Série, (Crônicas)
Minha casa sempre recebe as filhas das vizinhas nos finais de semana. Quase sempre há duas ou três meninas a mais brincando com as minhas duas filhas. Elas brincam, correm, andam de patins dentro de casa, pulam no sofá. Eu preparo o lanche e, às vezes, até o almoço delas, pois costumam chegar cedo.
Pois bem, no final de semana passado, eu estava cuidando das minhas filhas enquanto elas andavam de bicicleta na rua, e uma vizinha veio conversar. Papo vai, papo vem, ela me contou, ofendida, que no dia anterior a filha havia recebido uma amiguinha, e a menina comentou que a casa da vizinha era muito bagunçada. A vizinha se justificou: "Eu trabalho a semana inteira, como vou arrumar a casa? No sábado está tudo acumulado. A mãe dessa menina fica em casa, por isso a casa dela é arrumada".
No momento, eu até concordei. Mas logo lembrei que eu também fico em casa, e a minha é toda bagunçada. Na mesma hora me senti ofendida. Meu subconsciente gritou, despertando um incômodo por algo que, até aquele segundo, nunca tinha sido um problema para mim. Mais tarde, fui perguntar às minhas filhas se alguma das meninas que frequentam nossa casa já havia dito algo parecido. Elas disseram que sim: "Elas falam que a nossa casa é muito bagunçadinha". Fiquei ofendida? Fiquei. Mas é verdade? É! Deve ser por isso que me ofendi.
Resolvi então arrumar tudo, porque, realmente, a nossa casa é bagunçada. Agora mesmo há roupas limpas no sofá que tirei da secadora e ainda não dobrei, a bolsa do marido no corredor, as mochilas das meninas no chão, lancheiras na bancada, sapatos espalhados, caixas de enfeites de Natal, caixas de linhas, uma rena perto da escada e outra perto da porta de vidro.
Decidi começar pelo mais difícil: os brinquedos espalhados. A meta era separar para doação e jogar fora os quebrados. Peguei um cavalinho inflável, indicado para crianças de até dois anos, para doar. Minha filha de quatro anos interveio:
— Não, o Bolo não! — disse ela, decidida.
— Ele é um brinquedo de bebezinho, você já cresceu! — tentei argumentar.
— Ele é família!
Olhei para o cavalinho inflável.
— Desde quando ele é família?
— Desde que eu o adotei! Ele é meu filho e tem sete anos. Você não lembra que fiz o aniversário dele essa semana? — explicou ela.
Tentei puxar pela memória e, realmente, alguns dias atrás ela havia feito uma festinha de aniversário para o cavalinho. Respirei fundo e decretei:
— Ele vai para doação.
— Não, ele é meu filho, ele é família e a família fica junta! Foi você quem disse isso!
Fiquei sem argumentos e comecei a me irritar. Peguei, então, uma boneca com o cabelo cortado e o rosto todo sujo de canetinha vermelha e preta.
— Essa vai para o saco de lixo. Olha que boneca feia, toda rabiscada de canetinha.
Ela arrancou a boneca da minha mão rapidamente e, falando diretamente com o brinquedo, consolou:
— É maquiagem, você não está feia, você está linda!
— Sério que essa boneca rabiscada está bonita? Você até cortou o cabelo dela! Ela está horrível — retruquei.
— É maquiagem, ela foi no cabeleleeiro, está linda e também é minha filha! A família fica junta, foi você quem disse!
— Tá bom. E quem aqui não é seu filho?
— Todos são meus filhos! Eu tenho um coração grande, alguns nasceram da minha barriga e outros eu adotei. Todos são meus filhos.
— Mãe! — chama a minha outra filha. — A professora disse ontem o que a minha sala vai ganhar de presente. Quer saber?
— Quero, amor, fala para a mãe!
— A gente vai ganhar uma festinha a fantasia.
Respiro fundo, desanimada. Isso quer dizer que terei que comprar uma fantasia até o mês que vem para ela. A professora propôs um jogo: todos os dias ela coloca uma bola em um recipiente se os alunos se comportam bem. A recompensa final era justamente essa festa.
O marido, que estava em outro cômodo ouvindo tudo, resmunga:
— Por que essa escola inventa essas coisas só para dar trabalho para os pais?
— Que legal, meu amor. Já sabe com qual fantasia quer ir? — pergunto, tentando encorajá-la.
— Sim. De Fadinha Vermelha.
Era a personagem dos livros que escrevi para ela quando era menorzinha.
— Tá bom, a mãe vai ver se consegue a fantasia para você.
Tentei continuar argumentando com a minha caçula sobre a doação dos brinquedos, arrumar a casa, mas ela começou a chorar e se jogou no chão. O marido apareceu na porta e apenas disse:
— Por que você está ofendida com a bagunça? A gente vivia tão bem, até você conversar com a vizinha. Deixa isso para depois.
A casa continuou bagunçada.