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Capítulo 1: Quer Pertencer - Parte 3

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Anton permaneceu encostado na porta da loja.

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Anton permaneceu encostado na porta da loja.

Iago apareceu na entrada da barbearia.

— Seu cretino...

Anton sorriu.

— Cala a boca, Iago.

O estúdio de Guillian permanecia fechado e silencioso.

— Vou chamar o Gui. Bora almoçar com a gente?

— Vai lá. Eu passo no banheiro antes. Espero vocês na entrada da galeria.

Anton seguiu pelo corredor.

Iago subiu as escadas.

Parou diante da porta da Rosa Selvagem e bateu duas vezes.

— Gui... sou eu.

Silêncio.

Logo depois, uma voz respondeu lá de dentro.

— Amore mio... o que você quer, meu xuxu?

Iago riu.

— Esqueceu de comer hoje? Depois fica agradavelmente irritada.

A porta se abriu.

— Eu não sou chata.

Ela cruzou os braços.

— Sou agradavelmente irritada.

— Então vem. Bora almoçar.

— E o Anton?

Iago fingiu pensar.

— Ah... ele foi almoçar com a garota linda do ateliê.

Guillian arregalou os olhos.

— O quê?

Iago caiu na risada.

— Calma! Tô brincando. Ele foi ao banheiro.

Ela deu dois soquinhos no ombro dele.

— Odeio essas brincadeiras.

— Você é muito bobinha.

— Se você tivesse deixado o Anton sozinho, eu te esganava.

Enquanto falava, fechou o estúdio e pendurou a placa:

HORÁRIO DE ALMOÇO

Iago sorriu.

— Ciumenta...

— Nem vem.

Ela deu um empurrão leve nele.

Os dois desceram as escadas.

Anton já os esperava na entrada.

Por alguns segundos, ninguém disse nada.

Depois sorriram.

Como se bastasse estarem juntos.

— Bora naquele restaurante do beco? — perguntou Anton.

Guillian abriu um sorriso.

— Eu estava pensando exatamente nisso.

— Os doces de lá são maravilhosos — comentou Iago.

Anton olhou para ele.

— Você e esses doces...

Iago fingiu indignação.

— Tá me chamando de gordo?

Anton caiu na risada.

— Nunca.

Guillian passou o braço pelos ombros de Iago.

— Ele só gosta de te provocar.

— É fome — respondeu Anton.

Os três riram.

Saíram juntos para a Rua Augusta.

Algumas estudantes que deixavam a faculdade acompanharam o trio com os olhos.

Eles pareciam não perceber.

Ou talvez estivessem acostumados.

Caminhavam como quem pertence um ao outro, sem precisar explicar.

Quem os via de longe sempre tentava adivinhar.

Eram amigos?

Namorados?

Irmãos?

Ninguém sabia.

Talvez nem eles soubessem definir.

E, no fundo, isso nunca pareceu importar.

Ao chegarem ao sinal, Guillian abriu um sorriso travesso.

Quando o semáforo ficou verde para os pedestres, saiu correndo pela faixa com os braços estendidos para trás, como uma criança.

Anton e Iago atravessaram abraçados.

À frente deles, Guillian fingia puxá-los por uma corda invisível.

Algumas pessoas sorriam ao ver a cena.

Outras apenas observavam.

Os três nem percebiam.

O restaurante do Beco ficava logo ali.

Entraram.

Sentaram-se à mesa de sempre.

Anton e Iago lado a lado.

Guillian de frente para os dois.

O garçom se aproximou com o cardápio.

— Não precisa, meu jovem — disse Iago, sorrindo. — Um bife com fritas e uma água com gás, por favor.

Anton fez o pedido em seguida.

— Para mim, um filé de frango com fritas e uma água sem gás.

Guillian sorriu.

— Um omelete com fritas... e um suco de limão sem açúcar.

O garçom anotou tudo e se afastou.

Enquanto esperavam, Guillian desviou o olhar para uma mesa próxima.

Parou por um instante.

— Nossa...

Anton ergueu os olhos.

— O quê?

Ela respondeu quase num sussurro.

— A garota do ateliê...

Clarisse almoçava sozinha.

No instante em que percebeu que estava sendo observada, levantou os olhos.

As duas se encararam por poucos segundos.

Depois, Clarisse voltou para o prato.

Anton e Iago sequer olharam.

Continuaram conversando como se nada tivesse acontecido.

Pouco depois, os pratos chegaram.

O garçom distribuiu os pedidos e anotou na comanda.

Antes que Anton pegasse o garfo, Guillian roubou uma batata frita do prato dele.

— Gui...

Ela sorriu enquanto mastigava.

— Eu odeio quando você faz isso.

— É justamente por isso que eu faço.

Iago caiu na risada.

Anton apenas balançou a cabeça.

Ainda fingindo indignação.

Iago aproximou discretamente o rosto de Anton.

Inspirou o perfume.

— Tá usando o perfume que te dei.

Anton sorriu.

— Tô.

— Ficou perfeito em você.

Anton deu de ombros.

— Só porque foi presente seu. Senão eu nem comprava.

— Malcriado... e cheiroso.

Os três riram.

Iago olhou para Guillian.

— E o seu também está muito bom.

— Gostou?

— Comprei outro ontem. Depois te dou.

Ela deu uma garfada no omelete.

— Eu só estou sentindo cheiro de batata frita.

Anton caiu na risada.

Iago olhou para ela com falsa reprovação.

Ela respondeu mostrando a língua.

Na mesa ao lado, Clarisse observava.

O restaurante estava cheio.

O burburinho não deixava que ela escutasse nenhuma palavra.

Mas via tudo.

Via como eles ocupavam o espaço.

Como sorriam.

Como se tocavam sem cerimônia.

Como um chegava perto do outro sem qualquer desconforto.

Não parecia namoro.

Também não parecia apenas amizade.

Era alguma coisa que ela nunca tinha visto.

Quase meia hora passou.

Clarisse quase não percebeu.

Quando levantou os olhos novamente, viu Guillian roubando as últimas batatas do prato de Anton.

Ele apenas sorriu.

Como se já esperasse por aquilo.

Iago olhou para os dois.

— Vamos dividir uma sobremesa?

Anton e Guillian responderam ao mesmo tempo.

— Não.

Iago fez cara de ofendido.

— Vocês são muito amargos. A vida já é amarga demais.

Anton riu.

— O perfume foi um presente maravilhoso.

Iago sorriu, satisfeito.

— Eu sabia que você ia gostar.

Guillian apontou o garfo para ele.

— E eu também gostei do meu.

— Sabia.

Por alguns minutos, esqueceram do restaurante.

Esqueceram da rua.

Esqueceram da pressa.

Naquela mesa, existiam apenas os três.

Clarisse os observava em silêncio.

Não conseguia encontrar uma palavra que explicasse o que via.

Pareciam uma pintura.

Daquelas que quanto mais se olha, menos se entende.

E, ainda assim, mais belas se tornam.

Clarisse pagou o almoço com o vale-refeição.

Levantou-se.

No mesmo instante, Anton, Guillian e Iago ergueram os olhos.

Ela passou ao lado da mesa.

Os três sentiram o perfume.

Doce.

Suave.

Marcante.

Com um calor tropical que permanecia no ar mesmo depois de sua passagem.

Clarisse percebeu os olhares.

Não eram invasivos.

Nem maliciosos.

Eram curiosos.

Intensos.

Por um instante, foi tentador imaginar que significavam alguma coisa.

Mas preferiu proteger o próprio ego.

Melhor uma ilusão passageira do que uma expectativa sem resposta.

Saiu do Restaurante Beco.

Atravessou a faixa de pedestres e voltou para a Galeria Le Village.

O ateliê continuava fechado.

Linda ainda não havia chegado.

— O jeito é esperar...

Sentou-se em um banco do corredor.

Pegou o celular.

Abriu o Instagram.

Seu perfil era privado.

Enquanto deslizava pela tela, as sugestões apareceram.

Anton.

Guillian.

Iago.

Os três.

Curiosa, entrou no perfil de Guillian.

Era aberto.

Fotos de tatuagens delicadas, linhas finíssimas, desenhos minimalistas. Em outras imagens, aparecia sorrindo diante de uma enorme janela com vista para a Augusta. Sua pele contrastava com as tatuagens de forma elegante. Havia algo sereno em seu rosto.

Clarisse sorriu.

Depois abriu o perfil de Iago.

Viagens.

Barbearia.

Cervejas artesanais.

Fotos pela Europa.

Parecia ter vindo de uma família com boas condições financeiras.

E lá estava novamente.

A mesma janela.

A mesma vista da Augusta.

Franziu a testa.

Abriu o perfil de Anton.

Discos.

Livros.

Um violão encostado na parede.

Um gato preto chamado Mefi, abreviação de Mefistófeles, dormindo tranquilamente em seu colo.

E...

A mesma janela.

Clarisse ficou alguns segundos olhando a tela.

— Eles moram juntos...

Sem perceber, sorriu.

Uma risada ecoou atrás dela.

Ela levou um pequeno susto.

Quase deixou o celular cair.

Virou o rosto.

Eram eles.

Guillian olhava para Anton com atenção.

— Nossa... apareceu um cravinho aqui.

Ela aproximou as mãos do rosto dele.

— Deixa eu tirar.

Iago começou a rir.

— Não deixa, Anton. Semana passada ela quase arrancou minha cara.

Anton apenas deu de ombros.

— Vai.

Guillian sentou-se no banco.

Bateu de leve na própria coxa.

— Deita aqui.

Anton obedeceu sem reclamar.

Apoiou a cabeça no colo dela.

Ela aproximou o rosto.

— Fica quieto.

— Ai... ai, Gui...

Anton fez uma careta.

— Você faz linha fininha nas tatuagens, mas tem a mão mais pesada do mundo pra tirar um cravo.

— O problema é que você não para quieto.

Ela apertou novamente.

Anton resmungou.

Iago ria tanto que precisou apoiar a mão na parede.

— Bem feito. Comigo foi igualzinho.

Enquanto os dois continuavam naquela pequena "cirurgia", Iago pegou o celular.

Olhou a tela.

Seu sorriso desapareceu.

— Meu cliente chegou.

Guardou o aparelho.

— Tenho que ir.

Anton olhou para ele, ainda preso nas mãos de Guillian.

— Vai me deixar sozinho com ela?

Iago abriu um sorriso divertido.

— Achou pouco?

Apontou para Guillian.

— Agora sofre.

Virou as costas e voltou para a barbearia.

Guillian continuou concentrada.

— Pronto...

Ela sorriu satisfeita.

— Agora ficou bonito de novo.

Anton levantou a mão e passou os dedos no rosto.

— Como se eu tivesse deixado de ser.

Guillian riu.

— Convencido.

Do outro lado do corredor, Clarisse fingia olhar o celular.

Mas não conseguia esconder o sorriso.

Aquela amizade era diferente de tudo o que ela já tinha visto.

No início da galeria, Linda apareceu apressada, mas sorridente.

Ao passar, cumprimentou os dois.

— Olá! Boa tarde!

Anton ergueu a mão.

— Oi, Linda. Boa tarde.

Guillian deu uma leve cotovelada nele.

— Mais animação.

Anton olhou para ela.

— Oi, Linda! Boa tarde!

Linda riu.

— Assim está melhor.

Entrou no ateliê.

Clarisse, que esperava do lado de fora, levantou-se e entrou logo atrás.

A porta se fechou.

A tarde seguiu seu ritmo.

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Thoughts

  • brunocosta

    Ri-me sozinho com o cravo no banco do corredor, e o Iago a dizer que com ele foi igualzinho.

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  • anogueira52

    O Iago reparando no perfume que deu ao Anton, e o Anton respondendo que só usa porque foi presente dele. Esse jeito de homem agradecer resmungando eu conheço bem, meu pai fazia igual com o cachecol que minha mãe tricotava todo inverno. Meu palpite é que perfume ainda vai pesar nessa história, porque o da Clarisse ficou no ar depois que ela passou pela mesa e os três levantaram a cabeça juntos.

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