Série (crônicas)
Meu marido saiu do trabalho e passou em casa para me pegar, e fomos buscar as meninas na escola. Elas vieram correndo. A mais nova estava com a calça levantada até o joelho e toda suja; o uniforme azul estava levemente amarronzado.
Coloquei-a na cadeirinha e, toda feliz, ela levantou mais um pouco a calça para me mostrar:
— Olha, mãe, um Band-Aid que o Lucas Rosa me deu! É da Luna! — disse, apontando para o curativo no joelho.
— O Lucas Rosa te deu um Band-Aid?
— É! Ontem eu mostrei para ele o meu arranhão no joelho e hoje ele trouxe um Band-Aid para mim.
Ajusto o cinto dela e entro no carro.
— Nossa, minha filha, ele é muito atencioso com você. Essa semana ele já te deu uma tiara de unicórnio, um adesivo e, agora, um Band-Aid.
Ela me corrige, na mesma hora:
— E me deu a metade do lanche dele também... Pai, você esqueceu o meu lanche!
— O seu pai esqueceu o lanche? A mãe viu ele fazendo!
Meu marido, que até agora estava quieto, se justifica:
— Devo ter deixado na bancada da cozinha... Esqueci de colocar na bolsa.
— Minha filha, você tem o cartão que fica na agenda. É para você usar e comprar quando a mãe ou o pai esquecerem o lanche. O que você comeu então?
— A professora me deu as rosquinhas dela.
Nisso, a minha filha mais velha entra na conversa:
— Mãe, eu chorei hoje.
— Por que? — pergunto.
— Porque a sala estava muito barulhenta — ela responde.
Faço uma anotação mental imediata: comprar presente de final de ano para o Lucas Rosa, falar com a professora sobre o cartão e verificar se o abafador de ruídos está na bolsa. Já perdi a conta de quantas vezes levamos as meninas para escola e deixamos a bolsa na calçada ou o trabalhos que precisavam ser entregue e ficaram no carro, a lancheira esquecida foram muitas.
Estávamos parados no semáforo e a mais nova já havia tirado o cinto.
— Pai, nós vamos ao supermercado? — pergunta ela.
— Não, já fui com a sua mãe — ele responde.
Ela começa a querer chorar e reclama:
— Mas não é para você levar a mamãe! Eu que sou a sua ajudante de compras!
— Como é que é? — ele pergunta logo.
— Eu que sou a ajudante do papai nas compras, não é a mamãe. Como eu vou fazer as minhas comprinhas se você levou a mamãe?
— Como é que é? — pergunto eu, dessa vez.
— Não leva mais a mamãe, só eu posso ir, eu sou a sua ajudante de compras.
O pai tenta segurar o riso. E eu fico sem argumentos.