O que se pode fazer, quando não se pode fazer nada? Eu me faço essa pergunta há um tempo — desde que, bom, desde que nasci. Acho que fui batizada sob a lucidez da falsa escolha e que não mudamos muito os nossos destinos.
Eu não me encontro nesse momento; não me vejo em nada, não me sinto em nada. Nada projeta, nada floresce. Apenas torço para que, quando eu for esclarecida, com vida ainda, haja o que comemorar entre os ossos de vivências. Quando não sinto a mim mesma, é como se apenas tivesse a lembrança de como deveria ter sido. Eu me peguei com vergonha de um "eu" futuro por uma ação do passado que nem mesmo aconteceu fora da minha cabeça; pensei em como ficaria magoada e arrependida de me sentir desse jeito, aqui e agora. Só quero saber como cheguei a um nível tão grande de autossabotagem que não consigo sentir nem raiva, nem culpa e nem arrependimento por um "eu" que não existe. É como se eu quisesse me proteger de alguma forma, mas não tenho como saber se é uma forma legítima de proteção ou apenas um jeito novo de me machucar. Fiz de minha mente um palácio que se encontra sempre cercado de invasores.
Todo esse extenso monólogo é apenas para simplificar a resposta da primeira pergunta, e a resposta é: eu não sei. Não faço a mínima ideia do que fazer. Em todos esses anos desde que nasci, não pude montar meu guia prático de como ser eu, de como viver como eu. Amarrada e quase sufocada. Eu poderia fazer um belo monólogo de resistência e resiliência, porque acredito que, nessa época maldita, é o que mais vende: como vencer na vida. Estamos todos mergulhados nesse falso positivismo que nos mata todos os dias com doses do que achamos ser uma vida digna. A minha história não é de superação, muito menos de aceitação. Sabe quais são os princípios de uma história de tragédia? Acontecimentos incontroláveis; coisas que precisam acontecer, não importa o que, com quem e para quem. Você observa, sente e, no final de tudo, avalia, mas em nada do que há ali houve real interferência.
Se fosse uma história de superação, eu diria como a minha vida poderia estar pior, mas, acredite, eu nunca falo isso. Tudo o que construí se baseia factivelmente no meu ceticismo, mas não ousaria mexer com a santa do "pior não pode ficar". Isso sempre acontece quando você está sob um pequeno guarda-chuva em uma puta tempestade, quase completamente molhado, e diz: "Pior não pode ficar". Vem uma rajada forte de vento de todos os lados e o seu guarda-chuva quebra em meio a céu aberto. O falso positivismo diria: "Você não é feito de açúcar, é só uma chuva". Mas sua mente cansada responderia: "Eu trabalhei o dia inteiro, peguei transporte público e perdi o único guarda-chuva que tinha". O realista diria: "Pelo menos, com a raiva que você sente agora, quando chegar em casa, pela força e energia do ódio, irá colocar essa roupa molhada para lavar junto com as outras que você enrolou para lavar". Dar utilidade ao sofrimento às vezes parece estar banalizando-o, mas você não se sentiria melhor em não lavar a roupa toda do que chegar em casa e simplesmente ir deitar derrotado, para acordar mais cedo só para lavar a porcaria da roupa? Mas o realismo em sua forma mais pura também diria: "E daí que você não irá lavar a merda da roupa hoje? E daí que hoje você foi derrotista?". Sinta o que sinta, mas verdadeiramente sinta, porque você pôde e pode sentir.
Estamos tão ocupados com a binaridade do mundo que não percebemos os tons de cinza que a vida pode ter. Não sei se há o que fazer quando não se pode fazer nada. Você segue o fluxo com a certeza de que sempre há uma margem e uma saída. E, como eu agora, pode ser que a saída não faça o mínimo de sentido — e talvez nunca faça —, mas, diante do absurdo, há alguma alternativa a não ser observar? Sinto muito do peso da vida, do julgamento e do vexame desabar dos meus ombros quando percebo que tudo isso que arduamente empilho acabará em morte. E não, isso não é uma mera idealização ou a droga do suicídio; é apenas um sincero "mas cara, e daí?". Não tem como. Como controlar o tornado para que ele não destrua sua casa? Não há como prevenir, mas, depois que ele passou, qual o sentido de deixar a casa quebrada, mesmo com a certeza de que eventualmente surgirão outros tornados? De comprar um novo guarda-chuva? De lavar ou não a roupa?
Não somos donos daquilo que não conseguimos controlar. Nada nos pertence enquanto passamos, em um segundo, na forma de caos consciente que é a vida. Há astros colidindo, enormes bolas de gás explodindo, galáxias inteiras sendo engolidas por buracos negros. E, entre todas essas probabilidades, você é um ser que surgiu em meio a infinitas chances de não ter surgido. Faça como o universo: observe a si mesmo e, no final, não conte se valeu ou não a pena. Há coisas que são eternos mistérios, como a possibilidade entre você e todo o resto.
S.E