Séries Crônicas
Mais uma tarde na porta da escola, esperando o horário de saída das meninas. O sinal toca. E lá vem a mais velha, nitidamente chateada, com passos curtos como se chutasse uma bola imaginária. Logo atrás vem a outra, correndo, arrastando uma mochila de rodinhas e desviando dos alunos como se estivesse em uma corrida e quisesse chegar em primeiro.
Colocamos as duas no carro e ajustamos os cintos de segurança. Embarco no banco do carona e meu marido assume o volante. Vamos em direção à nossa casa.
— Como foi o seu dia? — pergunto tranquilamente, me dirigindo à mais velha.
— Horrível — responde ela, resmungando com sinceridade. — O pior dia de todos.
— Mas por quê? — questiono.
A outra, a caçula, está no banco de trás cantando:
— Bochecha, bochecha, bochecha...
— Eu odeio educação física — fala a minha filha mais velha.
— Por quê? — ainda questiono.
— Porque eu sou lenta e sempre me queimam na queimada. Pior dia de todos, odeio educação física! — diz ela de forma veemente, cruzando os braços no peito, muito chateada.
Tento argumentar:
— Mas, minha filha, você só precisa ser mais rápida, e isso você aprende com a prática.
Ela dá de ombros. Viro-me para a outra:
— E como foi o seu dia?
— Foi ótimo! — ela responde prontamente. — Vou casar com o Lucas Rosa e com o Thomas.
Surpresa, pergunto:
— Mas por que você quer casar com os seus amigos?
— Para eles me obedecerem — afirma ela. — Eles nunca me obedecem.
Eu, confusa, pergunto:
— Mas você quer casar com o seus amigos só para eles te obedecerem? De onde você tirou isso?
A mais velha, que até agora acompanhava calada, entra na conversa:
— Ué, o papai te obedece.
Olho para o meu marido, que está dirigindo e segurando o riso. Tento me defender:
— Não mando no pai de vocês, a gente conversa.
— Ele sempre faz o que você quer — rebate a mais velha.
E a mais nova complementa:
— Por isso quero casar com o Lucas Rosa e com o Thomas.