Daniel deixou o auditório com o mesmo sorriso confiante com que havia encerrado a palestra. O ar da noite estava quente, e o estacionamento, quase vazio, parecia uma exposição particular de automóveis importados. Havia alguns Mercedes, uma BMW e um Porsche preto estacionado perto da saída. Sob a iluminação branca dos postes, as carrocerias brilhavam como se tivessem acabado de sair de uma concessionária.
Ele caminhou entre os carros, ajeitando o paletó de seu terno importado. O tecido assentava perfeitamente sobre os ombros, e os sapatos, polidos até refletirem a luz, produziam pequenos estalos contra o asfalto.
Por um instante, olhou para o Porsche. Imaginou-se entrando nele, girando a chave e partindo sob os olhares de quem ainda estivesse por ali. A cena combinava perfeitamente com a imagem que gostava de projetar.
Mas continuou andando.
Atravessou a rua e chegou a outro estacionamento, gratuito, esquecido entre um terreno baldio e uma construção abandonada. Ali, o cenário era outro. Sacos de lixo se acumulavam junto às lixeiras transbordando, embalagens sujas eram arrastadas pelo vento, e o cheiro de comida estragada se misturava ao de urina. Alguns mendigos ocupavam os cantos mais escuros, protegidos por cobertores encardidos e pedaços de papelão.
Daniel tirou a chave do bolso.
Era uma chave simples, com um pequeno controle riscado, longe de qualquer coisa que combinasse com seu relógio, seu terno ou a imagem de prosperidade que havia vendido naquela noite.
Seu carro era um Celta preto.
Parou diante dele e procurou a carteira. Abriu-a, examinou os compartimentos e encontrou apenas algumas moedas. Colocou-as na palma da mão e contou uma por uma.
Dez reais.
Ficou olhando para o dinheiro por alguns segundos, como se a quantia fosse uma ofensa pessoal.
— Dez reais... Só tenho dez reais para comer alguma coisa.
Fechou a mão imediatamente.
Um dos mendigos estava sentado perto da lixeira, com a cabeça baixa. Outro remexia uma sacola plástica, procurando alguma coisa que ainda pudesse aproveitar. Daniel enfiou as moedas no bolso e caminhou devagar até o carro, mantendo a mão fechada contra o tecido da calça.
Não queria que o dinheiro tilintasse.
Não queria que alguém ouvisse as moedas e lhe pedisse alguma coisa. Se algum deles se aproximasse, diria que não tinha nada. Não tinha dinheiro, não tinha trocado, não tinha como ajudar ninguém.
Era curioso que, algumas horas antes, tivesse falado diante de uma plateia sobre abundância, mentalidade milionária e a importância de enxergar oportunidades onde os outros só viam problemas.
Agora, dez reais eram tudo o que possuía para o resto da noite.
Abriu a porta do Celta e entrou. O interior cheirava a tecido velho, poeira e plástico aquecido pelo sol. Havia uma garrafa de água pela metade no porta-copos e um recibo amassado no banco do passageiro.
Enfiou a chave na ignição.
Girou.
O motor fez um ruído curto, tossiu e morreu.
— Ah, não. Agora não.
Tentou novamente.
O painel acendeu. O motor reclamou, sacudiu o carro inteiro e voltou ao silêncio.
Daniel bateu a mão no volante.
— Vamos, desgraça!
Respirou fundo e tentou pela terceira vez. Dessa vez, o Celta emitiu um som ainda mais fraco, como se estivesse cansado de existir.
Daniel deixou a cabeça cair contra o encosto.
— Meu Deus, me ajuda! Pelo amor de Deus, faz esse carro pegar! Eu não tenho condição de ficar aqui a noite inteira!
A palavra Deus saiu de sua boca com a urgência de quem finalmente encontrara alguém disposto a ouvir suas reclamações.
Ficou alguns segundos em silêncio, segurando a chave, e tentou outra vez. Nada.
Do lado de fora, os mendigos continuavam onde estavam. Um deles tossiu. O outro puxou o cobertor sobre os ombros.
Daniel olhou para eles através do para-brisa, incomodado com a simples presença daqueles homens. Havia algo na pobreza alheia que lhe provocava uma irritação difícil de explicar. Talvez porque o obrigasse a reconhecer uma condição que ele próprio temia: a de alguém sem dinheiro, sem prestígio e sem garantias.
Abriu a porta, saiu e trancou o carro.
Passou pelos homens com o queixo erguido, lançando-lhes um olhar de desprezo.
— É por isso que ninguém sai do lugar — murmurou, sem se dirigir a ninguém em particular.
Um dos mendigos levantou os olhos, mas Daniel já havia atravessado o estacionamento.
Entrou no carro novamente, dessa vez com a intenção de seguir viagem. Depois de mais algumas tentativas, o motor finalmente pegou. O ruído irregular do Celta pareceu-lhe uma vitória pessoal.
— Obrigado, meu Deus — disse, antes mesmo de colocar o cinto.
Saiu do estacionamento e tomou a avenida.
A cidade parecia maior à noite. Fachadas comerciais fechadas, prédios de escritórios escuros e vitrines apagadas passavam pela janela. Daniel dirigia com uma das mãos no volante e a outra procurando o botão do rádio.
Uma emissora transmitia o noticiário.
A voz do locutor, calma e impessoal, anunciou uma nova proposta do governo: um programa de renda extra destinado a famílias em situação de vulnerabilidade, com o objetivo de ajudar pessoas sem recursos suficientes para cobrir as despesas básicas.
Daniel soltou uma risada curta.
— Pronto. Agora acabou. Ninguém mais vai querer trabalhar.
Apertou o volante.
— É sempre assim. Você se mata para construir alguma coisa e os outros ficam esperando o governo resolver a vida deles.
Mudou de faixa, ultrapassou um ônibus e continuou reclamando. Não lhe ocorreu que, naquela noite, ele próprio havia recorrido a promessas para conseguir dinheiro de um desconhecido. Tampouco lhe ocorreu que a renda anunciada talvez representasse, para alguém, a diferença entre jantar e dormir com fome.
A notícia continuou, mas Daniel já não prestava atenção.
Algumas quadras adiante, a avenida se abriu diante de uma praça enorme.
Ou, pelo menos, era assim que a prefeitura a chamava.
O espaço se estendia por uma área considerável, mas não havia árvores, jardins ou bancos que convidassem alguém a permanecer ali. O chão era uma superfície contínua de asfalto rachado, interrompida por manchas de concreto e pequenas ilhas de terra seca. Durante o dia, o lugar devia transformar-se numa chapa de calor; à noite, parecia um terreno abandonado que por engano havia recebido o nome de praça.
No centro, sob um único poste de iluminação, havia uma barraca de churrasquinho.
Eram dez horas da noite.
A estrutura metálica estava enferrujada, com uma das pernas calçada por um pedaço de madeira. A lona, desbotada e manchada de gordura, pendia de maneira irregular. Uma pequena placa de madeira trazia a inscrição:
DEUS É GLORIOSO
O último detalhe fez Daniel franzir a testa.
O S de GLORIOSO estava invertido, como se quem tivesse pintado a placa não soubesse exatamente como desenhar a letra. A tinta preta escorria em alguns pontos, e o conjunto parecia ter sido feito às pressas, com restos de material encontrados em algum depósito.
Daniel reduziu a velocidade.
Atrás da churrasqueira estava um senhor de pele parda, quase careca, com um bigode ralo que se estendia sobre o lábio superior. Seu rosto tinha marcas profundas, e a pele ao redor dos olhos parecia cansada. Vestia uma camisa azul velha, com os botões desalinhados: um mais acima do lugar correto, outro preso por um fio quase solto. As mangas estavam dobradas de maneira desigual.
O homem segurava um espeto com pedaços pequenos de carne. Ao lado, uma bandeja de alumínio exibia algumas porções já preparadas. A churrasqueira soltava uma fumaça fina, que subia lentamente até desaparecer na escuridão.
Daniel observou tudo com uma expressão de repulsa.
A barraca era feia. A placa era malfeita. A praça era uma aberração urbana. O homem parecia miserável. Até a disposição dos espetos lhe pareceu errada.
É incrível como tem gente que não se preocupa nem com a própria aparência, pensou.
Parou o Celta quase em frente à barraca, deixando o motor ligado por alguns segundos. A luz do único poste iluminava parcialmente o rosto do vendedor e lançava uma sombra comprida sobre o asfalto.
O senhor levantou a cabeça.
Ao perceber o carro parado, abriu um sorriso simples, sem constrangimento, como se a chegada de um único cliente fosse motivo suficiente para justificar as horas de trabalho. Limpou as mãos num pano preso à cintura e se aproximou um pouco da beirada da barraca.
— Boa noite, patrão! Vai querer um churrasquinho?
Daniel não respondeu imediatamente. Olhou para a placa, para a churrasqueira enferrujada e, por fim, para o rosto do homem.
Patrão? Se ele soubesse...
A ideia o incomodou. Não por sentir vergonha, mas porque, naquele instante, não queria ser confundido com alguém que frequentava lugares como aquele. Seu terno custava mais do que provavelmente valiam todos os objetos reunidos na barraca. Ainda assim, no bolso, tinha apenas dez reais em moedas.
O vendedor continuou sorrindo, sem perceber o julgamento silencioso.
— A carne tá boa, viu? Acabei de tirar uns da brasa.
Daniel passou os olhos pela bandeja. Não viu nada que lhe despertasse o apetite. O cheiro da carne assada, porém, fez seu estômago se contrair. Não comia desde o início da tarde.
Pensou nos dez reais.
Pensou no preço de um prato num restaurante decente.
Pensou no auditório, nos carros importados e na maneira como havia encerrado a palestra, falando sobre a liberdade de escolher a própria vida.
Agora, estava diante de uma barraca torta, numa praça sem árvores, negociando consigo mesmo a possibilidade de comer.
O vendedor aguardou, ainda sorrindo.
Daniel permaneceu calado por alguns segundos. Por fim, abriu a porta do carro.
O homem juntou as mãos por um instante, num gesto discreto de gratidão, e ergueu os olhos para o céu escuro.
— Obrigado, meu Deus, por mais um cliente.
Disse aquilo sem ironia, sem pose e sem esperar que alguém o ouvisse.
Depois voltou à churrasqueira, pegou um espeto e começou a prepará-lo com o cuidado de quem ainda acreditava que o trabalho de suas mãos tinha algum valor.
Daniel fechou a porta do Celta e ficou olhando para ele.
Não sentiu admiração.
Sentiu apenas o desconforto de estar diante de alguém que, apesar de possuir tão pouco, parecia agradecer por aquilo que ele próprio considerava insuficiente.
#empreendedorismo #empreendedor #mentalidadedesucesso #desenvolvimentopessoal #altaperformance #sucessofinanceiro #mentalidadeempreendedora #motivação #liderança #negócios #educaçãofinanceira #marketingdigital #palestrasmotivacionais #coachdesucesso #liberdadefinanceira #networking #produtividade #investimentoemsimesmo #fórmuladosucesso #promessasdesucesso