Na manhã seguinte, o despertador tocou às seis.
Dídimo abriu os olhos antes do segundo toque.
Por alguns segundos, não se lembrou da conversa que tivera com o teto na noite anterior.
Depois lembrou.
Sentiu vergonha.
Não de pensar em morrer.
Curiosamente, disso já sentia cada vez menos.
Sentiu vergonha de ter pedido uma resposta.
Levantou-se, foi até a cozinha e encontrou a xícara que deixara sobre a pia.
Lavou-a.
Preparou café.
A formiga não estava mais lá.
Pensou que talvez aquilo fosse uma resposta.
Depois pensou que estava ficando idiota.
Sorriu sozinho.
Foi trabalhar.
Durante as semanas seguintes, nada aconteceu.
Mais tarde, se alguém tentasse reconstruir seus sentimentos naquele período, provavelmente encontraria nisso a parte mais difícil de compreender.
Nada aconteceu.
Dídimo continuou chegando ao trabalho antes das oito.
Continuou respondendo mensagens.
Continuou pagando contas.
Foi ao supermercado.
Cortou o cabelo.
Trocou uma lâmpada do banheiro.
Numa sexta-feira, saiu com dois colegas depois do expediente e bebeu uma cerveja.
Riu genuinamente três vezes.
Márcia contou uma história sobre o marido ter colocado detergente na máquina de lavar roupas e inundado a área de serviço.
Dídimo riu tanto que seus olhos lacrimejaram.
Naquela noite, quando chegou em casa, percebeu que havia passado quase duas horas sem pensar na morte.
Ficou feliz.
Depois percebeu que estava feliz por não ter pensado na morte.
E isso estragou um pouco a felicidade.
Ainda assim, considerou uma vitória.
Talvez estivesse melhorando.
Essa frase também se tornaria frequente.
Talvez eu esteja melhorando_ Pensou
No sábado, sua mãe telefonou.
— Você sumiu.
— Eu falei com a senhora domingo passado.
— Uma semana é muito tempo.
— Para desaparecer?
— Para falar com a mãe.
Dídimo sorriu.
— Estou vivo.
— Não brinca com isso.
A resposta foi tão rápida que ele ficou em silêncio.
— Dídimo?
— Estou aqui.
Conversaram durante vinte minutos.
A mãe falou sobre a irmã, sobre uma vizinha, sobre o preço dos alimentos e sobre uma mulher da igreja que estava internada.
Antes de desligar, perguntou:
— Você tem rezado?
Dídimo demorou.
— Às vezes.
— Às vezes não é suficiente.
Ele olhou pela janela.
— Como você sabe?
— Sei o quê?
— Quanto é suficiente?
A mãe suspirou.
— Você sempre complica tudo.
Talvez fosse verdade.
Desde pequeno Dídimo tinha a impressão de que existiam respostas simples disponíveis para todas as pessoas, menos para ele.
— Vou tentar mais — respondeu.
— Deus não abandona ninguém.
Depois que desligaram, Dídimo permaneceu algum tempo segurando o telefone.
Queria realmente acreditar naquela frase.
Talvez por isso ela o irritasse tanto.