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O Deserto do Asfalto - Parte 3

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Daniel fechou a porta do Celta e caminhou até a barraca. O asfalto ainda guardava o calor do dia, e o cheiro de fumaça se espalhava pela praça vazia. Ao fundo, atrás de um conjunto de casas baixas e vielas estreitas, começava uma favela. Algumas luzes fracas apareciam entre os telhados improvisados, e o som distante de uma televisão escapava de alguma janela aberta.

— Faz um aí pra mim — disse Daniel, apontando para a churrasqueira. — Mas capricha, hein. Não quero carne torrada por fora e crua por dentro.

— Pois não, patrão! Vai sair um bonito, em nome de Jesus.

O vendedor retirou um espeto da brasa e o colocou sobre uma bandeja de alumínio. Depois se abaixou para pegar uma cadeira de plástico que estava encostada na lateral da barraca.

Era uma cadeira branca, encardida, com uma das pernas ligeiramente torta e uma rachadura atravessando o assento. Quando o homem a colocou diante de Daniel, ela rangeu.

— Pode sentar, patrão. Fique à vontade.

Daniel olhou para a cadeira como se tivesse recebido uma peça de mobília retirada de um lixão.

— Você está falando sério? É nessa cadeira que você recebe os clientes?

— É a que eu tenho, patrão.

— A que você tem... — Daniel repetiu, com um sorriso de canto de boca. — Meu amigo, isso aí está praticamente desmontando. Se eu sentar e essa porcaria quebrar, quem vai pagar meu terno?

O homem olhou para a cadeira, depois para Daniel.

— Ela aguenta, sim, senhor. Só precisa sentar mais pro meio.

Daniel soltou uma risada curta, puxou a cadeira com o pé e se acomodou cuidadosamente. O plástico rangeu sob seu peso.

— Meu Deus do céu. Parece que estou num acampamento de refugiados.

O vendedor não respondeu à provocação. Apenas ajeitou a bandeja sobre um pequeno balcão improvisado.

— Meu nome é Antônio, patrão. Prazer em conhecer o senhor.

Daniel limpou uma pequena mancha invisível da manga do paletó antes de responder.

— Daniel. Empreendedor, palestrante, consultor de negócios. Trabalho com desenvolvimento humano e estratégias de crescimento.

Antônio abriu um sorriso largo.

— Ah, o senhor é um homem importante, então! Dá pra ver. Olha esse terno, esse sapato... O senhor está muito bem vestido. E também é cheiroso, viu? Aqui a gente fica com esse cheiro de fumaça e gordura o dia inteiro.

Daniel gostou daquilo. Endireitou as costas na cadeira, como se a praça inteira fosse uma plateia que acabara de reconhecê-lo.

— É questão de posicionamento, Antônio. A aparência comunica. Antes de você abrir a boca, as pessoas já decidiram quanto você vale.

Antônio assentiu devagar.

— É verdade, senhor Daniel. O senhor parece um homem de sucesso.

— Porque eu sou. Mas não foi sorte, não. Foi trabalho, visão, disciplina e, principalmente, mentalidade.

Antônio ficou olhando para ele, atento, como um aluno diante de um professor.

Daniel pegou o espeto e experimentou a carne. Mastigou lentamente, sem demonstrar muita satisfação.

— Está razoável.

— Que bom que gostou, patrão. Deus é glorioso!

Daniel olhou para a placa atrás do homem.

— Aliás, o que é aquilo? — apontou para a inscrição torta. — “Deus é glorioso”, com o S virado ao contrário. Você não percebeu isso quando fez a placa?

Antônio olhou para o letreiro.

— Percebi, sim, senhor. Mas foi um rapaz que pintou pra mim. Ele estava aprendendo. Cobrou baratinho.

— Barato? Antônio, esse é justamente o problema de vocês. Vocês querem economizar em tudo. Economizam na placa, na cadeira, na estrutura, na apresentação... Depois ficam reclamando que o negócio não cresce.

O vendedor ouviu sem interromper. Com o pano preso à cintura, limpou as mãos e olhou para a barraca.

— É, senhor Daniel. Eu precisava arrumar umas coisas mesmo.

— Precisava? Você precisa arrumar tudo! Olha isso aqui. Essa lona está acabada, esse balcão parece que vai cair, essa churrasqueira está enferrujada. Você não tem uma identidade visual, não tem organização, não tem um ponto comercial decente. Como quer que alguém leve seu negócio a sério?

Antônio baixou um pouco a cabeça.

— Eu tento fazer o melhor que posso, senhor.

— Tentar não é suficiente. O mercado não recompensa intenção. Recompensa resultado.

Antônio ficou quieto. O fogo estalou na churrasqueira, e uma pequena labareda subiu quando uma gota de gordura caiu sobre as brasas.

Daniel terminou o primeiro espeto e olhou ao redor. A praça continuava deserta. O único poste iluminava a barraca, deixando o restante do espaço mergulhado numa penumbra irregular.

— E você fica aqui sozinho, a essa hora, nesse lugar? — perguntou. — Você tem noção do perigo? Olha ali atrás. Tem uma favela inteira. Você está praticamente pedindo pra ser assaltado.

Antônio acompanhou o olhar dele.

— Eu sei, senhor. Mas é onde eu consigo trabalhar agora.

— Agora? E antes você trabalhava onde?

O homem respirou fundo antes de responder.

— Eu tinha um carrinho melhor. Trabalhava perto da feira, num ponto que já conhecia. O movimento era bom, o pessoal me conhecia, tinha freguês antigo. Mas os outros vendedores começaram a reclamar de mim.

— Reclamar do quê?

— Diziam que eu atrapalhava a passagem. Que a minha barraca era feia, que fazia fumaça demais, que o pessoal parava na frente dos negócios deles. Um dia, mandaram eu sair. Eu pedi pra ficar até arrumar outro lugar, mas não quiseram saber.

Antônio apertou o pano entre as mãos.

— Teve uma confusão. Eles empurraram meu carrinho, derrubaram as coisas, quebraram uma parte da estrutura. Eu tentei segurar, mas era muita gente. No fim, perdi quase tudo.

— E você não fez nada?

— Fiz o que pude, senhor. Conversei, pedi ajuda, procurei outro lugar. Mas ninguém quis se envolver. Agora estou aqui, com o que sobrou.

Daniel balançou a cabeça, demonstrando uma espécie de compaixão impaciente.

— Está vendo? Você não sabe se posicionar. Não sabe negociar. Deixa os outros decidirem a sua vida e depois aceita o resultado.

Antônio olhou para o fogo.

— É... Às vezes a gente não tem força pra lutar contra todo mundo.

— Não é questão de força, é questão de estratégia! Você precisa aprender a pensar como alguém que quer vencer.

— Deus vai me ajudar, senhor Daniel.

Daniel soltou o ar pelo nariz.

— Lá vem você com Deus.

Antônio levantou o rosto, mas não perdeu o sorriso.

— Deus é glorioso, senhor. Eu acredito que Ele não abandona a gente.

— Acreditar não paga conta, Antônio.

— Não paga mesmo, senhor. Mas me dá força pra continuar trabalhando.

A resposta foi tão simples que Daniel não encontrou uma réplica imediata. Em vez de reconhecer qualquer mérito naquelas palavras, preferiu olhar para a churrasqueira.

— Você sabe o que é mindset?

Antônio franziu a testa.

— É o quê, senhor?

Daniel sorriu, satisfeito por ter encontrado um terreno no qual podia se colocar acima do outro.

— Mindset. Mentalidade. A maneira como você pensa, como enxerga o mundo, como reage às dificuldades. Você está preso numa mentalidade de escassez. Pensa pequeno, aceita pouco, se conforma com qualquer coisa. Enquanto você não mudar isso, vai continuar aqui, nessa praça, com uma cadeira quebrada e uma churrasqueira enferrujada.

Antônio escutou cada palavra sem demonstrar irritação. Parecia realmente interessado em compreender.

— Entendi, senhor. Quer dizer... acho que entendi um pouquinho.

— Não, não entendeu. Mas é assim mesmo. Esse tipo de coisa exige estudo.

— O senhor deve ter estudado muito.

— Muito. E continuo estudando. Eu invisto em mim mesmo. Cursos, livros, eventos, viagens. Conhecimento é o que separa quem vence de quem passa a vida reclamando.

Antônio olhou para o terno, para o relógio e para o carro estacionado perto da barraca.

— Deve ser bonito conhecer tantos lugares, senhor Daniel. Eu nunca saí daqui da cidade. Faz tempo que tenho vontade de conhecer o mar.

— O mar? — Daniel riu. — Antônio, antes de pensar em conhecer o mar, você precisa fazer essa barraca dar dinheiro.

O vendedor sorriu, como se a observação tivesse sido uma orientação valiosa.

— É verdade. Um passo de cada vez. Deus é glorioso.

Daniel ficou incomodado com a facilidade com que Antônio concordava. Esperava resistência, desculpas, talvez uma discussão que lhe permitisse demonstrar ainda mais conhecimento. Mas o homem apenas escutava e, de vez em quando, agradecia.

— Você sabe quanto eu poderia cobrar por uma consultoria? — perguntou Daniel.

— Não faço ideia, senhor.

— Um trabalho individual comigo custa caro. Eu tenho programas de acompanhamento, cursos, palestras. Tem gente que paga doze mil reais para aprender o que eu ensino.

Antônio arregalou os olhos.

— Doze mil?

— Isso. E tem gente que acha barato.

— Nossa Senhora... É muito dinheiro, senhor Daniel.

— É um investimento. Quem entende o valor do conhecimento não fica pensando só no preço.

Antônio assentiu, impressionado.

— O senhor deve ajudar muita gente.

Daniel ajeitou o punho da camisa.

— Ajudo quem quer ser ajudado. O problema é que a maioria não quer mudar. Quer resultado, mas não quer pagar o preço.

Olhou para a barraca, depois para as mãos calejadas de Antônio.

— No seu caso, eu até poderia fazer alguma coisa. Montar uma estratégia, melhorar seu posicionamento, criar uma marca, organizar suas finanças. Você poderia transformar isso aqui num negócio de verdade.

Antônio se inclinou ligeiramente para a frente.

— O senhor faria isso por mim?

— Eu poderia. Mas, sinceramente, você não tem condições de pagar pelo meu trabalho.

O sorriso de Antônio diminuiu um pouco, mas não desapareceu.

— É... No momento, não tenho mesmo, senhor.

— E é justamente por isso que precisa mudar. Você não pode ficar esperando que alguém apareça e resolva seus problemas.

Daniel pegou o segundo espeto.

— Olha para você, Antônio. Está aqui todas as noites, cheirando a gordura, com essa roupa velha, vendendo churrasquinho para meia dúzia de pessoas. Onde você acha que vai chegar desse jeito?

Antônio olhou para a própria camisa. Havia uma pequena mancha escura perto do bolso e outra na altura da barriga. O cheiro de fumaça estava entranhado no tecido, assim como nas mãos e nos cabelos.

— Eu sei que não estou bem arrumado, senhor. Mas essa é a roupa que eu tenho pra trabalhar.

— Não estou falando só da roupa. Estou falando da sua vida inteira. Você precisa ter ambição.

Antônio demorou um pouco para responder.

— Eu tenho, sim, senhor. Queria ter um carrinho novo, comprar uma geladeira melhor, conseguir um lugar coberto. Queria não precisar ficar preocupado quando chove. E queria ajudar meus filhos mais do que ajudo hoje.

Daniel deu de ombros.

— Isso não é ambição. Isso é sobrevivência.

A frase ficou suspensa no ar.

Antônio não respondeu. Pegou outro espeto, virou a carne com cuidado e observou o ponto da brasa. Por um instante, pareceu menor diante da própria barraca, como se todas as coisas que Daniel havia apontado estivessem realmente erradas e não houvesse nada que pudesse fazer a respeito.

Depois voltou a sorrir.

— Deus sabe de tudo, senhor Daniel. Ele conhece minhas necessidades. Eu faço minha parte e confio que Ele vai abrir uma porta.

— E enquanto a porta não abre?

— Eu trabalho.

Daniel balançou a cabeça, quase divertido.

— Você realmente acredita que isso basta?

— Não sei se basta, senhor. Mas é o que eu posso fazer hoje.

Antônio limpou a mão no pano e acrescentou:

— Eu também sou dizimista. Todo mês separo uma parte do que ganho e entrego na igreja. Às vezes é pouco, mas eu entrego com fé. Quero ser digno das bênçãos de Deus.

Daniel franziu o cenho.

— Você tira dinheiro de um negócio que mal se sustenta para dar à igreja?

— Eu devolvo uma parte do que Deus me permite ganhar.

— Antônio, você não tem dinheiro para consertar seu carrinho, não tem uma cadeira que preste e está vendendo carne debaixo de um poste. E ainda tira dinheiro daí para entregar a outra pessoa?

O vendedor apertou os lábios por um instante.

— Eu entendo o que o senhor está dizendo. Mas minha fé é importante pra mim.

— Isso não é fé. Isso é falta de planejamento financeiro.

Antônio ficou em silêncio.

Daniel percebeu que havia atingido algum ponto sensível, mas não recuou. Na sua cabeça, estava fazendo um favor ao homem. Estava lhe dizendo verdades que ninguém mais tinha coragem de dizer.

— Se você quer crescer, precisa parar de terceirizar sua responsabilidade. Deus não vai montar sua barraca, não vai comprar sua geladeira e não vai consertar seu carrinho. Você precisa fazer isso.

Antônio respirou fundo.

— Eu sei que preciso trabalhar, senhor. Eu trabalho todos os dias. Mas também peço a Deus que me dê saúde e força. Sem isso, eu não consigo fazer nada.

Daniel abriu a boca para responder, mas desistiu. A conversa estava começando a se repetir.

Olhou para o rádio do carro, ainda ligado, e depois para a churrasqueira.

— Você vende cerveja?

Antônio pareceu surpreso com a mudança de assunto.

— Não, senhor. Só refrigerante e água.

— Por quê? Uma cerveja cairia bem agora.

— Eu sou evangélico, senhor Daniel. Não vendo bebida alcoólica. É uma escolha minha.

Daniel ergueu as sobrancelhas.

— Ah, claro. Esqueci. Você é crente.

— Sou, sim, senhor. E respeito quem pensa diferente. Mas eu não me sinto bem vendendo bebida. Na minha igreja, aprendi que devo procurar fazer aquilo que considero correto diante de Deus.

Daniel largou o espeto sobre a bandeja com mais força do que pretendia.

— Meu Deus, Antônio! Você já está num ponto horrível, não tem movimento, não tem estrutura, não tem dinheiro, e ainda se dá ao luxo de recusar o que poderia vender?

— Eu não vejo como um luxo, senhor. É uma questão de consciência.

— Consciência não paga suas contas!

Antônio baixou os olhos.

— Eu sei que o senhor está preocupado comigo.

— Preocupado? Eu estou tentando fazer você enxergar a realidade! Você reclama que quebraram seu carrinho, reclama que não tem movimento, reclama que não consegue sair do lugar. Mas quando aparece uma oportunidade de ganhar dinheiro, você mesmo coloca uma barreira na frente.

— Eu não estou reclamando, senhor Daniel. Só estou contando o que aconteceu.

— Então pare de contar e faça alguma coisa!

A voz de Daniel ecoou pela praça vazia. Por alguns segundos, até o crepitar da churrasqueira pareceu diminuir.

Antônio ficou parado, segurando o pano entre as mãos. Não parecia ofendido. Parecia apenas cansado.

— Está bem, senhor — respondeu baixinho. — Vou pensar no que o senhor disse.

Daniel recostou-se na cadeira, satisfeito por ter encerrado a discussão.

— Pense mesmo. Porque, do jeito que você está, não vai chegar a lugar nenhum.

Antônio pegou a bandeja e retirou as sobras de carne. Depois olhou para Daniel, como se ainda enxergasse nele alguma coisa boa que o próprio homem não conseguia enxergar.

— Obrigado por conversar comigo, senhor. O senhor tem conhecimento. Deve conhecer muita coisa que eu não conheço.

Daniel recuperou o sorriso.

— Isso eu conheço mesmo.

— Quem sabe um dia eu consiga melhorar minha barraca. Ter um lugar bonito, com mesas, cadeiras boas... Quem sabe até contratar alguém pra me ajudar.

— Quem sabe — respondeu Daniel, distraído, olhando o relógio.

Antônio voltou a atenção para a churrasqueira.

— Deus é glorioso, senhor Daniel. A gente não pode perder a esperança.

Daniel revirou os olhos discretamente.

— Você e esse Deus...

— É o que me mantém de pé, senhor.

Daniel não respondeu.

A brasa iluminou o rosto de Antônio por um instante. O homem estava cansado, com a camisa manchada e as mãos marcadas pelo trabalho. Mesmo assim, quando um pedaço de carvão caiu no chão, ele se abaixou para recolhê-lo antes que o vento o levasse.

Daniel observou o gesto e sentiu uma espécie de pena. Não era exatamente compaixão. Era a pena que se sente diante de alguém que, aos seus olhos, não sabe aproveitar as próprias oportunidades.

Terminou o churrasquinho, limpou os dedos num guardanapo fino e olhou para o vendedor.

— Quanto ficou?

Antônio fez a conta mentalmente.

— Dois espetinhos e uma água, senhor? Deu quinze reais.

Daniel parou.

Enfiou a mão no bolso, encontrou as moedas e as espalhou sobre a palma. Contou novamente, embora já soubesse o resultado.

Dez reais.

O silêncio entre os dois mudou de natureza.

Pela primeira vez naquela noite, Daniel não tinha uma resposta pronta.

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