Série Crônicas
Aquela sensação de quem está se recuperando de um resfriado e com a casa parecendo abandonada, porque tudo está fora do lugar ou jogado no chão. Às vezes, eu me culpo por não ser organizada. Nenhum de nós dois — marido e esposa — é, e estamos construindo personalidades desorganizadas.
Na sala, há cinco quebra-cabeças montados no chão — três em cima da passadeira e outros dois na cerâmica. Duas mochilas cheias de brinquedos, dois pares de patins (sim, elas andam de patins dentro de casa), um conjunto de moletom jogado no chão, sapatos e crocs espalhados, papel picado, um painel do espaço e outro da Luna (ambos adquiridos para aniversários e que depois passaram a integrar o acervo de painéis largados pela casa). O escritório está um caos que não me atrevo a detalhar, pois seriam três páginas catalogando apenas os brinquedos espalhados pelo chão, tamanha a desordem. A máquina de lavar está trabalhando, a secadora também, e a lava-louças está a todo vapor, enquanto eu estou no sofá dobrando roupas.
E, do nada, um silêncio. Olho em volta e... cadê as meninas? Quem é mãe sabe: silêncio com crianças em casa é preocupante. Subo as escadas silenciosamente. Escuto poc, poc, poc: estão no meu quarto, usando os meus saltos. Paro e fico ouvindo a conversa.
— Olha, BebÉ, eu... — murmura a mais nova (poc, poc, poc). — O que é isso? — pergunta, após achar absorventes na cômoda.
— Não mexe, são as fraldinhas da mamãe — adverte a mais velha.
— A mamãe usa fraldinha, mas eu não uso mais.
— A mamãe me falou que usa... mas só em dias difíceis — retruca a mais velha.
— O que é um "dia difícil"?
— Não sei, deve ser quando ela não vê os doramas.
— A gente vai usar essas fraldinhas? — indaga a menor, pegando e abrindo um absorvente nas mãozinhas.
— Não mexe, já falei... Só idosa como a mamãe usa.
Entro e digo:
— Vamos as duas para baixo! O que a mamãe falou? Vocês não podem ficar aqui em cima sem supervisão.
Elas tiram os sapatos e descem correndo para brincar.
Há cerca de dois anos, minha filha mais velha me perguntou sobre o absorvente que viu nesta mesma cômoda. Não dei muitos detalhes e disse que era uma "fraldinha" que a mamãe usa em dias difíceis; ela não teve mais curiosidade e o assunto se encerrou. E foi exatamente essa informação que ela repassou para a menor. Podem me julgar, mas não vejo por que explicar ciclo menstrual e ovulação para crianças tão pequenas. Quero que a preocupação delas na infância seja somente com os brinquedos ou se vai ter sol para andar de bicicleta amanhã. Deixo minhas filhas na inocência... só não esperava ouvir sobre os doramas e constatar que, na visão delas, eu já sou uma idosa.