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Capítulo 1: Quer Pertencer

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Clarisse saiu do metrô um pouco apressada. Algumas pessoas a acompanhavam com os olhos, atraídas pela leveza do seu caminhar e pela juventude que parecia carregar sem esforço. Havia algo nela que…

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Clarisse saiu do metrô um pouco apressada. Algumas pessoas a acompanhavam com os olhos, atraídas pela leveza do seu caminhar e pela juventude que parecia carregar sem esforço. Havia algo nela que chamava atenção sem intenção.

Estação Consolação.

Ela desceu a rua movimentada, tomada por gente de todos os lugares. A maioria era jovem. Enquanto caminhava, olhou as horas no celular.

8h15.

Respirou aliviada. Estava no horário. Era uma terça-feira de manhã.

Ao chegar à Galeria Le Village, número 1492, diminuiu o passo por um instante. Em frente à entrada havia uma pequena lanchonete.

Foi ali que os viu.

Três jovens.

Dois rapazes e uma garota.

Os três eram belos de um jeito difícil de explicar. Não era apenas aparência. Havia uma presença que fazia o resto da rua desaparecer por um instante.

Quase ao mesmo tempo, eles ergueram os olhos.

Encontraram os dela.

Ninguém desviou.

Os olhares se cruzaram.

Se mediram.

Se perderam.

Pele.

Curiosidade.

Desejo.

Confusão.

Três segundos bastaram para que algo invisível acontecesse entre quatro completos desconhecidos.

Clarisse voltou a andar.

Entrou na galeria sem olhar para trás.

Ou quase.

Seguiu em frente fingindo não perceber que continuava sendo observada. Mas percebia. E uma parte dela gostava daquilo.

Sorriu discretamente.

— Foco, Clarisse... Foco.

Respirou fundo e caminhou até o fim do corredor.

Ateliê Dondocas.

O estúdio era pequeno, silencioso e acolhedor.

Ela bateu à porta.

Poucos segundos depois, uma mulher de cerca de cinquenta anos abriu com um sorriso divertido.

— Clarisse?

— Linda?

— Sou mesmo!

— Não...

A mulher franziu a testa, fingindo indignação.

— Como assim, não sou Linda?

— Quero dizer... seu nome é Linda?

Ela caiu na risada.

— É, sim.

As duas permaneceram em silêncio por um instante.

Então Linda abriu a porta por completo.

— Entra, menina. Tô brincando.

Clarisse sorriu e entrou.

Antes de fechar a porta, Linda lançou um rápido olhar para a entrada da galeria.

Os três jovens ainda estavam ali.

Os dois rapazes e a garota observavam Clarisse desaparecer corredor adentro. Nenhum deles dizia uma palavra. Apenas acompanhavam cada passo dela com uma atenção quase hipnótica.

Linda sorriu de canto.

— Eles são lindos, não são?

Clarisse fingiu não entender.

— Quem?

— Ah... sei.

Linda deu uma risada.

— Senta aqui. Depois você me conta mais sobre você.

Ela fechou a porta do ateliê.

Do lado de fora, os três permaneceram imóveis por mais alguns segundos.

Só então voltaram a respirar como se o mundo tivesse retomado o movimento.

As duas se sentaram à mesa.

Linda observou Clarisse por alguns segundos antes de sorrir.

— Nossa... gostei do seu sotaque baiano.

Clarisse sorriu.

— Tem gente em São Paulo que não gosta.

— Besteira. Acho um charme.

Clarisse abriu a pasta que carregava e a colocou sobre a mesa.

— Trouxe meu portfólio.

Linda começou a folhear os desenhos com calma. A cada página, seu sorriso aumentava.

— Nossa, Clarisse... você desenha muito bem.

Clarisse sentiu o rosto esquentar.

— Gostou mesmo?

— Gostei muito. É exatamente o estilo que procuro para desenvolver peças exclusivas aqui na Augusta.

— Espero poder ajudar.

— Vai ajudar. Nossa loja é pequena, mas recebe clientes com gostos bem diferentes. Eles procuram coisas que não encontram em nenhum outro lugar.

Enquanto falava, Linda percebeu que, de vez em quando, o olhar de Clarisse escapava discretamente para a vitrine.

Lá fora.

Os três jovens ainda estavam na lanchonete.

Os dois rapazes conversavam entre si. A garota tomava um gole de café, mas os três, vez ou outra, voltavam os olhos para a galeria.

Linda sorriu de canto.

— Clarisse...

Ela voltou a atenção para a mesa.

— Oi?

— Cuidado, hein...

— Como assim?

— Conheço os três só de vista. São gente boa... mas têm um charme perigoso.

Clarisse riu, sem graça.

— Hum...

— Fica tranquila. Até eu, de vez em quando, me perco na energia deles. Servem de inspiração para qualquer artista.

Clarisse sorriu.

— Tudo bem, dona Linda.

Linda apontou o dedo para ela, fingindo seriedade.

— Só me chama de Linda.

As duas riram.

Linda fechou o portfólio e o devolveu.

— Pode começar hoje mesmo. Primeiro conheça a loja, veja nossas referências, os tecidos, os catálogos... Quero que você entenda o espírito do ateliê antes de colocar a mão no lápis.

Clarisse assentiu.

— Com certeza, dona...

Ela parou e sorriu.

— Desculpa... Linda.

— Assim está melhor.

— E hoje nada de desenhos. Quero que você se familiarize com tudo, tá?

— Tá bom... Linda.

As duas sorriram.

Pela primeira vez naquela manhã, Clarisse sentiu que estava exatamente onde deveria estar.

Do lado de fora da galeria, os três jovens continuavam na lanchonete.

— Vocês viram? A Linda não perde tempo, né?

Ela parou e lançou um olhar cínico para o rapaz.

— Típico de homem como você.

Guillian riu sem graça.

— Ah, para, né? Você também secou ela.

Iago mordeu o lábio, desconcertado.

— É... mas, Anton...

Anton levantou a mão, pedindo silêncio.

— Foi assim também com ela. Você sabe.

O olhar de Iago mudou. Ele encarou Anton com um misto de incômodo e ressentimento.

— E você também fez isso com ela, não fez, Anton?

Iago respirou fundo.

— Ontem ela estava aqui... eu fiquei com pena dela.

Guillian balançou a cabeça.

— Pena? Ela destruiu o salão semana passada, cara. Não sinto pena nenhuma.

— Para com isso, Guillian.

A voz de Anton mudou.

Seria apenas uma frase, mas quando ele pronunciou o nome inteiro, Guillian percebeu que a brincadeira tinha acabado.

Anton passou a mão pelos cabelos.

— Todos nós erramos. E também não somos inocentes. Mas ela entendeu tudo errado.

Iago olhou para os dois amigos.

— Como vocês conseguem ser assim? Tão duros?

Anton fechou os punhos.

Por um instante, ninguém falou nada.

Iago percebeu e recuou.

Guillian entrou no meio.

— Já passou, Anton. Deixa isso.

Anton respirou fundo.

— Desculpa, Iago. Meu amigo... às vezes me dá vontade de te bater.

Iago sorriu de leve.

— Eu sei. Você me ama, né?

— Para, Iago. Seu bobo.

— Sim. Sou mesmo.

Ele olhou para os dois.

— Por vocês.

Guillian sorriu. De algum jeito, aquela nova garota tinha mexido com o grupo. Seus corpos tinham percebido antes que suas cabeças.

Guillian puxou um cigarro do bolso.

Antes que acendesse, Iago pegou da mão dele.

— Que vício horrível, garota.

Anton pegou a carteira de cigarros.

— Não. Pelo seu bem.

Guillian olhou irritado.

Segurou a vontade de reclamar. Mordeu o lábio e encarou os dois amigos.

A raiva passou.

Porque, no fundo, ele sabia.

Eles faziam aquilo porque se importavam.

Anton devolveu a carteira para ele.

— Odeio cigarro. Tem tanta coisa boa no mundo.

Os três ficaram em silêncio por alguns segundos.

A galeria continuava movimentada.

Mas, pela primeira vez naquela manhã, eles não estavam olhando para fora.

Estavam olhando uns para os outros.

Os quatro se olharam em uma breve despedida antes de seguirem para suas lojas dentro da galeria.

Não disseram nada.

Apenas trocaram olhares, como se aquela conexão silenciosa já fosse uma conversa antiga.

Iago acompanhou Anton até a loja dele. A barbearia ficava em frente à Garimpo Discos, onde Anton trabalhava.

Guillian subiu as escadas em direção ao seu estúdio de tatuagem, a Rosa Selvagem.

A manhã continuava.

O silêncio entre eles era quebrado apenas pelo movimento da galeria: passos apressados, vozes misturadas, portas abrindo, clientes chegando.

Cada um voltava para o seu mundo.



***

Iago entrou na sua barbearia.

A Augusto's tinha um estilo clássico, quase uma barbearia de outra época. Madeira, cadeiras antigas, objetos cuidadosamente escolhidos e uma pequena coleção de cervejas artesanais — algumas produzidas por ele mesmo.

Ele olhou o celular.

Os primeiros clientes agendados chegariam em breve.

Enquanto esperava, organizou algumas coisas no balcão e observou a rua pela vitrine.


***

Do outro lado, Anton entrou na Garimpo Discos.

Passou os olhos pelas duas grandes estantes de vinis, organizadas com uma precisão quase obsessiva.

Tudo estava no lugar.

Ele escolheu um disco, colocou para tocar e deixou o som preencher a loja em volume ambiente.

A música atravessou o corredor da galeria.

Iago ouviu.

Sorriu.

E começou a cantarolar baixinho enquanto preparava a barbearia.


***

Guillian já estava em sua "caverna".

A Rosa Selvagem era seu território.

Ele era especialista em lineart, desenhos feitos com linhas precisas, minimalistas e cheios de personalidade. Suas próprias tatuagens carregavam marcas de outros artistas, como uma coleção de histórias na pele.

Mas existia uma tatuagem que ele mais queria fazer.

Anton.

O único problema era simples:

Anton tinha medo de agulhas.


***

As horas passaram.

No ateliê, chegou a hora do almoço.

Clarisse e Linda continuavam conversando entre risadas.

— E aí entrou uma senhorinha aqui... bem velhinha. Ela abriu a porta e perguntou: "Aqui tem algum psicólogo?"

As duas começaram a rir.

— Tadinha, Linda. Ela confundiu.

— Sim. Do lado tem um consultório. Ela acabou entrando no lugar errado.

— Você riu na hora?

Linda fingiu indignação.

— Claro que não. Não sou tão insensível assim. Levei ela até o consultório do vizinho.

— E o acompanhante dela?

— Também era velhinho. Tinha esquecido os óculos em casa.

Clarisse sorriu.

— O mais engraçado é que era uma psicóloga sexual.

As duas se olharam por um segundo.

Depois caíram na risada.

Aquela manhã na Galeria Le Village seguia seu ritmo.

Cada porta escondia uma história.

Linda olhou o relógio na parede.

— Já deu nossa hora. Vamos almoçar.

Clarisse assentiu.

— Vou te passar o vale-refeição. Aqui na galeria tem restaurante de prato feito, comida por quilo e também um self-service. Se preferir, tem outras opções na Augusta.

— Tudo bem. Já almocei por aqui algumas vezes.

— Melhor ainda. Você já conhece a região.

Linda pegou a bolsa.

— Vou trancar o ateliê. Tenho um almoço com uma cliente. Se eu me atrasar, pode ficar pela galeria. Assim que eu voltar, te aviso.

— Não se preocupe, Linda.

Ela pegou a chave do ateliê e a do carro.

As duas saíram.

— Vamos?

O corredor da galeria estava cheio.

Gente entrando e saindo.

Conversas cruzadas.

Passos.

Portas abrindo.

No meio daquele burburinho, uma música escapava da loja de discos.

Era melancólica e, ao mesmo tempo, luminosa.

Daquelas músicas que despertam saudade de algo que nunca se viveu.

Linda seguia apressada, distraída com as chaves dentro da bolsa.

Clarisse, não.

Quando passaram em frente à Garimpo Discos, os olhares se encontraram.

Anton.

Clarisse.

Por um instante, o resto da galeria desapareceu.

Ela piscou, disfarçou e virou o rosto.

Do outro lado do corredor, Iago sorriu discretamente.

Os dois eram irresistivelmente belos.

Linda continuou andando sem perceber nada.


***

Anton permaneceu encostado na porta da loja.

Iago apareceu na entrada da barbearia.

— Seu cretino...

Anton sorriu.

— Cala a boca, Iago.

O estúdio de Guillian permanecia fechado e silencioso.

— Vou chamar o Gui. Bora almoçar com a gente?

— Vai lá. Eu passo no banheiro antes. Espero vocês na entrada da galeria.

Anton seguiu pelo corredor.

Iago subiu as escadas.

Parou diante da porta da Rosa Selvagem e bateu duas vezes.

— Gui... sou eu.

Silêncio.

Logo depois, uma voz respondeu lá de dentro.

— Amore mio... o que você quer, meu xuxu?

Iago riu.

— Esqueceu de comer hoje? Depois fica agradavelmente irritada.

A porta se abriu.

— Eu não sou chata.

Ela cruzou os braços.

— Sou agradavelmente irritada.

— Então vem. Bora almoçar.

— E o Anton?

Iago fingiu pensar.

— Ah... ele foi almoçar com a garota linda do ateliê.

Guillian arregalou os olhos.

— O quê?

Iago caiu na risada.

— Calma! Tô brincando. Ele foi ao banheiro.

Ela deu dois soquinhos no ombro dele.

— Odeio essas brincadeiras.

— Você é muito bobinha.

— Se você tivesse deixado o Anton sozinho, eu te esganava.

Enquanto falava, fechou o estúdio e pendurou a placa:

HORÁRIO DE ALMOÇO

Iago sorriu.

— Ciumenta...

— Nem vem.

Ela deu um empurrão leve nele.

Os dois desceram as escadas.

Anton já os esperava na entrada.

Por alguns segundos, ninguém disse nada.

Depois sorriram.

Como se bastasse estarem juntos.

— Bora naquele restaurante do beco? — perguntou Anton.

Guillian abriu um sorriso.

— Eu estava pensando exatamente nisso.

— Os doces de lá são maravilhosos — comentou Iago.

Anton olhou para ele.

— Você e esses doces...

Iago fingiu indignação.

— Tá me chamando de gordo?

Anton caiu na risada.

— Nunca.

Guillian passou o braço pelos ombros de Iago.

— Ele só gosta de te provocar.

— É fome — respondeu Anton.

Os três riram.

Saíram juntos para a Rua Augusta.

Algumas estudantes que deixavam a faculdade acompanharam o trio com os olhos.

Eles pareciam não perceber.

Ou talvez estivessem acostumados.

Caminhavam como quem pertence um ao outro, sem precisar explicar.

Quem os via de longe sempre tentava adivinhar.

Eram amigos?

Namorados?

Irmãos?

Ninguém sabia.

Talvez nem eles soubessem definir.

E, no fundo, isso nunca pareceu importar.

Ao chegarem ao sinal, Guillian abriu um sorriso travesso.

Quando o semáforo ficou verde para os pedestres, saiu correndo pela faixa com os braços estendidos para trás, como uma criança.

Anton e Iago atravessaram abraçados.

À frente deles, Guillian fingia puxá-los por uma corda invisível.

Algumas pessoas sorriam ao ver a cena.

Outras apenas observavam.

Os três nem percebiam.

O restaurante do Beco ficava logo ali.

Entraram.

Sentaram-se à mesa de sempre.

Anton e Iago lado a lado.

Guillian de frente para os dois.

O garçom se aproximou com o cardápio.

— Não precisa, meu jovem — disse Iago, sorrindo. — Um bife com fritas e uma água com gás, por favor.

Anton fez o pedido em seguida.

— Para mim, um filé de frango com fritas e uma água sem gás.

Guillian sorriu.

— Um omelete com fritas... e um suco de limão sem açúcar.

O garçom anotou tudo e se afastou.

Enquanto esperavam, Guillian desviou o olhar para uma mesa próxima.

Parou por um instante.

— Nossa...

Anton ergueu os olhos.

— O quê?

Ela respondeu quase num sussurro.

— A garota do ateliê...

Clarisse almoçava sozinha.

No instante em que percebeu que estava sendo observada, levantou os olhos.

As duas se encararam por poucos segundos.

Depois, Clarisse voltou para o prato.

Anton e Iago sequer olharam.

Continuaram conversando como se nada tivesse acontecido.

Pouco depois, os pratos chegaram.

O garçom distribuiu os pedidos e anotou na comanda.

Antes que Anton pegasse o garfo, Guillian roubou uma batata frita do prato dele.

— Gui...

Ela sorriu enquanto mastigava.

— Eu odeio quando você faz isso.

— É justamente por isso que eu faço.

Iago caiu na risada.

Anton apenas balançou a cabeça.

Ainda fingindo indignação.

Iago aproximou discretamente o rosto de Anton.

Inspirou o perfume.

— Tá usando o perfume que te dei.

Anton sorriu.

— Tô.

— Ficou perfeito em você.

Anton deu de ombros.

— Só porque foi presente seu. Senão eu nem comprava.

— Malcriado... e cheiroso.

Os três riram.

Iago olhou para Guillian.

— E o seu também está muito bom.

— Gostou?

— Comprei outro ontem. Depois te dou.

Ela deu uma garfada no omelete.

— Eu só estou sentindo cheiro de batata frita.

Anton caiu na risada.

Iago olhou para ela com falsa reprovação.

Ela respondeu mostrando a língua.

Na mesa ao lado, Clarisse observava.

O restaurante estava cheio.

O burburinho não deixava que ela escutasse nenhuma palavra.

Mas via tudo.

Via como eles ocupavam o espaço.

Como sorriam.

Como se tocavam sem cerimônia.

Como um chegava perto do outro sem qualquer desconforto.

Não parecia namoro.

Também não parecia apenas amizade.

Era alguma coisa que ela nunca tinha visto.

Quase meia hora passou.

Clarisse quase não percebeu.

Quando levantou os olhos novamente, viu Guillian roubando as últimas batatas do prato de Anton.

Ele apenas sorriu.

Como se já esperasse por aquilo.

Iago olhou para os dois.

— Vamos dividir uma sobremesa?

Anton e Guillian responderam ao mesmo tempo.

— Não.

Iago fez cara de ofendido.

— Vocês são muito amargos. A vida já é amarga demais.

Anton riu.

— O perfume foi um presente maravilhoso.

Iago sorriu, satisfeito.

— Eu sabia que você ia gostar.

Guillian apontou o garfo para ele.

— E eu também gostei do meu.

— Sabia.

Por alguns minutos, esqueceram do restaurante.

Esqueceram da rua.

Esqueceram da pressa.

Naquela mesa, existiam apenas os três.

Clarisse os observava em silêncio.

Não conseguia encontrar uma palavra que explicasse o que via.

Pareciam uma pintura.

Daquelas que quanto mais se olha, menos se entende.

E, ainda assim, mais belas se tornam.

Clarisse pagou o almoço com o vale-refeição.

Levantou-se.

No mesmo instante, Anton, Guillian e Iago ergueram os olhos.

Ela passou ao lado da mesa.

Os três sentiram o perfume.

Doce.

Suave.

Marcante.

Com um calor tropical que permanecia no ar mesmo depois de sua passagem.

Clarisse percebeu os olhares.

Não eram invasivos.

Nem maliciosos.

Eram curiosos.

Intensos.

Por um instante, foi tentador imaginar que significavam alguma coisa.

Mas preferiu proteger o próprio ego.

Melhor uma ilusão passageira do que uma expectativa sem resposta.

Saiu do Restaurante Beco.

Atravessou a faixa de pedestres e voltou para a Galeria Le Village.

O ateliê continuava fechado.

Linda ainda não havia chegado.

— O jeito é esperar...

Sentou-se em um banco do corredor.

Pegou o celular.

Abriu o Instagram.

Seu perfil era privado.

Enquanto deslizava pela tela, as sugestões apareceram.

Anton.

Guillian.

Iago.

Os três.

Curiosa, entrou no perfil de Guillian.

Era aberto.

Fotos de tatuagens delicadas, linhas finíssimas, desenhos minimalistas. Em outras imagens, aparecia sorrindo diante de uma enorme janela com vista para a Augusta. Sua pele contrastava com as tatuagens de forma elegante. Havia algo sereno em seu rosto.

Clarisse sorriu.

Depois abriu o perfil de Iago.

Viagens.

Barbearia.

Cervejas artesanais.

Fotos pela Europa.

Parecia ter vindo de uma família com boas condições financeiras.

E lá estava novamente.

A mesma janela.

A mesma vista da Augusta.

Franziu a testa.

Abriu o perfil de Anton.

Discos.

Livros.

Um violão encostado na parede.

Um gato preto chamado Mefi, abreviação de Mefistófeles, dormindo tranquilamente em seu colo.

E...

A mesma janela.

Clarisse ficou alguns segundos olhando a tela.

— Eles moram juntos...

Sem perceber, sorriu.

Uma risada ecoou atrás dela.

Ela levou um pequeno susto.

Quase deixou o celular cair.

Virou o rosto.

Eram eles.

Guillian olhava para Anton com atenção.

— Nossa... apareceu um cravinho aqui.

Ela aproximou as mãos do rosto dele.

— Deixa eu tirar.

Iago começou a rir.

— Não deixa, Anton. Semana passada ela quase arrancou minha cara.

Anton apenas deu de ombros.

— Vai.

Guillian sentou-se no banco.

Bateu de leve na própria coxa.

— Deita aqui.

Anton obedeceu sem reclamar.

Apoiou a cabeça no colo dela.

Ela aproximou o rosto.

— Fica quieto.

— Ai... ai, Gui...

Anton fez uma careta.

— Você faz linha fininha nas tatuagens, mas tem a mão mais pesada do mundo pra tirar um cravo.

— O problema é que você não para quieto.

Ela apertou novamente.

Anton resmungou.

Iago ria tanto que precisou apoiar a mão na parede.

— Bem feito. Comigo foi igualzinho.

Enquanto os dois continuavam naquela pequena "cirurgia", Iago pegou o celular.

Olhou a tela.

Seu sorriso desapareceu.

— Meu cliente chegou.

Guardou o aparelho.

— Tenho que ir.

Anton olhou para ele, ainda preso nas mãos de Guillian.

— Vai me deixar sozinho com ela?

Iago abriu um sorriso divertido.

— Achou pouco?

Apontou para Guillian.

— Agora sofre.

Virou as costas e voltou para a barbearia.

Guillian continuou concentrada.

— Pronto...

Ela sorriu satisfeita.

— Agora ficou bonito de novo.

Anton levantou a mão e passou os dedos no rosto.

— Como se eu tivesse deixado de ser.

Guillian riu.

— Convencido.

Do outro lado do corredor, Clarisse fingia olhar o celular.

Mas não conseguia esconder o sorriso.

Aquela amizade era diferente de tudo o que ela já tinha visto.

No início da galeria, Linda apareceu apressada, mas sorridente.

Ao passar, cumprimentou os dois.

— Olá! Boa tarde!

Anton ergueu a mão.

— Oi, Linda. Boa tarde.

Guillian deu uma leve cotovelada nele.

— Mais animação.

Anton olhou para ela.

— Oi, Linda! Boa tarde!

Linda riu.

— Assim está melhor.

Entrou no ateliê.

Clarisse, que esperava do lado de fora, levantou-se e entrou logo atrás.

A porta se fechou.

A tarde seguiu seu ritmo.


***

E, quase sem perceberem, já eram cinco e meia.

17h30.

Anton apagou as luzes da Garimpo Discos, trancou a porta e guardou as chaves no bolso.

Olhou para a barbearia.

Fechada.

Sorriu sozinho.

— Curso novo...

Iago havia comentado que faria uma especialização em cortes e técnicas de visagismo naquela noite.

Depois olhou para cima.

Guillian já o observava da porta da Rosa Selvagem, sorrindo.

— Gui... estou indo.

Ela respondeu na mesma hora.

— Anton... espera!

Desceu as escadas quase correndo.

Anton suspirou.

Já imaginava o que vinha.

— Posso dormir hoje no seu apartamento?

Ela fez a pergunta com a expressão mais inocente do mundo.

Anton cruzou os braços.

— O Iago sabe disso?

— Sabe.

Ele estreitou os olhos.

— Sabe mesmo?

— Sabe.

Não era a primeira vez.

Nem a segunda.

Nem a décima.

— E por que você quer dormir lá hoje?

— Tá frio... moro longe... se eu pegar metrô agora, chego em casa quase dez da noite.

Anton continuava desconfiado.

— Não acredito.

Guillian pegou o celular.

Abriu o grupo dos três.

Back To Friends

A descrição dizia:

"O silêncio diz tudo."

Ela entregou o aparelho.

Anton hesitou.

— Ainda acho estranho mexer no celular dos outros.

Ela sorriu.

— Eu deixo.

— Eu sei.

Pegou o aparelho.

— Parece que estou invadindo a intimidade de alguém.

Leu a conversa.

Iago havia escrito:

"Pode, mas cuidado com ela. Quartos separados."

Anton devolveu o celular.

Os dois ficaram alguns segundos em silêncio.

— Você trouxe roupa?

— Já está no seu apartamento.

Anton passou a mão no rosto.

Lembrou da última vez.

Uma calcinha de Guillian pendurada na janela do banheiro.

Um amigo apareceu para uma festa.

Tirou uma foto.

Postou nas redes.

A imagem virou piada durante semanas.

Guillian quase quis matar o sujeito.

Ela esperava uma resposta.

Sem pressionar.

Anton respirou fundo.

— Bora.

Ela abriu um sorriso enorme.

Estendeu o braço.

— Me dá uma carona?

Anton olhou para ela desconfiado.

— Você ficou me esperando esse tempo todo, né?

— Fiquei.

Sorriu sem vergonha nenhuma.

— Eu sempre espero você.

Começaram a subir a Augusta lado a lado.

Bem próximos.

Anton riu sozinho.

— Igual aquele domingo...

Guillian já sabia da história.

— Não começa.

— Você dormiu na porta do meu apartamento.

Usando o tapete como cobertor.

— Estava frio.

— Tirei foto.

— Eu sei.

— Virou meme do grupo.

Ela fez cara de indignação.

— Você e o Iago são insuportáveis.

— A gente gosta de zoar você.

— Por quê?

Anton pensou por um instante.

Depois respondeu com simplicidade.

— Porque é divertido encontrar defeitos em quem parece perfeito.

Guillian deu uma risada curta.

— Só parece.

— Ainda bem.

Ela olhou para ele.

— É justamente por isso que a gente gosta de você.

Continuaram caminhando pela Rua Augusta.

Os bares começavam a encher.

As luzes dos letreiros acendiam uma a uma.

A noite chegava devagar.

Subiram mais um trecho da Rua Augusta.

A noite começava a tomar conta da cidade.

Grupos de universitários seguiam em direção às faculdades.

Alguns olhavam discretamente para os dois.

Uma garota sustentou o olhar de Anton por alguns segundos.

Outra sorriu para Guillian.

Havia quem imaginasse romances antes mesmo de saber seus nomes.

Outros apenas invejavam aquela juventude.

Não apenas pela beleza.

Mas pela impressão de que ainda podiam errar tudo outra vez... e, mesmo assim, continuar em frente com os calos que a vida já lhes dera.

Chegaram à entrada de um edifício.

Edifício Amizade.

O porteiro abriu um sorriso ao vê-los.

— Boa noite, seu Anton.

— Boa noite, Seven.

— Chegaram umas correspondências suas.

— Obrigado.

Enquanto Anton pegava os envelopes, Guillian sorriu para Seven e lhe deu uma piscadela.

O porteiro respondeu com outro sorriso, escondido sob o bigode espesso.

Guillian entrou primeiro no hall e apertou o botão do elevador.

Anton caminhava sem pressa.

As câmeras de segurança acompanhavam os dois.

Na pequena tela da portaria, a cena parecia um daqueles filmes de baixo orçamento em que nada extraordinário acontece... e, ainda assim, é impossível desviar os olhos.

As portas do elevador se abriram.

Guillian entrou primeiro.

Apertou o número sete.

Anton entrou logo atrás.

As portas se fecharam.

O elevador começou a subir.

Silêncio.

Guillian balançava o corpo de leve, como se acompanhasse uma música que só ela escutava.

Anton permanecia sério.

Ela o conhecia bem.

Sabia que aquele silêncio dizia mais do que qualquer reclamação.

Ele também a conhecia.

Sabia exatamente o jogo que ela estava começando.

Pensou na mensagem de Iago.

"Pode... mas quartos separados."

Suspirou.

Já estava arrependido de ter concordado.

Guillian quebrou o silêncio.

— Por que essa cara?

Anton olhou para ela.

— Porque eu te conheço.

Ela sorriu.

— E o pior...

Aproximou um pouco o rosto.

— Eu também te conheço.

O elevador parou.

As portas se abriram.

Um casal de idosos aguardava para descer.

— Boa noite, seu Jorge. Dona Vitalina.

— Boa noite! — respondeu Guillian.

Seu Jorge sorriu para Anton.

— Boa noite, meu filho.

Os dois deram passagem ao casal.

Antes que as portas se fechassem, seu Jorge apontou o dedo para Anton.

— Quero fazer uma reclamação.

Anton fez uma expressão preocupada.

— O que foi?

— Seu som.

Anton abaixou a cabeça.

— Desculpa. Hoje eu desligo mais cedo.

Seu Jorge balançou a cabeça.

— Não precisa.

Anton ergueu os olhos.

— Rolling Stones merece ser ouvido alto.

Por um instante, os quatro riram.

As portas se fecharam.

Anton tirou as chaves do bolso.

Abriu a porta do apartamento.

Guillian passou por ele praticamente correndo.

— O que foi?

Ela desapareceu no banheiro.

— Tô morrendo de vontade de fazer xixi!

Anton soltou uma risada baixa.

— Boa noite pra você também.

Corte brusco.

Metrô.

Lotado.

Clarisse disputava espaço entre mochilas, bolsas e corpos cansados.

O primeiro dia de trabalho.

O ateliê.

Linda.

O novo emprego.

Conquistar seu espaço.

Era nisso que deveria estar pensando.

Mas não conseguia.

Os três.

O almoço.

As risadas.

A naturalidade com que se tocavam.

A intimidade.

Aquela amizade estranha.

Bonita.

Difícil de explicar.

O trem ainda nem havia saído da Estação Consolação.

Mesmo assim, ela já estava longe dali.


***

Na Sé, desceu junto com a multidão.

Fez a baldeação no horário de pico.

Empurrões.

Passos apressados.

Avisos pelos alto-falantes.

Encontrou uma tomada perto de um banco ocupado.

Sentou-se no chão.

Não era pelo descanso.

Era pelo carregador.

Ligou o celular.

Esperaria a estação esvaziar um pouco.

Não tinha pressa de enfrentar outro vagão lotado.

Abriu o Instagram.

Os três perfis.

Outra vez.

As fotos pareciam diferentes agora.

Não olhava mais apenas para eles.

Olhava para os detalhes.

A luz âmbar atravessando a janela do apartamento de Anton.

O sofá.

Os pufes espalhados pela sala.

A coleção de discos.

O gato preto.

Mefi.

Sorriu sozinha.

Imaginou o gato caminhando entre eles como se fosse o verdadeiro dono da casa.

— Se esse gato falasse...

Riu baixinho.

Lembrou de um meme qualquer da internet.

Olhou novamente para as fotos.

Imaginou-se sentada naquele sofá.

Tomando café.

Escutando um disco.

A vista da Augusta iluminada.

Depois imaginou outra coisa.

Os bares.

As prostitutas elegantes.

Os casais.

Os grupos.

A cidade que nunca parecia dormir.

Mordeu o lábio.

Sem querer.

A cabeça começou a inventar histórias.

Será que eles moravam juntos?

Será que eram um casal?

Os três?

Ou nada daquilo?

Fechou os olhos por um instante.

— Para, Clarisse...

Abriu-os de novo.

Não adiantou.

A curiosidade voltava.

Mais forte.

Lembrou das palavras de Linda.

"Cuidado com eles."

Mas cuidado por quê?

Quem era a garota de quem haviam falado?

O que tinha acontecido?

Voltou ao perfil de Anton.

Silencioso.

Difícil de decifrar.

Depois Iago.

Um sorriso que parecia convencer qualquer pessoa a esquecer os próprios problemas.

Por fim, Guillian.

Parecia saída da capa de uma revista alternativa.

As tatuagens delicadas.

O olhar doce.

E, ao mesmo tempo...

Algo que Clarisse não conseguia explicar.

Como se inocência e perigo ocupassem o mesmo corpo.

Passou o polegar pela tela.

Desligou o celular.

Respirou fundo.

— Meu Deus...

Sorriu sozinha.

— Que confusão...

A bateria carregava lentamente.

A mente dela, não.

Cada minuto parecia inventar uma nova pergunta.

E nenhuma resposta.

Ela entrou na Galvão Bueno.

O cheiro das barracas ainda vinha da praça.

Pensou em parar.

Comer qualquer coisa.

Mas não.

A cabeça estava cheia demais.

Era a segunda noite seguida que pulava o jantar.

O primeiro dia de trabalho ainda girava dentro dela.

[...]

A água quente escorria pelos ombros.

Fechou os olhos.

Pela primeira vez naquele dia...

Silêncio.

Nenhum metrô.

Nenhuma buzina.

Nenhuma voz.

Apenas a água.

Ela respirou fundo.

Tentou pensar em qualquer outra coisa.

Não conseguiu.

O trio voltou.

As risadas.

O almoço.

Os olhares.

A facilidade com que se tocavam.

Como se o mundo inteiro não existisse quando estavam juntos.

Ela passou a mão pelo rosto.

"Para, Clarisse..."

Abriu os olhos.

Foi até o celular.

O Spotify continuava no aleatório.

A próxima faixa começou.

Back To Friends.

Ela sorriu sozinha.

— Não é possível...

Voltou para debaixo da água.

A música parecia conhecer seus pensamentos.

Encostou a testa na parede do box.

Por um instante, deixou a imaginação seguir sem resistência.

Imaginou o apartamento.

Os discos.

Mefi andando pela sala.

As janelas abertas para a Augusta.

O sofá.

As conversas.

Ela ali.

Não sabia fazendo o quê.

Apenas ali.

Sentindo aquele lugar.

Sentindo aquelas pessoas.

Sem perceber, levou a mão ao próprio corpo num gesto quase automático.

Parou.

Respirou.

Como se despertasse de um sonho.

— Meu Deus...

O coração acelerado.

— O que está acontecendo comigo?

A música chegou ao refrão.

Ela fechou o chuveiro.

Permaneceu imóvel.

Quando a última nota terminou, o banheiro voltou ao silêncio.

E, estranhamente...

isso a incomodou mais do que a própria música.

No apartamento de Anton.

Chão de taco de madeira.

Algumas plantas espalhadas pela sala.

Ao fundo da lavanderia, a caixa de areia de Mefi.

O gato apareceu e miou como quem desejava boa noite.

Anton foi para o segundo banheiro do apartamento.

Pegou uma muda de roupas simples.

Tomou um banho quente.

Vestiu uma camiseta branca, calça de moletom preta.

O piso estava gelado.

Mesmo assim, preferia andar descalço.

Foi até a cozinha.

Encheu um copo com água gelada.

Enquanto bebia, escutou o chuveiro do outro banheiro.

Guillian cantava junto com a música.

Desafinava de propósito.

Era sua maneira favorita de irritar Anton.

Ele sorriu sozinho.

— Manezona...

Mefi voltou a miar.

Agora era um pedido bem conhecido.

Carinho.

Sachê.

Comida.

Anton se abaixou para fazer um cafuné.

— Né, Mefi... só você me entende sem dizer nada além de "miau".

Foi até a sala.

Ligou a televisão.

Passava um documentário sobre onças-pintadas.

Nem prestou atenção.

Sua mente vagava por lugares muito mais distantes.

Pensou no pai.

Na herança.

Na loja da galeria.

Nos apartamentos alugados que garantiam parte de sua renda.

Depois...

Na mãe.

Olhou o celular.

O aluguel havia caído na conta.

Logo abaixo, três ligações perdidas dela.

Seu olhar parou na tela.

Por alguns segundos, tudo ao redor desapareceu.

Até a voz desafinada de Guillian pareceu distante.

— Anton... tudo bem?

Ele levantou os olhos.

Guillian estava parada na porta.

Vestia uma camiseta branca dele.

Um moletom preto.

E apenas uma calcinha.

Anton respirou fundo.

— Gui...

Ela sorriu.

— Hum?

— Faz um favor pra mim.

— Qual?

— Coloca uma calça de moletom.

Ela olhou para si mesma.

— Não gostou?

— Não é isso.

— Então?

— A gente já conversou sobre isso.

Ela deu uma voltinha.

— Eu não estou bonita?

Anton desviou os olhos.

— Você está.

Ela sorriu, satisfeita.

— Então qual é o problema?

Ele voltou a encará-la.

— Coloca uma calça.

E uma meia.

Ou um chinelo.

Você vai sentir frio.

Ela fez bico.

— Chato...

Virou-se resmungando.

Mefi observava a cena como quem tentava entender aqueles humanos.

Poucos minutos depois, Guillian voltou.

Agora vestia uma calça de moletom larga, cobrindo as pernas tatuadas.

Sentou-se ao lado de Anton.

Bem perto.

— Tô com frio.

— Jura?

Ela encostou o ombro no dele.

— Do seu ladinho esquenta.

Anton apenas suspirou.

— Fica quietinha.

Ela sorriu.

— Hum...

O silêncio voltou a tomar conta da sala.

Durou menos de um minuto.

— Tô com fome.

Anton fechou os olhos.

— Gui...

— Desculpa.

Esse silêncio abriu meu apetite.

Ele pegou o celular.

— Tá.

O que você quer comer?

Ela pensou.

— Não sei...

Anton sorriu de lado.

— Ótimo.

Vou pedir urubu assado com mocotó.

Ela deu um tapa leve no braço dele.

— Nossa... grosso!

Ele riu.

— Tá bom.

O que você quer?

— Qualquer coisa.

Ela respondeu já encostada demais.

Anton virou o rosto para responder.

Foi quando percebeu.

O hálito doce.

As pequenas sardas entre os olhos.

A pele sem esforço para parecer bonita.

O jeito distraído como a língua passeava entre os dentes enquanto pensava.

Por um instante...

Esqueceu completamente a pergunta.

Piscou.

Respirou.

Voltou para si.

— Vou pedir duas batatas assadas com queijo e bacon.

Ela abriu um sorriso.

— E água com gás.

— Fechado.

Anton fez o pedido.

Como se aqueles poucos centímetros entre os dois nunca tivessem existido.

Guillian encostou os pés gelados no colo de Anton.

— Gui... como você consegue ser tão irritante?

Ela abriu um sorriso, satisfeita ao vê-lo estremecer com o frio.

Sem dizer nada, Anton segurou os dois pés dela e os enfiou debaixo das próprias axilas.

— Ai!

Guillian levou um susto.

Por um instante, imaginou que ele faria outra coisa.

Sentiu apenas o calor.

Muito calor.

— Nossa... que suvaco quente!

Anton deu de ombros.

— Dá pra chocar um ovo de galinha aí.

Os dois caíram na gargalhada.

O riso de Anton era raro.

Quando acontecia, parecia exagerado de tão verdadeiro.

Era contagiante.

Quase infantil.

Guillian adorava provocar justamente para ouvir aquele som.

Naqueles instantes, parecia que Anton esquecia as ligações da mãe, a morte do pai, as preocupações que carregava.

Existiam apenas os dois.

As risadas.

O apartamento.

O silêncio confortável que vinha depois.

Guillian mordeu o lábio, tentando conter o sorriso.

Anton ainda ria quando os dois quase se tocaram.

O interfone tocou.

— As batatas! — disse Guillian.

Anton suspirou.

— É... as batatas.

Ela sorriu.

— Você gosta de batata. Lembra?

— Lembro.

O interfone insistiu.

Anton atendeu.

— Fala, Seven... tô descendo.

Saiu descalço.

Assim que a porta fechou, Mefi pulou no sofá.

Guillian o pegou no colo.

O gato começou a amassar pãozinho em suas pernas.

Ela fez carinho na mancha branca do peito dele.

— Mefi... essa pintinha parece uma gravatinha de padre.

O gato apenas piscou.

— Aposto que você conhece todos os pecados do Anton...

Sorriu sozinha.

— Eu devo ser um deles, né?

Poucos minutos depois, Anton voltou com o pedido.

— Bora matar essa fome.

— Humm... agora você falou minha língua.

Ela colocou Mefi no chão.

Enquanto Anton organizava os pratos sobre a mesa de centro, Guillian perguntou:

— Já pensou se o Mefi falasse?

— Vixe...

Anton abriu um sorriso.

— Ele saberia todos os meus pecados.

Olhou para ela.

— E você é um deles.

Por um instante, Guillian ficou em silêncio.

Observou Anton distribuindo os talheres.

Sentou-se na cadeira com os pés recolhidos, como uma criança.

Anton sorriu ao vê-la.

Cada um pegou sua batata recheada e a água com gás.

Guillian deu a primeira garfada.

Fechou os olhos.

— Nossa... isso tá muito bom.

Anton ergueu uma sobrancelha.

— Como você sabe?

Ela o encarou sem entender.

— Ué... batata com bacon.

— Deixa eu provar.

— Como assim? As duas são iguais.

— Mesmo assim.

Ela revirou os olhos e empurrou o prato para ele.

— Tá bom...

Anton trocou os pratos.

Provou uma garfada.

Bebeu um gole de água.

Fez cara de quem analisava seriamente.

Olhou para ela.

— Realmente...

Fez uma pausa.

— É batata com bacon.

Guillian caiu na risada.

Anton tentou continuar sério.

Não conseguiu.

A água escapou pelo nariz.

Os dois explodiram em outra gargalhada.

Daquelas que fazem esquecer o resto do mundo por alguns segundos.

Anton terminou a batata e ficou esperando Guillian.

Ela parecia fazer cada refeição durar uma eternidade.

Ele observava, divertido, a bagunça que ela deixava no prato.

— Terminei.

— Deixa que eu arrumo tudo.

Anton recolheu os pratos, os copos e levou tudo para a cozinha.

Lavou a louça com a calma de sempre.

Secou as mãos.

Quando voltou, percebeu alguns pedacinhos de bacon espalhados sobre a mesa, do lado onde Guillian estava.

Pegou um deles e colocou na boca, distraidamente.

Só depois percebeu que era um pedaço que havia caído da batata dela.

Nem comentou.

Continuou ajeitando a mesa.

Olhou para Guillian.

— Bora dormir?

Ela fez uma careta.

— Já?

— Amanhã a vida continua.

Ela cruzou os braços.

— E você não vai cantar pra eu dormir?

Anton riu pelo nariz.

— Quer mesmo?

— Quero.

Ele balançou a cabeça e virou de costas, caminhando em direção ao corredor.

Guillian levantou depressa.

Abraçou Anton por trás.

Ele parou.

Ela apoiou o rosto nas costas dele.

— Quero um beijo de boa-noite...

Anton permaneceu imóvel por alguns segundos.

Depois virou-se devagar.

Abraçou Guillian de frente.

Nenhum dos dois disse uma palavra.

Ele sorriu de leve.

— Fecha os olhos.

Ela obedeceu.

Anton segurou seu rosto com as duas mãos.

Com delicadeza, deu um beijo sobre um olho.

Depois...

Outro no outro.

Acariciou de leve seu rosto.

— Boa noite, Gui.

Soltou-a.

Virou-se novamente.

Mefi, que observava tudo do corredor, levantou-se e seguiu Anton até o quarto.

Guillian permaneceu parada na sala.

Ainda de olhos fechados.

Sorriu sozinha.

Depois apagou a luz.

A noite passou.

Na manhã seguinte, Anton despertou devagar.

Sentia um calor agradável.

Um cheiro suave de hidratante.

Abraçava alguma coisa.

Era quente.

Confortável.

Lá fora, a manhã era fria.

Ainda sonolento, deslizou a mão de leve.

Encontrou cabelos macios encostando em seu rosto.

Abriu os olhos.

Guillian dormia de lado, de costas para ele, toda encolhida, como quem buscava guardar o próprio calor.

Mefi estava espremido entre os dois, completamente satisfeito com a situação.

Anton soltou um suspiro.

— Gui...

Ela abriu um sorriso antes mesmo de abrir os olhos.

— Bom dia.

— Não é possível...

Agora sim, ela abriu os olhos.

— Mano... tá frio.

A voz saiu sonolenta.

— Tá quentinho aqui. É um crime dormir sozinha num frio desses.

Anton fechou os olhos outra vez.

Suspirou.

Já sabia que discutir não adiantaria.

Apenas aceitou.

Ficaram ali, em silêncio.

Sem pressa.

O apartamento ainda dormia.

Mefi ronronava entre os dois, como se tivesse decidido que aquele era exatamente o lugar onde todos deveriam estar.


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