João na fogueira 🔥
Capítulo 09 - A Marca na Pele
A estrada havia desaparecido havia horas, mas nenhum dos quatro parecia disposto a voltar para as rotas conhecidas. Desde que deixaram o memorial de Ezekiel, Edran vinha conduzindo o grupo por…
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Pensamento
João na fogueira 🔥
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A estrada havia desaparecido havia horas, mas nenhum dos quatro parecia disposto a voltar para as rotas conhecidas. Desde que deixaram o memorial de Ezekiel, Edran vinha conduzindo o grupo por trilhas antigas que atravessavam as montanhas ao sul de Arken, caminhos que já não apareciam nos mapas mais recentes e que, segundo ele, haviam sido utilizados por viajantes e caçadores muito antes de a região receber suas atuais fronteiras.
A escolha não era apenas uma questão de segurança, os seguidores de Azoth certamente estariam procurando pelas estradas principais e, depois do que acontecera em Arken, qualquer caminho conhecido poderia se transformar em uma armadilha. O problema era que quanto mais se afastavam das cidades, mais estranha a paisagem parecia ficar. O céu permanecia coberto por nuvens acinzentadas, embora quase não houvesse vento, e as árvores que margeavam a trilha apresentavam uma aparência doentia, algumas folhas haviam perdido completamente a cor, enquanto outras permaneciam verdes apenas nas pontas, como se a vida estivesse lentamente sendo arrancada de dentro delas.
Em certos trechos, a vegetação simplesmente havia secado, formando manchas de terra escura em meio à floresta, Marina percebeu a mudança e parou diante de uma árvore cujo tronco estava coberto por pequenas rachaduras negras. Tocou a casa com dois dedos e observou quando um pedaço se desprendeu facilmente.
— Isso não estava assim quando passamos pela região ontem — disse ela, mais para si mesma do que para os outros. — A árvore está morrendo por dentro, mas não há sinal de praga, fungo ou qualquer alteração comum no solo. É como se alguma coisa tivesse tirado a vida dela...
João se aproximou, pegou uma das folhas caídas e tentou examiná-la contra a luz, folha se desfez entre seus dedos antes mesmo que ele conseguisse terminar de analisa-la. Ele olhou para o pó que restara na própria mão e depois para Marina, tentando manter a expressão descontraída que costumava usar sempre que alguma coisa começava a ficar assustadora demais.
— Você consegue transformar uma árvore morta em um mal presságio em menos de um minuto, isso é um talento natural seu que eu não gostaria que você tivesse, irmã.
Marina limpou os dedos na roupa e continuou olhando para a floresta.
— Não estou tentando transformar isso em nada, João. Só estou dizendo que existe uma relação entre o que aconteceu em Arken e o que está acontecendo aqui, o Edran explicou que Azoth se alimenta da força vital do mundo, se ele realmente voltou e a essência dentro do Daiquiri funciona como uma ligação entre ele e aquilo que perdeu, talvez estejamos começando a ver os efeitos dessa presença antes mesmo que ela se manifeste de forma mais evidente.
Daiquiri, que até então permanecera alguns passos atrás, levantou os olhos para as árvores, ele já havia percebido aquela mudança muito antes de Marina apontá-la. Não era apenas a aparência da floresta, havia uma sensação estranha no ar, uma espécie de silêncio que não deveria existir. Os pássaros haviam desaparecido, os pequenos animais que costumavam correr entre as raízes não deixavam sinais e até o som dos próprios passos parecia abafado pelo ambiente.
Desde que saíra do memorial de Ezekiel, Daiquiri vinha sentindo que alguma coisa estava diferente dentro dele. Às vezes era uma pressão no peito, em outras, uma sensação de que alguém o observava mesmo quando não havia ninguém por perto. O pior era que ele não conseguia distinguir se aquela presença vinha de fora ou de dentro dele.
Quando João perguntou se ele estava ouvindo alguma coisa novamente, Daiquiri demorou alguns segundos para responder:
— Não é exatamente uma voz... — colocou a mão sobre o peito. — É mais como alguém chamando meu nome de muito longe, mas não consigo descobrir de onde vem. Às vezes tenho a impressão de que Azoth está tentando falar comigo, mas em outras parece que ele simplesmente está... sentindo o que eu sinto. Como se houvesse alguma coisa entre nós que não dependesse de palavras...
Alexander, que vinha caminhando à frente, diminuiu o passo ao ouvir aquilo.
— E o que acontece quando você sente isso? — perguntou.
— Não sei explicar, meu corpo reage antes de eu perceber. É como se alguma coisa dentro de mim reconhecesse a presença dele, não é exatamente medo, é pior porque, parece familiar.
A palavra "familiar" fez Alexander parar, ele se virou e encarou Daiquiri com seriedade, mas não respondeu imediatamente. Edran também havia parado mais adiante, embora sua expressão demonstrasse que aquela informação não era nova para ele, Marina percebeu a reação dos dois e estreitou os olhos.
— Parece que você sabia que isso podia acontecer, não é? — disse ela.
— Eu suspeitava, eu ainda não sabia o suficiente para ter certeza — Edran soltou o ar lentamente e viu João cruzar os braços e olhar para ele.
— Espera aí... Acho que minha cabecinha de amendoim tá começando a perceber um padrão que até um idiota como eu pode perceber — ele lentamente começou a se aproximar de Edran. — Toda vez que descobrimos alguma coisa, você diz que já suspeitava, mas resolveu guardar a informação porque "ainda não sabia o suficiente", se continuarmos assim daqui a pouco vamos descobrir que o Azoth estava na bolsa da minha irmã o tempo todo e que o EDRAN já sabia disso desde o começo.
Apesar da tensão, Marina deixou escapar um pequeno sorriso, Edran apenas balançou a cabeça, enquanto Alexander continuava encarando Daiquiri. O humor de João ajudava a aliviar a pressão, mas ninguém ali ignorava o problema: A ligação estava ficando mais forte e, se aquilo acontecia tão pouco tempo depois da libertação de Azoth, nenhum deles queria imaginar como seria dali a uma semana.
Retomaram a caminhada, mas a sensação de inquietação permaneceu.
Algumas horas depois, quando chegaram a uma clareira cercada por árvores antigas, Daiquiri pediu para que parassem. Não sabia exatamente por que havia feito aquilo, apenas sentiu um puxão, uma espécie de chamado que vinha de algum ponto distante da floresta, era uma sensação muito diferente da voz de Azoth, era apenas uma direção que parecia pesar dentro de sua cabeça.
— É pra lá — disse ele, apontando para o norte.
Edran olhou para a direção indicada e imediatamente respondeu que deveriam seguir para o sul, a negativa foi tão rápida que até João percebeu que havia alguma coisa errada.
— Você nem perguntou pra ele, o que tem lá.
— O que existe naquela direção? — Marina se aproximou de Edran.
— Uma antiga fonte — respondeu.
— Fonte de quê?
O velho permaneceu calado por alguns segundos, antes de explicar que existiam lugares espalhados pelo continente onde a força vital do mundo se concentrava de maneira incomum. Algumas era nascentes, outras eram árvores muito antigas, cavernas ou formações naturais que haviam acumulado energia durante séculos. Durante o Século Branco, seguidores de Azoth procuraram esses lugares porque acreditavam que poderiam utilizá-los para alimentar a entidade. Muitos haviam sido destruídos ou selados depois da Grande Guerra, mas alguns ainda permaneciam escondidos.
— Então a presença que Daiquiri está sentindo pode ser uma dessas fontes — Marina imediatamente compreendeu a implicação.
— Sim, e é exatamente por isso que não vamos até lá — exclamou o velho. — Se ele consegue sentir a fonte, existe uma possibilidade de que os seguidores de Azoth também consigam. E, se estiverem procurando uma maneira de fortalecer a entidade, esse seria um dos primeiros lugares onde procurariam.
— Então talvez devêssemos ir — Daiquiri ficou olhando para o norte.
— Não — Alexander virou-se para ele.
— Se existe alguma coisa capaz de me explicar o que está acontecendo, não podemos simplesmente ignorar. — Daiquiri encarou Alexander e caminhou até ele.
— Podemos sim! — Alexander também caminhou até Daiquiri e ambos ficaram frente a frente se encarando. — Se isso colocar todos nós dentro de uma armadilha, não devemos ir! — Alexander olhou para o grupo e percebeu que estava intimidando eles e não a Daiquiri, então suspirou um bafo gelado e continuou sem agressividade. — Eu não quero continuar vendo você tratar a própria vida como se fosse uma ferramenta que podemos arriscar sempre que aparece uma pista. Não estou dizendo para abandonar a investigação, eu estou dizendo que precisamos escolher sabiamente quando lutar. E se existe uma fonte ligada a Azoth naquele lugar, talvez seja exatamente isso que ele quer que você encontre.
Marina observou os dois e então interveio, explicando que Alexander tinha razão sobre o risco, mas que Edran também estava deixando de considerar uma possibilidade importante. Se Daiquiri conseguia sentir a fonte sem nunca ter estado ali, talvez a conexão pudesse revelar como a essência funcionava. Não precisavam necessariamente entrar no local, poderiam observar de longe, encontrar algum registro ou simplesmente descobrir se os seguidores de Azoth já estavam utilizando aquela energia. Edran hesitou, mas acabou concordando em seguir pela região apenas o suficiente para confirmar se havia atividade.
E foi assim que chegaram a um riacho.
A água corria lentamente entre pedras cobertas de musgo, mas havia algo errado com ela. Em vez de refletir o céu cinzento, parecia carregar uma coloração escura, quase metálica. Pequenas machas flutuavam na superfície e desapareciam quando tocavam as margens, Marina se agachou e tocou a água com os dedos, retirando-os quase imediatamente.
— Está fria demais — disse.
— Você não acabou de achar que isso era uma fonte? — João olhou para o riacho.
— Não esta parte, existe atividade subterrânea sob a região, a água deveria estar bem mais quente — Edran se abaixou lentamente e tocou a água.
— Será que alguma coisa alterou o seu fluxo? — Marina observou novamente a água.
Daiquiri se aproximou sem perceber que estava caminhando, e a água começou a tremer antes mesmo que seus pés tocassem a margem, rapidamente Alexander o puxou pela capa do manto.
— Para trás, garoto!
Daiquiri obedeceu, mas a superfície do riacho começou a formar espirais e círculos concêntricos, todos partido do ponto onde ele estivera parado. O movimento aumentou lentamente, até que uma linha escura surgiu sobre a pele de seu braço. Começou próxima ao pulso e avançou pelo antebraço como uma veia negra, desenhando lentamente um símbolo que lembrava aquele gravado na caixa. Daiquiri caiu de joelhos, a dor veio de uma vez, tã intensa que ele precisou apoiar uma das mãos no chão para não tombar.
Marina correu até ele e segurou o seu braço, enquanto Alexander permanecia ao lado, com a espada em mão, pronto para intervir caso a situação piorasse.
— Não tente arrancar isso — disse Marina, observando a marca se espalhar. — Preciso entender o que está acontecendo antes que você faça alguma coisa.
— Está me queimando por dentro! — respondeu Daiquiri entre respirações difíceis. — Parece que meu sangue está sendo puxado para fora, mas ao mesmo tempo existe alguma coisa entrando no meu corpo. Eu consigo sentir tudo ao redor, a água, as árvores, as pedras... é como se a floresta inteira estivesse falando ao mesmo tempo.
Edran ajoelhou-se diante dele e segurou seu olhar.
— Escute minha voz, garoto. Não tente expulsar a sensação e também não tente segui-la, apenas observe. A essência está reagindo a alguma coisa próxima, e se você lutar contra ela sem compreender o que está acontecendo pode acabar fortalecendo a ligação.
— Você está me pedindo para ficar parado enquanto meu braço está sendo tomado por alguma coisa? — Daiquiri ironizou enquanto agonizava de dor.
— Eu estou pedindo para você descobrir se é você quem está sendo tomado ou se está apenas percebendo algo que já existia dentro de você.
Daiquiri então fechou os olhos e o mundo desapareceu.
Por alguns segundos, ele não sentiu mais o chão, o vento ou as mãos quente de Marina segurando o seu braço, ele sentiu apenas uma imensidão escura sob os pés, como se estivesse pairando sob um oceano sem fim. Abaixo dele havia alguma coisa enorme, tão antiga que parecia fazer parte da própria terra, ele não conseguia enxergar sua forma, mas sabia que estava ali.
Então a voz de Azoth surgiu dentro de sua mente, como uma presença que atravessava seus pensamentos, Daiquiri tentou resistir, mas a presença começou a falar:
— Acaso o sentis... O próprio solo ainda não olvidou a minha presença.
Imagens começaram a surgir.
Primeiro veio uma floresta negra, coberta por uma névoa espessa. Depois apareceu uma montanha cercada por árvores retorcidas e, no centro dela, uma estrutura de pedra semelhante a um altar. Havia pessoas ao redor, todas vestidas com roupas escuras, ajoelhadas diante de alguma coisa que Daiquiri não conseguia enxergar, e então a imagem mudou.
Agora ele via Polaris, não como a criança que aparecera nas primeiras lembranças, mas como um adolescente. Polaris estava diante de Ezekiel segurando uma espada de madeira tentando repetir um movimento de combate, o pai corrigia sua postura com uma paciência que Daiquiri nunca havia imaginado existir. Por alguns segundos, a cena parecia normal, uma cena feliz, até que mudou outra vez.
Polaris estava discutindo com Ezekiel, Daiquiri não conseguia ouvir todas as palavras, mas reconheceu a expressão do irmão. Era medo misturado com raiva, Ezekiel segurando seus ombros e tentava fazê-lo ficar em silêncio, então uma única palavra atravessou a memória: Receptáculo.
Daiquiri abriu os olhos e violentamente puxou o braço das mãos de Marina, a marca ainda estava ali, mas havia parado de avançar. Marina o segurou antes que ele caísse completamente.
— Daiquiri, olha pra mim! — ela o segurava, enquanto ele ainda estava assustado. — Respira devagar, você voltou?
Ele levou alguns segundos para conseguir responder.
— Eu vi... o Polaris.
— O que você viu? — Edran empalideceu.
— Ele sabia... — Daiquiri olhou diretamente para Edran. — Ele sabia que eu era o receptáculo de Azoth.
O silêncio que se seguiu foi diferente dos anteriores, não era apenas uma surpresa, era o silêncio de alguém que acabou de ouvir uma informação que preferia não ouvir, Edran desviou os olhos e Daiquiri percebeu.
— Edran... Você sabe de mais coisas, não é? — perguntou.
— Eu sei que o Polaris era muito inteligente.
— Não foi isso que perguntei, Edran.
— Daiquiri...
— Você sabia que ele sabia? — insistiu Daiquiri, agora com a voz mais firme. — Meu irmão descobriu alguma coisa sobre Azoth antes de morrer, não descobriu?
Edran permaneceu calado, Marina largou o braço de Daiquiri e se levantou lentamente.
— Edran... — ela suspirou. — Você não pode continuar fazendo isso! Cada vez que o Daiquiri recupera uma lembrança, você reage como alguém que já conhece a resposta, se sabe alguma coisa sobre Polaris, precisamos saber agora.
O velho respirou fundo antes de explicar que Polaris havia percebido muito antes dos demais que os ataques contra a família não eram aleatórios. Ele era curioso, inteligente e tinha uma capacidade incomum de perceber padrões. Quando começaram a surgir relatos sobre os seguidores de Azoth procurando pelo portador da essência, Polaris começou a investigar por conta própria. Ezekiel tentou impedi-lo, mas não conseguiu convencê-lo a abandonar a busca.
Daiquiri escutou tudo sem interromper, até que uma pergunta surgiu.
— O que ele encontrou? — a pergunta fez Edran hesitar, foi então que Daiquiri perdeu a paciência com o velho homem. — Edran, você sabe que ele estava investigando, sabe que ele descobriu alguma coisa e sabe que meu pai tentou impedi-lo, mas não sabe o que ele encontrou?
— Existem coisas que Ezekiel me fez prometer que eu manteria em segredo.
— Edran! — Daiquiri deu um passo à frente. — Meu pai está morto! Polaris está morto! O culto está atrás de mim e Azoth está livre! Se existe alguma coisa que você acredita que pode proteger alguém escondendo, então está cometendo exatamente o mesmo erro que meu pai cometeu.
A frase atingiu Edran com força, o velho permaneceu em silêncio durante alguns segundos, e quando finalmente respondeu, sua voz estava muito mais cansada.
— Talvez você tenha razão.
A marca no braço de Daiquiri começou a desaparecer lentamente, deixando apenas uma pequena cicatriz escura próxima ao pulso. Edran observou o processo com atenção antes de falar:
— Isso significa que a conexão ainda não está completa, é uma boa notícia, mas não necessariamente uma solução.
— Explique. — Alexander guardou a espada.
— Enquanto a conexão estiver incompleta, Azoth conseguirá sentir Daiquiri, mas não conseguirá utilizar plenamente a essência para alcançá-lo. Se a conexão se tornar permanente, a distância entre eles deixará de ser uma proteção. Ele poderá encontrar Daiquiri com muito mais facilidade e, dependendo do que descobrirmos, talvez consiga fazer mais do que simplesmente falar com ele.
— Então basicamente estamos correndo contra o tempo — disse João enquanto olhava para a cicatriz no pulso de Daiquiri.
— Nesse caso, precisamos aprender a controlar a essência antes que Azoth aprenda a controlá-la por nós — Marina ajeitou a alça da bolsa sobre o ombro. — Não sei como faremos isso, mas sei que, se existe uma coisa que descobrimos nesta viagem, é que as respostas estão sempre escondidas atrás de outra pergunta. Então vamos continuar fazendo perguntas até encontrarmos alguma coisa que Azoth não queira que façamos.
— Finalmente, minha irmãzinha criando uma estratégia que combina comigo! — João sorriu.
— Claro, você fala demais — Alexander olhou pra ele.
— E você fala de menos — João respondeu enquanto dava um soco leve no braço de Alexander.
Dessa vez, até Alexander deixou escapar um pequeno sorriso, parecia intimidador, mas era um generoso sorriso.
O grupo retomou a caminhada antes que o céu escurecesse completamente. Daiquiri continuava sentindo a marca no pulso, mas a dor havia desaparecido, o chamado da fonte também havia diminuído, embora não tivesse desaparecido completamente. Agora ele sabia que aquilo não era apenas uma reação aleatória da essência, havia lugares no mundo que estavam ligado a Azoth, e a parte da entidade que existia dentro dele conseguia senti-los.
O que mais o perturbava, porém, era a lembrança de Polaris. Pela primeira vez, seu irmão deixava de ser apenas uma vítima em uma história contada por outras pessoas. Havia sido alguém que investigara, desconfiara e talvez tivesse descoberto uma verdade que Ezekiel fizera de tudo para esconder.
Quando a noite chegou, acamparam entre algumas árvores altas. João preparou a fogueira enquanto Alexander verificava as armas e Marina organizava os objetos da bolsa, Edran ficou afastado, sentado sobre uma pedra com os olhos fixos no fogo. Ele parecia carregado por uma preocupação que não conseguia dividir com os outros. Daiquiri percebeu, mas não perguntou, já havia aprendido que algumas respostas precisavam ser conquistas e não arrancadas.
Mais tarde, quando os outros começaram a dormir, João sentou-se ao lado de Daiquiri. Por alguns minutos, os dois ficaram em silêncio, observando as últimas chamas. Então João falou, sem o tom brincalhão que normalmente usava para esconder as coisas que sentia.
— Eu não vou fingir que eu não estou com medo do que está acontecendo com você, eu estou, na verdade, eu acho que todos nós estamos. Mas tem uma coisa que eu quero que você entenda antes que essa história fique ainda pior. Você não precisa enfrentar isso sozinho. Não somos heróis, claramente nenhum de nós sabe o que está fazendo na maior parte do tempo, também não acho que existe algum destino glorioso esperando por nós, mas somos amigos. Então se você ouvir Azoth, fala com a gente! Se lembrar do Polaris, conta! Se sentir que está começando a perder o controle, não esconde! Talvez a gente não consiga resolver tudo, mas pelo menos não vamos deixar que a única voz dentro da sua cabeça seja a dele.
— Você consegue ser sério quando quer — Daiquiri continuava olhando para o fogo.
— Eu sei, mas não espalha, ok? — João deu um sorriso. — Eu tenho uma reputação a zelar.
Daiquiri riu, e por alguns segundos o peso que carregava pareceu diminuir.
Do outro lado da fogueira, Marina abriu os olhos, ela não estava dormindo, estava observando os dois em silêncio antes de se virar e olhar para a bolsa ao seu lado. Alexander também permanecia acordado, embora fingisse perfeitamente que estava dormindo.
Daiquiri acabou adormecendo pouco depois, e naquela noite, voltou a sonhar com Polaris.
Dessa vez, porém, seu irmão não era uma criança, era quase da mesma idade que Daiquiri tinha agora. Ele estava parado diante de uma floresta em chamas, observando uma coluna de fumaça subir para o céu. Quando percebeu a presença de Daiquiri, virou-se lentamente.
— Você demorou, cabelinhos de prata.
— Polaris? — Daiquiri tentou se aproximar
O irmão sorriu, mas havia tristeza em seu rosto.
— Então você ainda não se lembra... — Polaris olhou novamente para o fogo. — Da noite em que nosso pai quase morreu.
Daiquiri sentiu o coração acelerar.
— O que aconteceu naquela noite?
Polaris não respondeu imediatamente, ao longe, alguma coisa explodiu e uma onda de fogo atravessou as árvores. Quando ele voltou a olhar para Daiquiri, sua expressão havia mudado.
— Não confie no que ele contou... — a imagem começou a desaparecer. — Não confie nas palavras do nosso pai.
— Polaris, espera! — Daiquiri tentou correr até ele, mas o irmão já estava começando a desaparecer entre a fumaça.
Daiquiri acordou de repente, sentado diante da fogueira quase apagada, Marina estava acordada do outro lado do acampamento e percebeu imediatamente que alguma coisa havia acontecido. Ela não perguntou de forma apressada, apenas esperou até que ele recuperasse a respiração antes de falar.
— Você sonhou com Azoth novamente, não é? — ela sussurrou.
Daiquiri balançou a cabeça em sinal de negação.
— Eu sonhei com o Polaris, e ele disse que eu não devo confiar nas palavras do meu pai, ou seja, não devo confiar no que ele me contou.
— Então que bom que o seu pai não te contou nada — ela deu um breve sorriso e olhou para o fogo por alguns segundos. — Precisamos descobrir o que o Ezekiel não contou.
— E se eu não gostar da resposta? — ele passou os dedos pela marca quase desaparecida em seu pulso.
— Esse é o problema de procurar a verdade — ela olhou para a marca no pulso. —Você nunca pode escolher o que vai encontrar.
Daiquiri permaneceu em silêncio observando as brasas.
Longe dali, em algum lugar que nenhum deles conhecia, uma presença despertou, Azoth havia sentido a mudança. A essência dentro de Daiquiri estava começando a despertar de uma maneira que não deveria ser possível. E, pela primeira vez desde que havia retornado ao mundo, a entidade não sentiu apenas satisfação ao perceber seu receptáculo, sentiu preocupação, porque alguma coisa dentro de Daiquiri estava acordando junto com ela.
Thoughts
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Fixado por quem publicou
PermalinkChegamos à metade de O Herói Morreu.
Nove capítulos já se passaram desde que essa história começou, e eu queria parar por um instante antes de continuarmos para agradecer a todos que chegaram até aqui! Essa história foi pensada desde o início para ser uma aventura completa, com começo, desenvolvimento e fim, mas, acima de tudo, para falar sobre legado, família, culpa, amizade e sobre a dificuldade de descobrir quem somos quando passamos a vida inteira sendo definidos pelo nome de outra pessoa.
Até aqui, conhecemos Daiquiri, João, Marina e Alexander, descobrimos parte da história de Ezekiel, começamos a entender o que realmente aconteceu com Polaris e vimos Azoth finalmente voltar ao mundo. Mas muita coisa que parece resposta ainda é apenas outra pergunta. A partir daqui, a história começa a mudar de tom, e tudo aquilo que foi construído nos primeiros capítulos vai começar a encontrar seu significado.
Obrigado por acompanhar essa jornada, capítulo após capítulo, e por dar uma chance a uma história que nasceu da vontade de criar um mundo, seus personagens e, principalmente, uma aventura que tivesse um fim de verdade.
Ainda faltam nove capítulos, e sinceramente, eu acho que vocês ainda não estão preparados para o que vem pela frente.
Nos vemos na segunda metade de O Herói Morreu.
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PermalinkJoão na fogueira 🔥
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PermalinkCabelinhos de prata 😭
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PermalinkO João largando a piada na fogueira e dizendo que ninguém ali é herói, só amigo, me fez pensar no título da série: talvez o herói que morreu seja a própria ideia de herói, e o que sobra é esse grupo meio perdido. Aposto que na segunda metade o Ezekiel cai do pedestal de vez. Parabéns por chegar na metade!
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