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Capítulo 2 — As coisas que ficam

vanessamsa
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Na manhã seguinte, o despertador tocou às seis.

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HoracioMelo

Nada aconteceu. Pois.

Nada aconteceu. Pois.

Conteúdo da publicação

Na manhã seguinte, o despertador tocou às seis.

Dídimo abriu os olhos antes do segundo toque.

Por alguns segundos, não se lembrou da conversa que tivera com o teto na noite anterior.

Depois lembrou.

Sentiu vergonha.

Não de pensar em morrer.

Curiosamente, disso já sentia cada vez menos.

Sentiu vergonha de ter pedido uma resposta.

Levantou-se, foi até a cozinha e encontrou a xícara que deixara sobre a pia.

Lavou-a.

Preparou café.

A formiga não estava mais lá.

Pensou que talvez aquilo fosse uma resposta.

Depois pensou que estava ficando idiota.

Sorriu sozinho.

Foi trabalhar.

 Durante as semanas seguintes, nada aconteceu.

Mais tarde, se alguém tentasse reconstruir seus sentimentos naquele período, provavelmente encontraria nisso a parte mais difícil de compreender.

Nada aconteceu.

Dídimo continuou chegando ao trabalho antes das oito.

Continuou respondendo mensagens.

Continuou pagando contas.

Foi ao supermercado.

Cortou o cabelo.

Trocou uma lâmpada do banheiro.

Numa sexta-feira, saiu com dois colegas depois do expediente e bebeu uma cerveja.

Riu genuinamente três vezes.

Márcia contou uma história sobre o marido ter colocado detergente na máquina de lavar roupas e inundado a área de serviço.

Dídimo riu tanto que seus olhos lacrimejaram.

Naquela noite, quando chegou em casa, percebeu que havia passado quase duas horas sem pensar na morte.

Ficou feliz.

Depois percebeu que estava feliz por não ter pensado na morte.

E isso estragou um pouco a felicidade.

Ainda assim, considerou uma vitória.

Talvez estivesse melhorando.

Essa frase também se tornaria frequente.

Talvez eu esteja melhorando_ Pensou

 No sábado, sua mãe telefonou.

— Você sumiu.

— Eu falei com a senhora domingo passado.

— Uma semana é muito tempo.

— Para desaparecer?

— Para falar com a mãe.

Dídimo sorriu.

— Estou vivo.

— Não brinca com isso.

A resposta foi tão rápida que ele ficou em silêncio.

— Dídimo?

— Estou aqui.

Conversaram durante vinte minutos.

A mãe falou sobre a irmã, sobre uma vizinha, sobre o preço dos alimentos e sobre uma mulher da igreja que estava internada.

Antes de desligar, perguntou:

— Você tem rezado?

Dídimo demorou.

— Às vezes.

— Às vezes não é suficiente.

Ele olhou pela janela.

— Como você sabe?

— Sei o quê?

— Quanto é suficiente?

A mãe suspirou.

— Você sempre complica tudo.

Talvez fosse verdade.

Desde pequeno Dídimo tinha a impressão de que existiam respostas simples disponíveis para todas as pessoas, menos para ele.

— Vou tentar mais — respondeu.

— Deus não abandona ninguém.

Depois que desligaram, Dídimo permaneceu algum tempo segurando o telefone.

Queria realmente acreditar naquela frase.

Talvez por isso ela o irritasse tanto.

Thoughts

  • HoracioMelo

    Nada aconteceu. Pois.

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  • tresPaginas

    Gostei muito da parte da formiga que já não estava lá. Li isto antes de dormir e adormeci a pensar nisso.

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  • fsantos1307

    Gostei da mãe a perguntar se ele reza e dele responder às vezes. Tenho uma vizinha que me pergunta o mesmo todas as semanas e eu digo sempre igual.

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  • conto84

    Li ontem à noite e li de novo hoje cedo. Dessa vez o que ficou foi a mãe dizendo que uma semana é muito tempo. Minha mãe fala igualzinho quando eu passo três dias sem puxar assunto.

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  • soleioanoite

    Uai, li de noite e fui dormir pensando na Márcia e no detergente na máquina de lavar, que é a única hora em que ele ri de verdade no texto inteiro. Vai postar a continuação essa semana?

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  • linhaTorta

    Deixa eu ver se peguei a ordem certa. Ele passa semanas em que nada acontece, chega antes das oito, paga conta, corta o cabelo, troca a lâmpada. Aí ri três vezes numa sexta e só percebe de noite que ficou duas horas sem pensar naquilo. E a percepção estraga a coisa. Pra mim o capítulo inteiro está nesse estrago.

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  • Ovid

    Ele fica feliz, e logo percebe que estava feliz por não ter pensado na morte, e a felicidade estraga um pouco por causa disso. Fiquei parado nesse trecho um tempo bom. É um movimento que eu reconheço bem e para o qual nunca soube que nome dar. Obrigado por publicar o Dídimo por aqui!

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  • cadernoPreto

    Ele acorda, lava a xícara, faz café, e a formiga não está mais lá. Achar por um segundo que aquilo era uma resposta e logo depois se chamar de idiota, isso eu reconheço de madrugada. Copiei essa parte no caderno e fiquei um tempo sem conseguir voltar pro texto.

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