Todas as manhãs, Dídimo acordava com a mesma sensação: a de não pertencer mais àquele lugar.
Não ao quarto.
Não ao apartamento.
Ao lugar maior.
À vida que continuava acontecendo do lado de fora da janela, indiferente ao fato de que ele já não compreendia muito bem o que fazia dentro dela.
O despertador tocava às seis.
Às seis e cinco, tocava novamente.
Às seis e dez, Dídimo finalmente estendia o braço para desligá-lo.
Não precisava acordar tão cedo. O trabalho ficava a pouco mais de quarenta minutos de casa e seu expediente começava às oito. Ainda assim, gostava daqueles minutos entre o despertar e a obrigação de se levantar.
Bebeu o café em pé, diante da pia, enquanto observava uma formiga atravessar lentamente a bancada.
Por alguns segundos invejou-a.
Não porque desejasse ser uma formiga — a ideia o fez quase sorrir —, mas porque parecia confortável existir sem precisar encontrar uma justificativa para isso.
A formiga não precisava descobrir seu propósito.
Não precisava ser feliz.
Não precisava demonstrar gratidão.
Não precisava explicar a ninguém por que continuava andando.
Ela simplesmente andava.
E talvez fosse isso que Dídimo estivesse fazendo havia anos.
Andando.
Chegou ao trabalho às sete e cinquenta e três.
— Bom dia, Dídimo.
— Bom dia.
— Tudo bem?
— Tudo.
Era sempre “tudo”.
A palavra tinha se tornado tão automática que já não significava coisa alguma.
Sentou-se diante do computador, colocou a mochila no chão e ligou a máquina.
Enquanto o sistema carregava, abriu o site de notícias.
Era um hábito antigo.
Política. Futebol. Economia. Uma celebridade que havia terminado um casamento. Um acidente numa rodovia. Uma nova investigação policial.
Então seus olhos pararam numa manchete.
Jovem morre por suicídio aos 22 anos.
Dídimo ficou imóvel.
Clicou.
A notícia tinha poucas informações.
Vinte e dois anos.
Estudante.
Família em choque.
Os colegas começaram a comentar quando a notícia apareceu também no celular de alguém.
— Meu Deus — disse Márcia. — Vinte e dois anos.
— Uma criança praticamente — respondeu outro.
— O que leva uma pessoa a fazer uma coisa dessas?
Dídimo continuou olhando para a tela.
— Tinha a vida inteira pela frente — alguém comentou.
Foi essa frase que o incomodou.
A vida inteira pela frente.
Todos pareciam considerar aquilo uma coisa boa.
Dídimo não compreendia por quê.
Às vezes, era justamente a vida inteira pela frente que lhe parecia insuportável.
Mais quarenta anos acordando.
Mais quarenta anos trabalhando.
Mais quarenta anos tentando construir relações que acabariam, conservar amizades que desapareceriam, juntar coisas que alguém jogaria fora depois de sua morte.
Mais quarenta anos procurando uma razão que talvez simplesmente não existisse.
— Coitada da mãe — disse Márcia.
Dídimo fechou a notícia.
Sentiu vergonha do pensamento que lhe ocorreu em seguida.
Mas ele veio mesmo assim:
Talvez ele só tenha feito aquilo que acreditava ter o direito de fazer.
A ideia não lhe pareceu bonita.
Nem corajosa.
Muito menos romântica.
Pareceu apenas lógica durante alguns segundos.
Como alguém que dirige por uma estrada e percebe que não deseja mais chegar ao destino.
Os outros motoristas continuam.
Ele vai para o acostamento.
Por que todos se revoltavam tanto com aquele que parava?
Dídimo imediatamente percebeu a falha da comparação.
Uma estrada não era uma vida.
Ainda assim, a pergunta permaneceu.
Por que ninguém podia simplesmente desistir?