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C 004 : Uma semana normal por aqui

BELADIA
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Estou aqui pensando sobre como foi a semana. Bem comum e normal; deve ser igual a todas as casas com duas meninas. A minha filha mais velha, de sete anos, anda seguindo um rigoroso cronograma de treinos em casa: todos os dias pela manhã, após o café, dá quinze voltas correndo em torno da casa e pula mais alguns minutinhos no pula-pula que fica na garagem.

Perguntei o motivo de tudo aquilo, e a resposta foi:

— É que eu sou lenta demais. Então, fiz um cronograma. Estou fazendo séries de cinco, cinco e cinco, que no total dão quinze voltas, e mais uns exercícios no pula-pula.

Insisto em perguntar o porquê de tanta cobrança, e ela rebate:

— Porque eu sou lenta na educação física, já te falei! Quero melhorar a minha corrida e ser a primeira.

À tarde, recebo uma mensagem da secretaria da escola notificando que a minha filha mais nova, de quatro anos, havia feito xixi na roupa e não havia troca reserva na mochila. Pediram para levar meias, sapato, calça e calcinha. Eram três da tarde. Arrumo uma sacola com todas as roupas, incluindo até outra jaqueta. A professora tira a roupa suja de xixi e coloca direto no bolso menor da mochila dela, que não é impermeável. Resultado: molhou tudo lá dentro. Já a minha outra filha deixa a garrafa de água aberta e molha todo o interior da bolsa dela e alguns livros.

Mais tarde, no carro, pergunto para a caçula por que ela não foi ao banheiro, e ela responde:

— Eu disse para a professora que queria ir, mas ela falou "é só um minutinho". E um minutinho, para mim, é muito, eu não aguentei.

E eu indago:

— Mas por que você fica segurando o xixi até o último momento para pedir para ir?

E ela:

— Eu não sei, só fiz. Um minutinho é muito para mim.

Resumo da ópera: em casa, tive que lavar as duas mochilas. Já a minha filha mais velha estava feliz porque fez um gol.

 Na terça-feira, elas pedem para andar de bicicleta na frente de casa. A mais velha cai e rala as mãos; a mais nova corre e arranca o tampão do dedão no asfalto. Nenhuma das duas chorou.

Na quarta-feira, a caçula estava toda feliz porque a plantinha que ela havia plantado na sala de aula nasceu, e ela estava trazendo a "filha" para casa. A mais velha também estava radiante porque foi dia de filme na aula de educação socioemocional.

A quinta-feira foi dia de reunião após a aula para os informes de rematrícula. Também foi dia de "xis-salada", que elas chamam de "xis-saladeira". Elas choraram no carro porque queriam comer lá na lanchonete, mas levamos os lanches para casa — já estava tarde e fazendo muito frio.

Na sexta-feira, fomos buscá-las na escola. Na volta, quando passávamos perto do shopping, a mais nova anunciou que queria ir ao banheiro. O detalhe é que sempre que estamos perto do shopping ela diz que quer fazer xixi lá; na maioria das vezes, ela só quer passear e inventa uma desculpa. Mas, enfim, dessa vez ela cravou que estava querendo fazer cocô:

— Não vou aguentar, vamos ao shopping!

Mas ainda havia três semáforos antes da entrada.

— Não vou aguentar! Rápido, papai!

Segundo semáforo.

— Rápido, rápido, rápido!

O pai tenta acalmá-la:

— Minha filha, a gente está no trânsito. Não posso acelerar, temos que esperar o sinal abrir.

Terceiro semáforo. Ainda no vermelho.

— A gente não precisa mais ir. Eu fiz cocô.

Eu, chocada, pergunto:

— Sério que você fez mesmo cocô?

— Fiz, não deu para segurar.

— Você está com dor de barriga? — questiono.

— Não... Mas vamos para casa, porque eu tô nojenta com cocô — responde, fazendo ânsia de vômito.

A minha outra filha, do lado, começa a ter ânsia de vômito também:

— Mãe, tá muito fedorento! Vou vomitar!

— Vou desligar o ar e abrir os vidros do carro! — eu aviso, desesperada.

Apesar de tudo, conseguimos chegar em casa sem vômitos. Para fechar com chave de ouro: ao abrir o portão, encontro minha filhote de pastor-alemão de cinco meses baixando o espírito de jardineiro e arrancando todas as plantas que eu havia plantado este ano no jardim. Levo as duas para tomar banho.

À noite, estou preparando a janta e a minha filha de sete anos dispara:

— Mãe, eu tenho três planos, qual você prefere?

— Minha filha, pode ser depois? A mãe está fazendo a janta.

A mais nova entra na história:

— Eu voto na bicicleta! Bicicleta, bicicleta, bicicleta!

E de repente:

— Mudei de ideia! Luana, Luana, Luana!

A outra repetindo sem parar:

— Mãe, mãe, mãe, mãe!

— Tá bom, tá bom! — Paro de preparar a janta, me viro para elas impaciente e digo: — Fala.

Ela, empolgada, começa:

— Meu primeiro plano: amarrar o dente em uma cordinha, amarrar a cordinha na porta e bater a porta com força. Segundo plano: amarrar uma cordinha no dente e a minha irmã andar rápido na bicicleta e puxar o dente. Terceiro plano: amarrar o dente na cordinha, amarrar a cordinha em um brinquedo da Luana (nossa filhote de pastor-alemão de cinco meses) para ela sair correndo e puxar o dente.

E, toda séria, conclui:

— Mãe, não se preocupa. Não é para fazer hoje, é para fazer amanhã, tá?

Eu tento processar todas aquelas informações, com a minha outra filha pulando e saltando de alegria, gritando "Luana!".

— Você está com o dente mole de novo? — pergunto.

Ela responde:

— Com dois!

A mais nova emenda:

— Então dá para fazer de bicicleta e com a Luana! Eu tô tão animada! — diz, pulando de alegria.

O pai, que veio ouvir a conversa, fala:

— Se for fazer isso, faz em um dia que eu não estiver em casa.

Olho para ela e respiro fundo.

— Adorei seus planos, mas é melhor esperar mais um pouco, deixar o dente ficar mais mole. Amanhã a gente conversa mais sobre os seus planos, ok? Posso terminar a janta?

Thoughts

  • brunocosta

    O pai a pedir que façam aquilo num dia em que ele não esteja em casa é o homem mais sensato desta crónica toda.

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  • Ovid

    Os três planos do dente, com a Luana puxando a cordinha no terceiro, mostram bem como a mais velha leva tudo a sério, do cronograma de corrida até a janelinha. Aposto que no fim o dente caiu sozinho, comendo alguma coisa, e ela ficou meio decepcionada de não usar nenhum plano. Obrigado por contar essa semana!

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  • anogueira52

    Fiquei rindo da de sete anos montando séries de cinco, cinco e cinco pra deixar de ser lenta na educação física. Minha neta tem a mesma idade e resolveu esse ano que ia aprender a pular corda sozinha no quintal, contando alto até errar. Criança dessa idade leva a própria melhora a sério de um jeito que a gente esquece depois de grande. Aposto que o gol daquele dia valeu mais que qualquer medalha.

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