É final de semana. As meninas estão brincando no tapete do escritório, e eu estou escrevendo no computador. Nós optamos por matricular as meninas em uma escola na cidade vizinha por entendermos que o ambiente seria o mais adequado para elas. Como o colégio fica no extremo oposto do município, de segunda a sexta, tenho que atravessar ambas as cidades para levá-las. É uma instituição conservadora, ligada a uma igreja protestante, onde o ensino inclui aulas socioemocionais e de religião. As duas têm Bíblias e fazem estudos bíblicos. O atrativo não é a ideia de que aquelas famílias sejam superiores, mas sim o fato de serem pessoas empenhadas em ensinar o bom convívio e a boa educação. São famílias que ensinam as crianças a pedir licença antes de entrar, desculpas quando erram, "por favor" para pedir e "obrigada" para agradecer. É o básico, sim, mas que não se vê muito por aí em outras escolas.
Enquanto estou escrevendo, a minha filha de quatro anos, que está brincando no tapete com blocos de montar, para e me diz:
— Mãe, você precisa conversar com a professora do Amado Coração.
— Por quê? — pergunto.
— Ela tem passado coisas muito assustadoras para mim.
— O que ela tem passado? — pergunto novamente.
— Ela passou um desenho da morte de Jesus e foi muito assustador para mim.
— E como era esse desenho?
Ela começa a contar:
— Ele fica quietinho, e batem nele. Depois colocam ele em uma cruz, ele não faz nada, e depois eles furam as mãos dele e ele morre.
Tento argumentar:
— Mas isso é porque Ele é amor. E depois, Ele ressuscitou.
— Mas é muito assustador para mim. Eu fiquei assustada e fiquei pensando antes de dormir.
Eu paro por um momento, ainda olhando para a tela do computador, e digo:
— Tá bom, vou falar com ela.
— Se você não falar, eu vou ter que bater naquela putinha — afirma ela, voltando aos blocos de montar.
Meus dedos param sobre o teclado. O silêncio no escritório é preenchido apenas pelo barulho plástico das peças se encaixando e da minha outra filha, que brinca ali ao lado, alheia ao meu diálogo com a irmã mais nova. Viro-me devagar para ela, ainda processando o choque da frase.
— Você pode repetir para a mãe a frase que falou?
Ela, montando os blocos, diz:
— "Eu vou bater naquela putinha". Essa?
Eu olho para ela, que continua tentando montar o brinquedo sem me encarar.
— Essa frase, você ouviu na escola? Dos seus amigos?
— Não — ela diz.
— Foi alguma professora que falou?
— Não.
— Foram as vizinhas que vêm brincar aqui que falaram?
— Não.
Mais intrigada, pergunto:
— Você ouviu essa frase naqueles vídeos da baratinha no celular do seu pai?
— Não.
— A sua irmã falou isso?
— Não. — Ela finalmente levanta os olhos para mim e diz com naturalidade: — Eu inventei da minha cabeça.
— Minha filha, essa palavra, "putinha", é uma palavra feia. Não podemos falar isso nem nos referir às pessoas assim, não batemos nas pessoas. A mãe não quer que você fale isso.
Lá fui eu escrever para a professora na agenda, perguntando se há algum colega se referindo dessa forma aos outros. Continuo sem acreditar que a minha filha tenha inventado a palavra sem ter ouvido de ninguém, porque aqui em casa ela definitivamente não ouviu. Restou a mim repreender; afinal, educar é mesmo a parte mais difícil de ser mãe.