Sem dizer nada, Anton segurou os dois pés dela e os enfiou debaixo das próprias axilas.
— Ai!
Guillian levou um susto.
Por um instante, imaginou que ele faria outra coisa.
Sentiu apenas o calor.
Muito calor.
— Nossa... que suvaco quente!
Anton deu de ombros.
— Dá pra chocar um ovo de galinha aí.
Os dois caíram na gargalhada.
O riso de Anton era raro.
Quando acontecia, parecia exagerado de tão verdadeiro.
Era contagiante.
Quase infantil.
Guillian adorava provocar justamente para ouvir aquele som.
Naqueles instantes, parecia que Anton esquecia as ligações da mãe, a morte do pai, as preocupações que carregava.
Existiam apenas os dois.
As risadas.
O apartamento.
O silêncio confortável que vinha depois.
Guillian mordeu o lábio, tentando conter o sorriso.
Anton ainda ria quando os dois quase se tocaram.
O interfone tocou.
— As batatas! — disse Guillian.
Anton suspirou.
— É... as batatas.
Ela sorriu.
— Você gosta de batata. Lembra?
— Lembro.
O interfone insistiu.
Anton atendeu.
— Fala, Seven... tô descendo.
Saiu descalço.
Assim que a porta fechou, Mefi pulou no sofá.
Guillian o pegou no colo.
O gato começou a amassar pãozinho em suas pernas.
Ela fez carinho na mancha branca do peito dele.
— Mefi... essa pintinha parece uma gravatinha de padre.
O gato apenas piscou.
— Aposto que você conhece todos os pecados do Anton...
Sorriu sozinha.
— Eu devo ser um deles, né?
Poucos minutos depois, Anton voltou com o pedido.
— Bora matar essa fome.
— Humm... agora você falou minha língua.
Ela colocou Mefi no chão.
Enquanto Anton organizava os pratos sobre a mesa de centro, Guillian perguntou:
— Já pensou se o Mefi falasse?
— Vixe...
Anton abriu um sorriso.
— Ele saberia todos os meus pecados.
Olhou para ela.
— E você é um deles.
Por um instante, Guillian ficou em silêncio.
Observou Anton distribuindo os talheres.
Sentou-se na cadeira com os pés recolhidos, como uma criança.
Anton sorriu ao vê-la.
Cada um pegou sua batata recheada e a água com gás.
Guillian deu a primeira garfada.
Fechou os olhos.
— Nossa... isso tá muito bom.
Anton ergueu uma sobrancelha.
— Como você sabe?
Ela o encarou sem entender.
— Ué... batata com bacon.
— Deixa eu provar.
— Como assim? As duas são iguais.
— Mesmo assim.
Ela revirou os olhos e empurrou o prato para ele.
— Tá bom...
Anton trocou os pratos.
Provou uma garfada.
Bebeu um gole de água.
Fez cara de quem analisava seriamente.
Olhou para ela.
— Realmente...
Fez uma pausa.
— É batata com bacon.
Guillian caiu na risada.
Anton tentou continuar sério.
Não conseguiu.
A água escapou pelo nariz.
Os dois explodiram em outra gargalhada.
Daquelas que fazem esquecer o resto do mundo por alguns segundos.
Anton terminou a batata e ficou esperando Guillian.
Ela parecia fazer cada refeição durar uma eternidade.
Ele observava, divertido, a bagunça que ela deixava no prato.
— Terminei.
— Deixa que eu arrumo tudo.
Anton recolheu os pratos, os copos e levou tudo para a cozinha.
Lavou a louça com a calma de sempre.
Secou as mãos.
Quando voltou, percebeu alguns pedacinhos de bacon espalhados sobre a mesa, do lado onde Guillian estava.
Pegou um deles e colocou na boca, distraidamente.
Só depois percebeu que era um pedaço que havia caído da batata dela.
Nem comentou.
Continuou ajeitando a mesa.
Olhou para Guillian.
— Bora dormir?
Ela fez uma careta.
— Já?
— Amanhã a vida continua.
Ela cruzou os braços.
— E você não vai cantar pra eu dormir?
Anton riu pelo nariz.
— Quer mesmo?
— Quero.
Ele balançou a cabeça e virou de costas, caminhando em direção ao corredor.
Guillian levantou depressa.
Abraçou Anton por trás.
Ele parou.
Ela apoiou o rosto nas costas dele.
— Quero um beijo de boa-noite...
Anton permaneceu imóvel por alguns segundos.
Depois virou-se devagar.
Abraçou Guillian de frente.
Nenhum dos dois disse uma palavra.
Ele sorriu de leve.
— Fecha os olhos.
Ela obedeceu.
Anton segurou seu rosto com as duas mãos.
Com delicadeza, deu um beijo sobre um olho.
Depois...
Outro no outro.
Acariciou de leve seu rosto.
— Boa noite, Gui.
Soltou-a.
Virou-se novamente.
Mefi, que observava tudo do corredor, levantou-se e seguiu Anton até o quarto.
Guillian permaneceu parada na sala.
Ainda de olhos fechados.
Sorriu sozinha.
Depois apagou a luz.
A noite passou.
Na manhã seguinte, Anton despertou devagar.
Sentia um calor agradável.
Um cheiro suave de hidratante.
Abraçava alguma coisa.
Era quente.
Confortável.
Lá fora, a manhã era fria.
Ainda sonolento, deslizou a mão de leve.
Encontrou cabelos macios encostando em seu rosto.
Abriu os olhos.
Guillian dormia de lado, de costas para ele, toda encolhida, como quem buscava guardar o próprio calor.
Mefi estava espremido entre os dois, completamente satisfeito com a situação.
Anton soltou um suspiro.
— Gui...
Ela abriu um sorriso antes mesmo de abrir os olhos.
— Bom dia.
— Não é possível...
Agora sim, ela abriu os olhos.
— Mano... tá frio.
A voz saiu sonolenta.
— Tá quentinho aqui. É um crime dormir sozinha num frio desses.
Anton fechou os olhos outra vez.
Suspirou.
Já sabia que discutir não adiantaria.
Apenas aceitou.
Ficaram ali, em silêncio.
Sem pressa.
O apartamento ainda dormia.
Mefi ronronava entre os dois, como se tivesse decidido que aquele era exatamente o lugar onde todos deveriam estar.
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