Série (Crônicas)
Somos recém-casados. O plástico das sacolas de mercado já começava a marcar meus dedos enquanto subíamos os degraus até o terceiro andar, a respiração um pouco ofegante pelo esforço. Conversávamos sobre amenidades quando meu marido puxou o assunto de filmes de terror.
— Eu não tenho medo — afirmou ele em determinado momento, tateando o bolso atrás da chave, mas logo se contradisse: — Mas me dá um frio na espinha sempre que escuto o motor de uma serra elétrica. Traz à memória sangue, corpos despedaçados...
— O meu trauma é bem pior que o seu — rebati. — Até porque você não escuta motor de motosserra com tanta frequência na vida real. Já o meu... sempre que entro em algum cômodo escuro, eu me lembro da cena. E, logo em seguida, invariavelmente noto algo vermelho por perto. Isso acontece o tempo todo à noite.
Ele destrancou a porta, abriu e acendeu a luz do apartamento. Entramos e largamos as compras pesadas sobre a bancada da cozinha, soltando um suspiro aliviado.
— O quê? — ele perguntou, parando de desempacotar as coisas, sem entender. — Me explica isso.
— Sempre que entro em um cômodo com a luz apagada, eu acendo o interruptor e olho para os cantos, porque sempre tenho a sensação de que o rapaz magricela vai estar ali, de cueca, choramingando e batendo na própria cabeça.
— A sua grande cena de terror de um filme é um rapaz magricela de cueca num canto? — ele indagou, atônito, esquecendo completamente das sacolas.
— Sim, foi muito assustador! — reforcei. Larguei minha bolsa sobre a cadeira e imitei os movimentos, batendo a palma da mão repetidamente contra a minha própria testa. — Ele tinha uma arma e batia com a mão assim, chorando...
Meu marido não se aguentou. Deu uma risada alta e sonora. Ele precisou apoiar as duas mãos na beirada da bancada.
— Sério que essa é a sua cena de terror? — ele conseguiu dizer, a voz falhando entre uma gargalhada e outra.
— Sim, é muito assustador! Ele matou o doutor do filme.
Ele continuou rindo, a barriga sacudindo sob a camisa, totalmente rendido à comédia da situação.
— Você não assistiu ao filme direito! — cruzei os braços, tentando manter a seriedade. — Depois que eu lembro da cena, começo a ver coisas vermelhas por todos os lugares... — Apontei freneticamente para as compras que acabáramos de colocar ali. — Olha lá o produto de limpeza! A tampa é vermelha!
— A cor vermelha é primária, tem em todo lugar — ele retrucou, enxugando uma lágrima invisível no canto do olho, ainda sorrindo. — Sério mesmo que o seu maior trauma de terror na vida é com O Sexto Sentido?
Respirei fundo, deixando ele aproveitar a vitória por um segundo antes de dar o troco.
— Foi um filme muito assustador! — retruquei, tentando defender minha honra. — E, para a sua informação, eu também assisti a The Walking Dead!
— Eu sei, até tive que te comprar um taco de beisebol — afirmou ele.
— E você fez uma mochila de sobrevivência! — apontei, virando o jogo.
— Não foi por causa dos zumbis — ele se apressou em justificar, mudando de tom. — Foi porque precisamos ter uma mochila com coisas necessárias caso a gente precise sair às pressas!
— Claro. E o meu taco também é muito necessário para matar os zumbis! — falei, caindo na risada junto com ele.