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 CAPÍTULO 04: O Caldo e as Lembranças

BELADIA
Pensamento

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anogueira52

Voltei atrás na parte da Júlia. Ela leva a Maraíra pra morrer sozinha logo no bangalô que a Maraíra construiu, num dos melhores projetos dela. Isso é crueldade de quem conhece a pessoa por dentro. Aposto que essa Júlia está no centro das mentiras que ela

Voltei atrás na parte da Júlia. Ela leva a Maraíra pra morrer sozinha logo no bangalô que a Maraíra construiu, num dos melhores projetos dela. Isso é crueldade de quem conhece a pessoa por dentro. Aposto que essa Júlia está no centro das mentiras que ela quer largar.

Conteúdo da publicação

livro (Querida, Sorria!)

Já estava anoitecendo quando Maraíra acordou novamente. Seu corpo estava fraco, mas o estômago pedia comida. Levantou-se com dificuldade e, com passos lentos, foi até a cozinha ampla e aberta do bangalô. Sentou-se na bancada e puxou o recipiente com o caldo que Vivi havia deixado pela manhã. Nos últimos dias, aquele era o único alimento que não a fazia vomitar. O caldo era cheiroso, tinha uma consistência cremosa e um gosto delicioso. Maraíra pegou uma colher ali próxima e começou a saboreá-lo, até que uma lembrança bateu à sua porta.

— Esse caldo ela fazia para o cachorro? — Ela empurrou o recipiente para longe na bancada. — Que audácia! Ela está me trazendo comida de cachorro há três dias? — resmungou, tomada pela indignação.

Ela, que sempre degustara as melhores refeições nos restaurantes mais caros do país, agora recebia de uma estranha a mesma comida feita para um animal. Mas, pensando bem... a receita era incrivelmente saborosa. O estômago roncou mais alto que o orgulho. Puxou o recipiente de volta e deu uma colherada generosa. Era realmente muito bom.

No dia seguinte, tiraria satisfações com aquela mulher.

Qual era mesmo o nome dela?, pensou Maraíra. Ela chegou a me falar? Acho que não... Não importa.

Continuou tomando o caldo até raspar o fundo do recipiente.

Alimentada e finalmente sóbria, Maraíra olhou ao redor. A casa estava uma bagunça. A louça estava lavada e guardada, mas havia roupas espalhadas por todos os cantos. Já fazia semanas desde que chegara àquele bangalô recém-construído. Lembrava-se vagamente de que fora Júlia quem a trouxera, provavelmente apostando que ela morreria ali, sozinha e sem qualquer assistência médica.

A estrutura do bangalô era lindíssima. Aquele fora um de seus melhores projetos pessoais; ela sempre teve bom gosto e sabia que havia feito um ótimo trabalho na construção do lugar. Contudo, apesar de toda a beleza ao redor, a única coisa que Maraíra sentia era uma dor aguda no peito e lágrimas que teimavam em cair.

Aos poucos, conforme os dias passavam e ela se via mais sóbria e desintoxicada da mistura de álcool e remédios, sua mente voltava a ficar clara e lúcida. A beleza silenciosa do bangalô, o vento balançando a copa das árvores e o canto dos pássaros funcionavam como uma âncora, trazendo-a de volta para o mundo real. Um mundo onde ela era um ser humano, onde sua vida e sua saúde importavam.

Seus pensamentos vagavam pelo passado e esbarravam no presente. Enxergava seus erros e as escolhas de sua vida pregressa como uma sentença cruel, mas, naquele exato momento, teve uma certeza inabalável: já havia pago tudo o que devia. Daquele dia em diante, sua vida seria apenas sua. Suas escolhas seriam feitas por ela e para ela. Nunca mais aceitaria viver daquela forma.

Chega de mentiras, pensou.

 

 

 

 

Thoughts

  • Rui_Salgueiro

    A Vivi sabe quem a Maraíra era antes de chegar ao bangalô?

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  • NunoParreira

    A louça lavada e guardada no meio da roupa espalhada passou-me ao lado da primeira vez. Alguém anda a cuidar daquela casa pela metade, e a Vivi se calhar faz mais do que deixar o caldo.

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  • LuizaFontes

    Minha mãe não comprou a Maraíra quando eu li pra ela: disse que promessa feita saindo de álcool e remédio não dura uma semana. Eu fiquei do lado da Maraíra, que acordou lúcida depois de semanas e já sabe o que não aceita mais. A gente discutiu até a hora do chá.

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  • HoracioMelo

    Não me convence que foram o vento e os pássaros a trazê-la de volta. Quem a trouxe foi a colher de caldo, que é coisa de estômago, e a paisagem só lá estava a fazer figura.

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  • Ovid

    A Maraíra passa dias vivendo do caldo da Vivi, nem sabe o nome dela e já planeja tirar satisfações. É o retrato de alguém que passou a vida sendo servida. Imagino que a outra vida que ela promete no fim começa no dia em que aprender esse nome, e fico curioso para ver como essa conversa na cozinha vai ser.

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  • anogueira52

    Voltei atrás na parte da Júlia. Ela leva a Maraíra pra morrer sozinha logo no bangalô que a Maraíra construiu, num dos melhores projetos dela. Isso é crueldade de quem conhece a pessoa por dentro. Aposto que essa Júlia está no centro das mentiras que ela quer largar.

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