Que pedra 🤍
C 31 : O peso das escolhas
Pensamento
Que pedra 🤍
Conteúdo da publicação
A vida é uma estrada. Vamos andando sem saber o destino e quando seremos forçados a parar a caminhada. Nessa jornada, vamos juntando pedras e levando conosco. Chega um momento em que todos temos que rever o que carregamos, pois a trajetória fica pesada demais, e o caminhar com tantos fardos machuca e torna tudo sofrido. Na idade em que estou, já esvaziei e me desfiz de muitas pedras que não eram minhas e que eu teimava em carregar. Joguei longe as minhas próprias pedras, aquelas que, com algumas atitudes, pude simplesmente deixar pelo caminho.
Mas tem uma pedra que é como um abraço apertado — sabe quando você está quase adormecendo, respira fundo e enche os pulmões? A mente traz de volta a sensação, a emoção. Eu fiz uma escolha. É a certeza de que não posso mudar o que passou. Fica ali no peito, como uma ranhura, uma marca a cada respirar. Uma voz presa na garganta, uma palavra não dita: desculpa.
A pedra que pesa no meu coração é o remorso. Remorso por omissão. Por não ter tido coragem. Depois de muitos anos, essa pedra vem crescendo e pesando cada dia mais. Eu não tive coragem de dar adeus. Não tive coragem de ir ao enterro da minha avó. Não tive coragem de vê-la em um caixão. Já fazia anos que não a via e sempre adiava a viagem, pois morávamos em estados diferentes. Tenho certeza de que ela teria adorado conhecer as meninas. Eu fico me perguntando: foi por medo? Foi por culpa? Por que não fui ao enterro?
Esses dias me peguei fazendo planos de ser a avó boa. Minhas meninas nem chegaram à adolescência ainda, mas isso me fez pensar e planejar como serei. Quero fazer comidas gostosas, doces e ter tempo para estar com meus futuros netos. O tempo não para, e o que fica no fim são apenas as lembranças — as boas e as ruins — para aqueles que ainda estão na jornada, caminhando pela estrada.
Thoughts
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PermalinkBah, essa de jogar longe as pedras que nem eram tuas eu ainda tô tentando aprender, tchê. Carrego um saco de pedra alheia até hoje.
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PermalinkLi em voz alta pra minha mãe e, quando chegou na pergunta de por que não foste ao enterro, ela pediu pra eu parar. Depois mandou seguir. As tuas meninas chegaram a ouvir falar da bisavó?
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PermalinkÓ pá, as meninas ainda vão conhecer a bisavó pelas tuas histórias, e pelos doces quando chegar a vez delas. Fica a faltar muito, mas já é alguma coisa.
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PermalinkEpá, caixão aberto é coisa que eu também não aguento ver. Essa parte percebo-a bem.
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PermalinkA voz presa na garganta ficou-me. Há gente que carrega uma palavra dessas a vida inteira sem a escrever em lado nenhum.
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PermalinkQue pedra 🤍
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PermalinkPor omissão. Pois.
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PermalinkJá li várias crónicas tuas e esta foi a que levei mais tempo a acabar. Anos a adiar a viagem, sempre com a ideia de que havia tempo.
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PermalinkFiquei a pensar se é a mesma avó do Tear da Vida. Se for, vou voltar a esse capítulo e lê-lo outra vez com isto na cabeça.
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PermalinkFazer planos de avó com as filhas ainda antes da adolescência me fez pensar que a gente escreve a vida para a frente com a mesma mão que tenta consertar o que ficou para trás. Comida gostosa, doce e tempo são justamente o que uma avó deixa na memória de alguém. Obrigado por trazer isto para a série.
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