Série (Crônicas)
O dia foi como o esperado: tive que sair de casa duas vezes e ir a uma loja para comprar fita azul. Na primeira vez, até lembrei de comprar a fita, mas, como já tinha a ideia de fazer um escapulário de Natal, acabei comprando a fita para o escapulário.
As fitas eram para os presentes de Dia dos Professores. Fiz uma caixa personalizada com fotos das meninas e agradecimentos. Eu já passei da fase de dar canecas, chocolates e velas aromatizadas — coisas que, na verdade, nunca dei. Como tenho um marido professor, quando sugeri a ideia das canecas com as fotos das meninas, ele foi enfático: "Não, pelo amor de Deus! Nenhum professor gosta de caneca com foto de aluno. Pensa bem: se cada um da sala der uma caneca com foto, serão quinze canecas com os rostos dos alunos. Deus me livre! Velas aromáticas geralmente têm cheiros fedorentos; e, quanto aos doces, já viu no jornal quantas pessoas estão morrendo ou sendo envenenadas por comida que ganharam?".
Então, a opção deste ano foram fones de ouvido. E lá fui eu à loja duas vezes para comprar as fitas azuis para colocar nas caixas.
Escrevo isso enquanto ignoro minha filha mais nova, de quatro anos, desenhando bonecos disformes nas portas dos armários do escritório. "Já está na hora de pintar mesmo, essa reforma está na minha lista", penso, enganando o meu próprio cérebro para não me irritar ainda mais. Afinal, as primeiras horas do dia já foram caóticas: o banheiro do térreo foi alagado duas vezes pela minha caçula só nesta manhã.
Eu já havia brigado e a colocado de castigo. Em resposta, ela arrumou as roupas para ir embora. Disse que sou a pior mãe do mundo e que essa família é horrível — foram essas as palavras exatas. Quando ela gritou da porta dizendo que iria embora, eu gritei de volta, da cozinha: "Vai mesmo, a porta está aberta!". Falei com um pesar no coração, pois eu também estava nervosa. Ela voltou-se para mim, aos prantos, e disse: "Você é a pior mãe do mundo! Vai mesmo me deixar ir embora?". E foi chorar no sofá. Dramática. Acho que puxou a mim.
Antes de ir para a escola, ela já tinha escovado os dentes, mas, mesmo assim, retornou ao banheiro e esvaziou um tubo de pasta na pia, brincando. Enquanto isso, eu estava no quarto ajudando a outra a se vestir. São segundos que a deixo sozinha e já surge uma ideia mirabolante, me deixando nervosa por ter que limpar algo que ela fez sem necessidade alguma, movida apenas pela curiosidade.
Após o nosso embate, enquanto a abraçava, perguntei se ela tinha medo de mim. Ela, me olhando muito séria, disse: "Não". Eu perguntei novamente: "Do que você sente medo, então?". Ela respondeu, decidida: "De formiga". E o pavor faz sentido, pois ela tem alergia a insetos. Uma simples picada a deixa inchada, exige uma semana de antialérgicos e acaba virando uma ferida.
As doenças respiratórias, as alergias, a UTI, as terapias, as internações, as horas e horas em prontos-socorros e as várias e várias noites acordada nunca foram a parte difícil; nunca tive medo ou me senti como se estivesse fazendo algo errado. Sinceramente, o que mais desestabiliza emocionalmente é o ato de educar, porque sempre penso que estou falhando ou que está faltando alguma coisa. Isso bate forte quando tenho que repreendê-las por estarem fazendo algo errado; quando preciso corrigir com amor todos os dias, mesmo com a raiva apitando no máximo. São meninas questionando, argumentando, teimando e fazendo as próprias escolhas. Eu amo vê-las crescendo e se tornando seres que questionam e tomam as próprias decisões, mas confesso que isso me desestabiliza em dias como hoje.
Quero que elas sejam duas mulheres fortes. O problema é que criar duas meninas com personalidades fortes exige uma paciência que precisa ser reconstruída diariamente. É irônico como, no meio do caos de um banheiro alagado ou diante de portas de armário rabiscadas, o que mais preciso é aplicar a mim mesma as ferramentas que tento ensinar a elas: parar, respirar fundo e encontrar o eixo para conseguir dialogar. A teoria da regulação emocional é linda e necessária, mas a prática, no olho do furacão doméstico, é um teste constante de ‘’RESPIRA SENÃO VOCÊ PIRA’’. É nesse furacão que tenho que lembrar que eu sou a adulta aqui. Definitivamente, educar é a parte mais difícil que encontrei até agora.
O toque do WhatsApp soa: é a secretária da escola me confirmando a lista com os nomes dos professores. Ao conferir, percebo que esqueci dois. Amanhã, terei que sair para comprar mais dois fones de ouvido, fazer mais duas caixas personalizadas e as tags, que ainda nem comecei a fazer.