Pular para o conteúdo
Carregando…

Capítulo 1 - O Mesmo Lugar

vanessamsa
Pública 2 conversas 11 pensamentos 72 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Todas as manhãs, Dídimo acordava com a mesma sensação: a de não pertencer mais àquele lugar.

In groups

Pensamento

Pensamento

sextaDeDeploy

Os dez minutos entre o despertador e a obrigação de levantar são a melhor parte do dia do cara, e ele sabe. Me identifiquei mais com isso do que gostaria de admitir.

Os dez minutos entre o despertador e a obrigação de levantar são a melhor parte do dia do cara, e ele sabe. Me identifiquei mais com isso do que gostaria de admitir.

Conteúdo da publicação

Todas as manhãs, Dídimo acordava com a mesma sensação: a de não pertencer mais àquele lugar.

Não ao quarto.

Não ao apartamento.

Ao lugar maior.

À vida que continuava acontecendo do lado de fora da janela, indiferente ao fato de que ele já não compreendia muito bem o que fazia dentro dela.

O despertador tocava às seis.

Às seis e cinco, tocava novamente.

Às seis e dez, Dídimo finalmente estendia o braço para desligá-lo.

Não precisava acordar tão cedo. O trabalho ficava a pouco mais de quarenta minutos de casa e seu expediente começava às oito. Ainda assim, gostava daqueles minutos entre o despertar e a obrigação de se levantar.

Bebeu o café em pé, diante da pia, enquanto observava uma formiga atravessar lentamente a bancada.

Por alguns segundos invejou-a.

Não porque desejasse ser uma formiga — a ideia o fez quase sorrir —, mas porque parecia confortável existir sem precisar encontrar uma justificativa para isso.

A formiga não precisava descobrir seu propósito.

Não precisava ser feliz.

Não precisava demonstrar gratidão.

Não precisava explicar a ninguém por que continuava andando.

Ela simplesmente andava.

E talvez fosse isso que Dídimo estivesse fazendo havia anos.

Andando.

Chegou ao trabalho às sete e cinquenta e três.

— Bom dia, Dídimo.

— Bom dia.

— Tudo bem?

— Tudo.

Era sempre “tudo”.

A palavra tinha se tornado tão automática que já não significava coisa alguma.

Sentou-se diante do computador, colocou a mochila no chão e ligou a máquina.

Enquanto o sistema carregava, abriu o site de notícias.

Era um hábito antigo.

Política. Futebol. Economia. Uma celebridade que havia terminado um casamento. Um acidente numa rodovia. Uma nova investigação policial.

Então seus olhos pararam numa manchete.

Jovem morre por suicídio aos 22 anos.

Dídimo ficou imóvel.

Clicou.

A notícia tinha poucas informações.

Vinte e dois anos.

Estudante.

Família em choque.

Os colegas começaram a comentar quando a notícia apareceu também no celular de alguém.

— Meu Deus — disse Márcia. — Vinte e dois anos.

— Uma criança praticamente — respondeu outro.

— O que leva uma pessoa a fazer uma coisa dessas?

Dídimo continuou olhando para a tela.

— Tinha a vida inteira pela frente — alguém comentou.

Foi essa frase que o incomodou.

A vida inteira pela frente.

Todos pareciam considerar aquilo uma coisa boa.

Dídimo não compreendia por quê.

Às vezes, era justamente a vida inteira pela frente que lhe parecia insuportável.

Mais quarenta anos acordando.

Mais quarenta anos trabalhando.

Mais quarenta anos tentando construir relações que acabariam, conservar amizades que desapareceriam, juntar coisas que alguém jogaria fora depois de sua morte.

Mais quarenta anos procurando uma razão que talvez simplesmente não existisse.

— Coitada da mãe — disse Márcia.

Dídimo fechou a notícia.

Sentiu vergonha do pensamento que lhe ocorreu em seguida.

Mas ele veio mesmo assim:

Talvez ele só tenha feito aquilo que acreditava ter o direito de fazer.

A ideia não lhe pareceu bonita.

Nem corajosa.

Muito menos romântica.

Pareceu apenas lógica durante alguns segundos.

Como alguém que dirige por uma estrada e percebe que não deseja mais chegar ao destino.

Os outros motoristas continuam.

Ele vai para o acostamento.

Por que todos se revoltavam tanto com aquele que parava?

Dídimo imediatamente percebeu a falha da comparação.

Uma estrada não era uma vida.

Ainda assim, a pergunta permaneceu.

Por que ninguém podia simplesmente desistir?

Thoughts

  • AndreiaPontes

    A formiga ficou-me.

    Permalink
  • sextaDeDeploy

    Os dez minutos entre o despertador e a obrigação de levantar são a melhor parte do dia do cara, e ele sabe. Me identifiquei mais com isso do que gostaria de admitir.

    Permalink
  • reuniaoLonga

    Sete e cinquenta e três, com expediente às oito e sem ninguém cobrar. Aposto que a pontualidade é a última coisa no Dídimo que ainda funciona por vontade própria, e o resto anda no automático.

    Permalink
  • onboarding09

    O bom dia, tudo bem, tudo eu já vi acontecer umas mil vezes e em nenhuma delas alguém esperou a resposta de verdade.

    Permalink
  • melCoelho

    Na sala ninguém pergunta ao Dídimo como está, perguntam ao ar o que leva uma pessoa a fazer aquilo. A Márcia até lamenta a mãe do rapaz e não olha para o colega ao lado. Vejo isso mais vezes do que gostava, uma sala inteira a comentar a notícia e a pessoa calada mesmo ali.

    Permalink
  • meiaTarde

    Fiquei no tudo automático do Dídimo. Num café onde trabalhei tantos anos ouvia essa palavra todas as manhãs e nunca soube quantas pessoas estavam a dizer a verdade. Se calhar era metade. Ele responde tudo à entrada e depois lê aquela manchete em silêncio, e ninguém à volta repara.

    Permalink
  • leituraDaNoite

    Vai postar a continuação da história do Dídimo? Fiquei querendo saber o que ele faz depois de sair da notícia, se o dia segue igual.

    Permalink
  • fioAtras

    Ninguém em casa no texto. Ele acorda, toma o café em pé, vai pro trabalho, e a única pessoa com nome é a Márcia do escritório. Chuto que o apartamento vazio vai pesar mais nos próximos capítulos.

    Permalink
  • dcamargo58

    Despertador tocando tres vezes e ele so desliga na terceira, isso eu entendi bem. O resto do texto ainda vou terminar com calma

    Permalink

Related posts