Os Dias de Chuva e de Sol
O amor não apaga os medos de uma hora para outra. Elisa aprendeu isso logo no primeiro dia depois daquela tarde na praça.
Estava na sala de aula, sentada ao lado de Lucas, quando uma onda de pensamentos veio de repente, forte demais: será que ele vai cansar? Será que um dia ele vai perceber que sou complicada demais? Que demoro demais para falar, para sorrir, para ser quem ele quer? O peito apertou, o ar ficou pesado, e ela abaixou a cabeça, segurando o caderno com força para disfarçar o tremor das mãos.
Lucas percebeu de imediato. Não perguntou “o que você tem?” do jeito que os outros faziam. Aproximou o braço devagar, sem chamar atenção, e encostou a mão dela na sua, cobrindo com os dedos, bem suave.
— Não precisa ter pressa — sussurrou, só para ela ouvir. — Eu não vou a lugar nenhum.
Nanda respirou fundo, bem devagar, e apertou a mão dele de volta. Ainda doía. Ainda havia dúvidas. Mas não estava mais sozinha segurando tudo.
À noite, falou com Mariana. Contou sobre Lucas, sobre o que sentiam, e também sobre o medo que não ia embora. Do outro lado da tela, Mariana ficou calada um instante, depois disse:
— Sabe o que eu acho? Que o amor não é só para os dias fáceis. É para quando você não sabe quem é também. Ele gosta de você inteira, Nanda. Inclusive das partes que você ainda não conhece.
As palavras ficaram girando na cabeça dela por muito tempo. Inteira… Alguém gostava dela inteira? Com os silêncios, os medos, as perguntas sem resposta?
Os dias seguintes foram uma mistura de coisas leves e coisas pesadas. Havia manhãs em que acordava com um sorriso, só de lembrar que ia ver Lucas. E havia noites em que ficava olhando para o teto, perguntando se algum dia conseguiria se sentir em casa no próprio corpo.
Uma tarde, estava chovendo forte. O céu estava cinza-escuro, e o som da água batendo nas janelas parecia cobrir tudo. Nanda sentou-se no banco de sempre, debaixo da árvore que os protegia do vento, e abraçou os joelhos. A ansiedade veio chegando devagar, sem aviso — pensamentos girando, coração acelerando, sensação de que era pequena demais para o mundo.
Lucas chegou e sentou-se ao lado dela. Não disse “não chore”, nem “está tudo bem”. Apenas passou o braço pelos ombros dela e puxou devagar, para que ela se apoiasse nele.
— Às vezes o mundo é muito alto mesmo — disse ele, baixinho. — E às vezes a gente não sabe onde se encaixa. Tudo bem sentir isso.
Nanda encostou a cabeça no ombro dele.
— E se eu nunca souber? — sussurrou.
— A gente descobre junto — respondeu ele, beijando devagar o topo da cabeça dela. — Um dia de cada vez. Não precisa ser agora. Não precisa ser perfeito.
A chuva foi passando, devagar, e o sol começou a aparecer entre as nuvens, pintando o chão molhado de luz dourada. Nanda ainda sentia o peito apertado, mas de um jeito diferente — mais leve, mais suportável.
Mais tarde, quando estava em casa, recebeu uma mensagem de Mariana:
Estou vindo passar o feriado aí. Quero te ver. Quero abraçar você de verdade. E quero conhecer ele também 💛
Nanda sorriu, sentindo o coração quentinho. Escreveu de volta:
Esperando ansiosa 💫💛.
Ainda havia perguntas. Ainda havia medo. Ainda haveria dias em que se sentiria pequena e perdida. Mas agora sabia algo importante: as pessoas que amava não amavam apenas a parte dela que era forte e feliz. Amavam também a parte que tinha medo, que não sabia as respostas, que precisava de tempo.
E talvez… só talvez… ela merecesse esse amor.