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Capítulo 1: Quer Pertencer - Parte 4

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E, quase sem perceberem, já eram cinco e meia.

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A subida da Augusta com os letreiros acendendo um a um e a galera indo pra faculdade é bem o horário em que aquela rua muda de cara. Dá pra ver que você conhece esse trecho a pé, e não de mapa. Pra mim é a hora em que ela fica mais bonita. E a Clarisse pa

A subida da Augusta com os letreiros acendendo um a um e a galera indo pra faculdade é bem o horário em que aquela rua muda de cara. Dá pra ver que você conhece esse trecho a pé, e não de mapa. Pra mim é a hora em que ela fica mais bonita.

E a Clarisse parada no metrô da Consolação pensando nos três fica a uns quarteirões deles, sem eles nem saberem que ela existe.

Conteúdo da publicação

E, quase sem perceberem, já eram cinco e meia.

17h30.

Anton apagou as luzes da Garimpo Discos, trancou a porta e guardou as chaves no bolso.

Olhou para a barbearia.

Fechada.

Sorriu sozinho.

— Curso novo...

Iago havia comentado que faria uma especialização em cortes e técnicas de visagismo naquela noite.

Depois olhou para cima.

Guillian já o observava da porta da Rosa Selvagem, sorrindo.

— Gui... estou indo.

Ela respondeu na mesma hora.

— Anton... espera!

Desceu as escadas quase correndo.

Anton suspirou.

Já imaginava o que vinha.

— Posso dormir hoje no seu apartamento?

Ela fez a pergunta com a expressão mais inocente do mundo.

Anton cruzou os braços.

— O Iago sabe disso?

— Sabe.

Ele estreitou os olhos.

— Sabe mesmo?

— Sabe.

Não era a primeira vez.

Nem a segunda.

Nem a décima.

— E por que você quer dormir lá hoje?

— Tá frio... moro longe... se eu pegar metrô agora, chego em casa quase dez da noite.

Anton continuava desconfiado.

— Não acredito.

Guillian pegou o celular.

Abriu o grupo dos três.

Back To Friends

A descrição dizia:

"O silêncio diz tudo."

Ela entregou o aparelho.

Anton hesitou.

— Ainda acho estranho mexer no celular dos outros.

Ela sorriu.

— Eu deixo.

— Eu sei.

Pegou o aparelho.

— Parece que estou invadindo a intimidade de alguém.

Leu a conversa.

Iago havia escrito:

"Pode, mas cuidado com ela. Quartos separados."

Anton devolveu o celular.

Os dois ficaram alguns segundos em silêncio.

— Você trouxe roupa?

— Já está no seu apartamento.

Anton passou a mão no rosto.

Lembrou da última vez.

Uma calcinha de Guillian pendurada na janela do banheiro.

Um amigo apareceu para uma festa.

Tirou uma foto.

Postou nas redes.

A imagem virou piada durante semanas.

Guillian quase quis matar o sujeito.

Ela esperava uma resposta.

Sem pressionar.

Anton respirou fundo.

— Bora.

Ela abriu um sorriso enorme.

Estendeu o braço.

— Me dá uma carona?

Anton olhou para ela desconfiado.

— Você ficou me esperando esse tempo todo, né?

— Fiquei.

Sorriu sem vergonha nenhuma.

— Eu sempre espero você.

Começaram a subir a Augusta lado a lado.

Bem próximos.

Anton riu sozinho.

— Igual aquele domingo...

Guillian já sabia da história.

— Não começa.

— Você dormiu na porta do meu apartamento.

Usando o tapete como cobertor.

— Estava frio.

— Tirei foto.

— Eu sei.

— Virou meme do grupo.

Ela fez cara de indignação.

— Você e o Iago são insuportáveis.

— A gente gosta de zoar você.

— Por quê?

Anton pensou por um instante.

Depois respondeu com simplicidade.

— Porque é divertido encontrar defeitos em quem parece perfeito.

Guillian deu uma risada curta.

— Só parece.

— Ainda bem.

Ela olhou para ele.

— É justamente por isso que a gente gosta de você.

Continuaram caminhando pela Rua Augusta.

Os bares começavam a encher.

As luzes dos letreiros acendiam uma a uma.

A noite chegava devagar.

Subiram mais um trecho da Rua Augusta.

A noite começava a tomar conta da cidade.

Grupos de universitários seguiam em direção às faculdades.

Alguns olhavam discretamente para os dois.

Uma garota sustentou o olhar de Anton por alguns segundos.

Outra sorriu para Guillian.

Havia quem imaginasse romances antes mesmo de saber seus nomes.

Outros apenas invejavam aquela juventude.

Não apenas pela beleza.

Mas pela impressão de que ainda podiam errar tudo outra vez... e, mesmo assim, continuar em frente com os calos que a vida já lhes dera.

Chegaram à entrada de um edifício.

Edifício Amizade.

O porteiro abriu um sorriso ao vê-los.

— Boa noite, seu Anton.

— Boa noite, Seven.

— Chegaram umas correspondências suas.

— Obrigado.

Enquanto Anton pegava os envelopes, Guillian sorriu para Seven e lhe deu uma piscadela.

O porteiro respondeu com outro sorriso, escondido sob o bigode espesso.

Guillian entrou primeiro no hall e apertou o botão do elevador.

Anton caminhava sem pressa.

As câmeras de segurança acompanhavam os dois.

Na pequena tela da portaria, a cena parecia um daqueles filmes de baixo orçamento em que nada extraordinário acontece... e, ainda assim, é impossível desviar os olhos.

As portas do elevador se abriram.

Guillian entrou primeiro.

Apertou o número sete.

Anton entrou logo atrás.

As portas se fecharam.

O elevador começou a subir.

Silêncio.

Guillian balançava o corpo de leve, como se acompanhasse uma música que só ela escutava.

Anton permanecia sério.

Ela o conhecia bem.

Sabia que aquele silêncio dizia mais do que qualquer reclamação.

Ele também a conhecia.

Sabia exatamente o jogo que ela estava começando.

Pensou na mensagem de Iago.

"Pode... mas quartos separados."

Suspirou.

Já estava arrependido de ter concordado.

Guillian quebrou o silêncio.

— Por que essa cara?

Anton olhou para ela.

— Porque eu te conheço.

Ela sorriu.

— E o pior...

Aproximou um pouco o rosto.

— Eu também te conheço.

O elevador parou.

As portas se abriram.

Um casal de idosos aguardava para descer.

— Boa noite, seu Jorge. Dona Vitalina.

— Boa noite! — respondeu Guillian.

Seu Jorge sorriu para Anton.

— Boa noite, meu filho.

Os dois deram passagem ao casal.

Antes que as portas se fechassem, seu Jorge apontou o dedo para Anton.

— Quero fazer uma reclamação.

Anton fez uma expressão preocupada.

— O que foi?

— Seu som.

Anton abaixou a cabeça.

— Desculpa. Hoje eu desligo mais cedo.

Seu Jorge balançou a cabeça.

— Não precisa.

Anton ergueu os olhos.

— Rolling Stones merece ser ouvido alto.

Por um instante, os quatro riram.

As portas se fecharam.

Anton tirou as chaves do bolso.

Abriu a porta do apartamento.

Guillian passou por ele praticamente correndo.

— O que foi?

Ela desapareceu no banheiro.

— Tô morrendo de vontade de fazer xixi!

Anton soltou uma risada baixa.

— Boa noite pra você também.

Corte brusco.

Metrô.

Lotado.

Clarisse disputava espaço entre mochilas, bolsas e corpos cansados.

O primeiro dia de trabalho.

O ateliê.

Linda.

O novo emprego.

Conquistar seu espaço.

Era nisso que deveria estar pensando.

Mas não conseguia.

Os três.

O almoço.

As risadas.

A naturalidade com que se tocavam.

A intimidade.

Aquela amizade estranha.

Bonita.

Difícil de explicar.

O trem ainda nem havia saído da Estação Consolação.

Mesmo assim, ela já estava longe dali.

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Thoughts

  • versodemadrugada

    A subida da Augusta com os letreiros acendendo um a um e a galera indo pra faculdade é bem o horário em que aquela rua muda de cara. Dá pra ver que você conhece esse trecho a pé, e não de mapa. Pra mim é a hora em que ela fica mais bonita.

    E a Clarisse parada no metrô da Consolação pensando nos três fica a uns quarteirões deles, sem eles nem saberem que ela existe.

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  • mariinha

    Rindo aqui com o seu Jorge reclamando do som pra depois dizer que Rolling Stones tem que ser alto! Queria um vizinho desse

    Permalink

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