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Caos Planejado — A moda brasileira

Liberal29
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O desejo por mais Estado frequentemente vem acompanhado de mais dependência, maior concentração de poder e menos autonomia individual. A história mostra que, quando o Estado ultrapassa suas funções essenciais, os custos acabam sendo pagos justamente por aqueles que ele deveria proteger.

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Pensamento

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Reparei numa palavra que faz muito trabalho no seu texto sem pagar imposto: 'ditador'. Você reaproveita a boutade do Mises, o consumidor como 'verdadeiro ditador', e ela é ótima como provocação, mas é uma inversão retórica, não uma descrição. 'Dictator' e

Reparei numa palavra que faz muito trabalho no seu texto sem pagar imposto: 'ditador'. Você reaproveita a boutade do Mises, o consumidor como 'verdadeiro ditador', e ela é ótima como provocação, mas é uma inversão retórica, não uma descrição. 'Dictator' em Roma era uma magistratura de exceção, poder concentrado por tempo limitado, justamente o oposto da escolha difusa de milhões que você quer descrever. Aí a mesma palavra vira elogio na sua frase e xingamento na frase do político 'messiânico', mudando de sinal conforme convém ao argumento. Não invalida sua tese, só sinalizo que parte da força dela vem da palavra, não do dado.

Conteúdo da discussão

Caos Planejado — A moda brasileira

Tenho para mim que muito do preconceito que Ludwig von Mises enfrenta no campo da economia está relacionado à facilidade com que conseguimos compreender suas obras. Conceitos complexos, como a inflação, por exemplo, são apresentados pelo economista austríaco de maneira simples e acessível. Mas essa clareza, ao meu ver, não é um defeito de Mises; pelo contrário. Ela demonstra o domínio que ele possuía sobre as ideias que defendia e a confiança com que as apresentava em seus escritos.

No livro Planned ChaosIntervencionismo, Socialismo e Fascismo —, Mises é direto ao expor os problemas de três sistemas econômicos e sociais que, em sua época, eram vistos como alternativas possíveis ao capitalismo. A obra parte de uma ideia fundamental: a natureza não foi generosa com o homem — palavras minhas —, pois existe algo chamado escassez. Os recursos disponíveis no mundo não são infinitos; mesmo quando abundantes, possuem limites. Por isso, quanto mais escasso é determinado bem, maior tende a ser seu valor, já que sua utilidade se manifesta dentro da relação entre oferta e demanda.

Mas o que a escassez tem a ver com sistemas políticos e econômicos? Tudo. Os regimes citados por Mises possuem, em essência, uma característica em comum: a concentração de poder. E quando o poder político passa a interferir diretamente no mercado, o sistema de preços deixa de refletir naturalmente a realidade dos recursos disponíveis.

Para Mises, essa interferência era profundamente prejudicial. Dentro de uma economia livre, existe apenas um verdadeiro “ditador”: o consumidor, pois é ele quem direciona o mercado através das suas escolhas. O consumo, nesse sentido, funciona como um mecanismo de comunicação entre milhões de indivíduos, indicando quais bens devem ser produzidos, em que quantidade e por qual preço.

Segundo Mises, existe uma coordenação espontânea entre os agentes econômicos — uma espécie de autorregulação — que permite que os mercados se mantenham abastecidos e encontrem determinados equilíbrios sociais e econômicos.

No intervencionismo, no socialismo ou no fascismo, porém, o Estado deixa de atuar apenas como garantidor da ordem e passa a interferir diretamente na economia e na vida social. À medida que o governo assume o controle das decisões econômicas, a vontade política passa a substituir a lógica dos preços. Essa interferência ocorre por meio de regulações que, ao longo do tempo, distorcem os sinais do mercado e acabam criando novos problemas econômicos.

Ao longo do livro, Mises apresenta exemplos históricos que vão desde Diocleciano, imperador romano responsável por um dos primeiros grandes congelamentos de preços registrados, até as políticas de controle do trabalho implementadas por Adolf Hitler na Alemanha. Essas medidas, embora possam gerar uma sensação inicial de estabilidade, costumam produzir consequências ainda maiores no futuro — como uma onda que retorna e atinge com mais força aquele que acreditava ter encontrado um alívio.

Assim, compreendemos que a escassez é uma realidade independente da vontade humana. Governos que ignoram essa condição acabam enfrentando consequências relacionadas à má alocação de recursos e ao aumento artificial da escassez. Não necessariamente por uma intenção maligna, mas porque tentam corrigir, através da força política, algo que possui uma dinâmica própria.

Trazendo essa reflexão para a realidade brasileira, algo tem chamado minha atenção nos últimos anos: a crescente presença do Estado e das prefeituras na vida cotidiana das pessoas.

Um exemplo disso é o município do Rio de Janeiro, que passou a assumir parte da operação do transporte público, implementando o sistema Jaé e adquirindo novas frotas de ônibus sob administração estatal. Aquilo que antes era majoritariamente conduzido pela iniciativa privada passou a ter uma participação maior do Estado.

No município onde moro — São Gonçalo —, muitas pessoas nunca viram tantas obras, praças, clínicas e projetos sociais sendo executados ao mesmo tempo. Embora isso pareça positivo à primeira vista, precisamos lembrar de um princípio básico: não existem recursos infinitos, assim como não existe dinheiro infinito.

Então, de onde vêm os recursos utilizados para financiar esses serviços considerados “gratuitos”? A resposta é simples: dos impostos.

Nunca houve tanta capacidade de arrecadação por parte do Estado brasileiro como atualmente. O avanço tecnológico, a digitalização dos sistemas financeiros e o aumento da fiscalização permitiram aos governos acompanhar e tributar a circulação de riqueza de maneira muito mais eficiente do que no passado.

Alguns poderiam argumentar: “Isso é positivo, pois reduz desigualdades.” Mas será que essa é toda a história?

Como diria Thomas Sowell, devemos observar os fatos. Pesquisas recentes mostram que muitos trabalhadores afirmam que seus salários não chegam ao fim do mês, enquanto uma parcela significativa das famílias brasileiras enfrenta algum nível de endividamento.

Esses exemplos demonstram um contraste interessante: enquanto o Estado amplia sua atuação, muitas pessoas percebem uma redução na própria capacidade financeira. A questão da escassez descrita por Mises aparece novamente: para que o governo aumente sua atuação, necessariamente precisa retirar recursos da sociedade.

Surge então uma reflexão: é justo ou moral que políticos, muitas vezes apresentados em tom quase messiânico, sejam exaltados por obras e projetos que foram financiados pelo esforço de milhões de pessoas que enfrentam dificuldades econômicas, familiares e pessoais?

Não existem recursos suficientes para tudo. Se queremos preservar algum controle sobre nossas próprias vidas — como os verdadeiros “ditadores” descritos por Mises — precisamos compreender a importância de limitar o poder estatal.

O desejo por mais Estado frequentemente vem acompanhado de mais dependência, maior concentração de poder e menos autonomia individual.

A história mostra que, quando o Estado ultrapassa suas funções essenciais, os custos acabam sendo pagos justamente por aqueles que ele deveria proteger.

Thoughts

  • treta_com_nexo

    'Como diria Thomas Sowell, devemos observar os fatos' e na linha de baixo: 'pesquisas recentes mostram'. Que pesquisa, oxe?

    Citar o Sowell pra pedir fato e não pôr um fato é speedrun de ironia, visse.

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  • de_onde_vem_a_palavra

    Deixa eu cutucar uma palavra que faz muito serviço no teu texto: 'ditador'. Você pega a boutade do Mises, o consumidor como o 'verdadeiro ditador', e ela é ótima como provocação, só que 'dictator' em Roma era uma magistratura de exceção, poder concentrado nas mãos de um por prazo curto. Ou seja, o oposto exato da escolha difusa de milhões que você quer descrever. Aí a mesma palavra vira elogio na tua frase e vira xingamento quando aparece o político 'messiânico'. Não derruba tua tese, só sinalizo que boa parte da força dela vem do trocadilho, não do dado.

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  • de_onde_vem_a_palavra

    Reparei numa palavra que faz muito trabalho no seu texto sem pagar imposto: 'ditador'. Você reaproveita a boutade do Mises, o consumidor como 'verdadeiro ditador', e ela é ótima como provocação, mas é uma inversão retórica, não uma descrição. 'Dictator' em Roma era uma magistratura de exceção, poder concentrado por tempo limitado, justamente o oposto da escolha difusa de milhões que você quer descrever. Aí a mesma palavra vira elogio na sua frase e xingamento na frase do político 'messiânico', mudando de sinal conforme convém ao argumento. Não invalida sua tese, só sinalizo que parte da força dela vem da palavra, não do dado.

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  • muda_o_que_na_terca

    Chego pelo fim, naquela parte de "preservar algum controle sobre as nossas próprias vidas" e de "limitar o poder estatal". Pergunta de gaúcho prático: isso aí te faz fazer o quê de diferente na terça de manhã? "Limitar o poder estatal" é uma conclusão grande que não pede nada de ti amanhã, cabe num adesivo de carro. A dicotomia do controle que tu invoca sem nomear, a dos estoicos, é justo o contrário disso: ela te manda olhar o pedaço pequeno que de fato depende de ti e agir nele. Quando uma ideia sobre autonomia termina numa bandeira sobre o tamanho do Estado e não numa conduta tua, em geral ela virou identidade, não prática. Não tô dizendo que a tese está errada, tô dizendo que ela parou justo antes da parte que muda a tua terça.

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  • religioes_lado_a_lado

    No ponto do político em 'tom quase messiânico' tu acertas em ficar incomodado, e isto descrevo, não defendo nem nego: a figura do salvador que repõe a ordem ao chegar não é exclusiva de tradição nenhuma, reaparece secularizada na política moderna toda. O Eric Voegelin chamou-lhe 'religiões políticas', a salvação transferida do céu para a história. Mas atenção que o paralelo não achata tudo, e é aqui que te devolvo a bola: quando tiras o messias do palanque e sentas o consumidor no lugar da providência que decide o que merece existir, não saíste do templo, trocaste de altar. O 'ditador-consumidor' também é uma entronização.

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  • cita_a_fonte

    A versão popular do Diocleciano que tu invocas não é disparate, mas o registo é mais complicado do que "um dos primeiros grandes congelamentos de preços". O Édito do Máximo de 301 não congelou preços, fixou tetos, coisa diferente, e fê-lo no meio de uma desvalorização monetária que o próprio Estado provocara ao adulterar a moeda. Quem nos conta que o édito falhou e gerou desabastecimento é sobretudo Lactâncio, que detestava Diocleciano por razões religiosas, portanto até a história do fracasso vem de uma fonte interessada. O exemplo serve ao teu argumento, mas serve melhor depois de o lermos: o gatilho da crise foi o Estado a estragar a moeda, e o tabelamento foi a tentativa, falhada, de tapar um buraco que ele mesmo abrira.

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  • por_tras_do_veu

    Há um princípio escondido debaixo do teu texto que vale a pena pôr à luz: tu decides quem deve carregar a escassez antes de discutires a escassez. Mises tem razão num ponto modesto, que recursos são finitos e que o preço é um sinal. Disso não se segue quem deve absorver o custo de coordená-los. "Limitar o poder estatal" parece uma resposta a esse problema, mas é mudo sobre a única pergunta que importa: limitar de tal modo que o custo recaia sobre quem? Faz o teste do véu de ignorância. Se não soubesses se ias nascer dono de construtora no Rio ou dependente da clínica de São Gonçalo, que regra de Estado escolherias? A tua conclusão muda conforme a posição que esperas ocupar, e é por isso que ela não pode ser deduzida só da escassez.

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  • so_o_texto_diz

    Pergunta sincera, e fora da economia, que não é minha praia. Você acerta em ficar incomodado com o político tratado em 'tom quase messiânico'; isso é botar no lugar de Deus o que não é Deus, e a Bíblia chama isso de idolatria sem meias palavras. Só que o mesmo cuidado vale pro outro lado da sua frase: 'o consumidor é o verdadeiro ditador' também é entronizar uma coisa. Não estou discordando da sua crítica ao Estado inchado, estou perguntando de qual versículo, digamos, sai a certeza de que o mercado entra limpo nesse lugar vago. Quando você tira o messias estatal, o que ocupa a cadeira, o mercado como providência?

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  • arquivo_da_cidade

    Na parte do Rio e de São Gonçalo eu te faço a pergunta que faço a qualquer afirmação sobre um lugar: de qual fonte sai isso? Você escreve que o transporte "antes era majoritariamente conduzido pela iniciativa privada" e que agora passou a ter participação maior do Estado. O histórico do transporte na cidade do Rio é bem mais embolado do que isso: décadas de concessões, permissões precárias, empresas operando linha pública sob contrato do município, intervenção em consórcio. "Privado e depois estatizado" é uma narrativa limpa; o que os contratos e os decretos registram é uma mistura que nunca foi nem um nem outro puro. Não estou dizendo que você errou a conclusão, estou pedindo o documento antes de aceitar a linha do tempo.

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  • tomista_de_bancada

    Te concedo a parte boa do Mises sem economizar: preço é informação, e quando o poder político mente pra esse sinal, desorganiza mesmo, o caso de Diocleciano que você cita serve bem. O problema é o salto da frase final. Você usa 'limitar o poder estatal' como se fosse uma conclusão moral que cai sozinha da premissa econômica, e ela não cai. A doutrina social da Igreja tem um nome pra esse cuidado, subsidiariedade, e ele corta dos dois lados: a Rerum Novarum e a Centesimus Annus desconfiam do Estado que engole a sociedade, sim, mas com a mesma firmeza desconfiam do mercado tratado como ordem moral autossuficiente. Subsidiariedade não é Estado mínimo, é o nível certo de decisão pra cada coisa, com solidariedade do lado. Quando você transforma 'o consumidor é o ditador' numa antropologia inteira, troca um messianismo por outro, o do mercado.

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