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C 0042: ESCOLA CONSERVADORA, “VOU BATER...”

BELADIA
Pública 0 conversa 2 pensamentos 17 votos positivos 0 voto negativo 1 série

É final de semana. As meninas estão brincando no tapete do escritório, e eu estou escrevendo no computador. Nós optamos por matricular as meninas em uma escola na cidade vizinha por entendermos que…

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 É final de semana. As meninas estão brincando no tapete do escritório, e eu estou escrevendo no computador. Nós optamos por matricular as meninas em uma escola na cidade vizinha por entendermos que o ambiente seria o mais adequado para elas. Como o colégio fica no extremo oposto do município, de segunda a sexta, tenho que atravessar ambas as cidades para levá-las. É uma instituição conservadora, ligada a uma igreja protestante, onde o ensino inclui aulas socioemocionais e de religião. As duas têm Bíblias e fazem estudos bíblicos. O atrativo não é a ideia de que aquelas famílias sejam superiores, mas sim o fato de serem pessoas empenhadas em ensinar o bom convívio e a boa educação. São famílias que ensinam as crianças a pedir licença antes de entrar, desculpas quando erram, "por favor" para pedir e "obrigada" para agradecer. É o básico, sim, mas que não se vê muito por aí em outras escolas.

Enquanto estou escrevendo, a minha filha de quatro anos, que está brincando no tapete com blocos de montar, para e me diz:

— Mãe, você precisa conversar com a professora do Amado Coração.

— Por quê? — pergunto.

— Ela tem passado coisas muito assustadoras para mim.

— O que ela tem passado? — pergunto novamente.

— Ela passou um desenho da morte de Jesus e foi muito assustador para mim.

— E como era esse desenho?

Ela começa a contar:

— Ele fica quietinho, e batem nele. Depois colocam ele em uma cruz, ele não faz nada, e depois eles furam as mãos dele e ele morre.

Tento argumentar:

— Mas isso é porque Ele é amor. E depois, Ele ressuscitou.

— Mas é muito assustador para mim. Eu fiquei assustada e fiquei pensando antes de dormir.

Eu paro por um momento, ainda olhando para a tela do computador, e digo:

— Tá bom, vou falar com ela.

— Se você não falar, eu vou ter que bater naquela putinha — afirma ela, voltando aos blocos de montar.

Meus dedos param sobre o teclado. O silêncio no escritório é preenchido apenas pelo barulho plástico das peças se encaixando e da minha outra filha, que brinca ali ao lado, alheia ao meu diálogo com a irmã mais nova. Viro-me devagar para ela, ainda processando o choque da frase.

— Você pode repetir para a mãe a frase que falou?

Ela, montando os blocos, diz:

— "Eu vou bater naquela putinha". Essa?

Eu olho para ela, que continua tentando montar o brinquedo sem me encarar.

— Essa frase, você ouviu na escola? Dos seus amigos?

— Não — ela diz.

— Foi alguma professora que falou?

— Não.

— Foram as vizinhas que vêm brincar aqui que falaram?

— Não.

Mais intrigada, pergunto:

— Você ouviu essa frase naqueles vídeos da baratinha no celular do seu pai?

— Não.

— A sua irmã falou isso?

— Não. — Ela finalmente levanta os olhos para mim e diz com naturalidade: — Eu inventei da minha cabeça.

— Minha filha, essa palavra, "putinha", é uma palavra feia. Não podemos falar isso nem nos referir às pessoas assim, não batemos nas pessoas. A mãe não quer que você fale isso.

Lá fui eu escrever para a professora na agenda, perguntando se há algum colega se referindo dessa forma aos outros. Continuo sem acreditar que a minha filha tenha inventado a palavra sem ter ouvido de ninguém, porque aqui em casa ela definitivamente não ouviu. Restou a mim repreender; afinal, educar é mesmo a parte mais difícil de ser mãe.

 

Thoughts

  • Ovid

    Ela levantando os olhos pela primeira vez só pra dizer que inventou da cabeça dela me fez pensar que ela entendeu o peso da palavra muito antes de saber o que significa. Aposto que a agenda volta com uma resposta bem cuidadosa da professora, e que essa frase ainda vai virar história de família contada em todo aniversário dela :)

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  • Marlene

    Olha lá, a miúda diz aquilo e volta aos blocos como se nada fosse. Ri-me alto aqui sozinha.

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