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C0051: Final de ano, risadas e terra

BELADIA

Conteúdo da publicação

Série (Crônicas)

É dia vinte e sete de dezembro. Final de ano aqui na minha cidade, como todo mundo sabe, significa todo mundo se mudando para a casa de praia. A cidade não é litorânea, mas fica a uns vinte quilômetros do mar, então, por tradição, quase todas as famílias têm uma casinha na praia ou algum parente que os receba.

Nós vamos ficar. Não saímos muito nos finais de ano; preferimos ficar em casa e descer para a praia algumas semanas depois, quando o número de pessoas e o fluxo nas estradas já diminuíram.

— Estou pensando em comprar um pouco de terra para colocar aqui na frente de casa. Quero deixar tudo bonito para o Ano Novo — comento com meu marido, despreocupada.

— Não vem com essa história. Não é uma terrinha que precisa, iremos precisar de dois ou três caminhões de terra para colocar ali. Eu quero um final de ano tranquilo, ficar sentado em uma cadeira, sem trabalho ou preocupação. Hoje já é dia vinte e sete, e até o dia quinze de janeiro oitenta por cento das pessoas estão na praia. A maioria das lojas dá férias coletivas e fecha tudo. Não quero fazer nada antes do dia quinze.

Ele sai para ir ao mercado. Quando volta, dois caminhões de terra vermelha — que eu havia comprado assim que ele saiu — já tinham sido descarregados em frente à nossa casa. Ele estaciona o carro, vermelho de raiva.

— Não acredito que você fez isso! — ele esbraveja, saindo do carro ainda na garagem. — Onde você vai arrumar um servente na véspera de Ano Novo? Está todo mundo na praia!

Ele coloca as duas mãos no rosto, contendo a raiva.

— Eu não vou te ajudar, está me ouvindo? Não vou mover um grão dessa terra. Nós não temos nem ferramentas... nem pá, nem carrinho de mão. Que ódio, meu Deus, que ódio! — diz ele, entrando em casa e batendo a porta.

— Eu não pedi a sua ajuda! — respondo, decidida. — Vou pedir as ferramentas emprestadas para o vizinho, eu consigo fazer isso em dois dias.

Dia vinte e oito. Um vizinho havia recém-instalado uma piscina de dez metros e resolveu enchê-la e esvaziá-la. A água escorreu pela sarjeta que passa bem em frente à minha casa, exatamente onde os dois caminhões de terra vermelha foram descarregados. Agora, a terra virou lama. A enxurrada levou o barro vermelho até a frente da casa da vizinha do lado. Ou seja, agora eu tenho a frente da minha casa e a da vizinha para limpar.

À tarde, meu marido chega do trabalho e entra em casa.

— Não olha para mim. Estou com tanta raiva de você que não consigo nem te olhar.

Toda suja de barro e olhando para as minhas mãos já cheias de calos, eu apenas digo:

— A pá do vizinho quebrou.

Ele me olha, não diz nada, entra e bate a porta. A partir de amanhã, ele estará de férias e vai ficar em casa.

Dia trinta de dezembro. Meu marido faz o café e sai de casa às sete da manhã, sem dizer para onde vai. Às onze horas, ele volta. Estaciona, e tira do carro três pás e um carrinho de mão.

— Rodei a cidade inteira para encontrar uma loja aberta. Comprei uma pá nova para você devolver ao vizinho, detesto que pegue coisas emprestadas.

À tarde, estou lá, colocando a terra no carrinho de mão. Meu marido chega e começa a ajudar, mas logo avisa:

— Não fala comigo, eu ainda estou com raiva de você.

— Se for para ajudar de má vontade, nem vem. Pode voltar para dentro de casa — falo, destemida.

— A vontade que eu tenho é de te estrangular, mas não vou te deixar aqui fazendo isso sozinha. E não fala comigo! — ele retruca, irritado.

Bip bip. Um jipe para rente à calçada e o vidro desce. É o vizinho que mora duas casas depois da nossa.

— E aí, vizinho, fazendo reforma? — Ele olha para mim e solta uma gargalhada. — Mulher só dá trabalho, né? — E, voltando-se para o meu marido, completa: — Vou ao mercado comprar umas cervejas e volto para sentar aqui na minha cadeira de praia. Adoro ver gente trabalhando! — Ele dá a partida no carro, ainda gargalhando.

Meu marido olha para mim e respira fundo...

E não é que o vizinho realmente voltou com a cerveja e a cadeira de praia? E não foi só ele: vieram três vizinhos! Sentaram-se ali, bebendo e conversando, enquanto meu marido e eu trabalhávamos pesado na terra vermelha.

Sete dias se passaram e a montanha de terra ainda estava pela metade. Eu estava com as mãos cheias de calos, e ele também. Respiro fundo. Estava cansada — na verdade, exausta —, com as mãos feridas. Olho para ele e digo:

— Desculpa. Eu achei que daria conta, mas não está sendo tão fácil como imaginei. Se eu pudesse voltar atrás, não teria comprado essa terra.

Ele me olha com compaixão e responde:

— Agora que já fez, não tem como desfazer. Mas, na próxima vez, me escuta: final de ano ninguém trabalha e todo mundo vai para a praia. — Ele respira fundo e conclui: — Vamos terminar isso.

Felizmente, a terra secou, ficou mais leve e o serviço rendeu. Demoramos quase treze dias para carregar tudo para o canteiro de flores que eu havia feito.

Mas, após o aterro, fiz um pergolado, coloquei flores, dois balanços e uma rede. Ficou bem fofo e bonito.

Thoughts

  • BELADIA

    Olá, leitores!

    Além dos livros em andamento, continuo atualizando minha série de crônicas por aqui.

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    Obrigada pelo apoio e até a próxima história!

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