série crônicas
A semana começou corrida. E terminou corrida. Em uma manhã como tantas outras, as meninas acordaram bem-dispostas e passaram a manhã brincando no pátio com as cachorras. Já passam das 10h30, o almoço está pronto, e chamo as duas para tomarem banho.
A mais velha reclama: — Mãe, está frio!
As duas estão fedorentas; estiveram rolando no chão com as cachorras e ficaram com cheiro forte de cachorro.
A mais velha sobe em silêncio, toma banho em silêncio, troca de roupa em silêncio, desce para o almoço em silêncio, arruma-se para ir à escola em silêncio, falando apenas o estritamente necessário, entra no carro em silêncio e segue em direção à escola em silêncio.
Já a mais nova sobe as escadas tagarelando: — Você sabia que eu tenho uma cidade de faz de conta? — Não sabia — respondo. — É a cidade São Paulo Mexerica. — Por que tem esse nome? — Porque eles colocaram fogos de artifício em umas coisinhas que parecem com laranjas e cabum! — fala ela, toda empolgada —, muitos fogos de artifício! Sujou tudo de suco de laranja, e eles usaram um esfregão para limpar. Por isso ficou o nome São Paulo Mexerica.
E continua, de dentro do box, enquanto toma banho: — Você quer ouvir o hino de São Paulo Mexerica?
Ela cantou umas vinte vezes apenas esta frase: — "Porque eu te amo e você é tudo para São Paulo Mexerica."
Ela prossegue com a tagarelice: — Eu era uma bruxa, mas disse “sinsabil bum bum”, me transformei em uma fada e fui morar em São Paulo Mexerica. Eu tenho dois irmãos, um menino e uma menina.
Eu pergunto, enquanto a ajudo a se vestir: — São gêmeos? Ela responde: — Não, eles não usam roupas iguais. — Você quer ouvir o hino do Dia das Crianças da cidade de São Paulo Mexerica?
Antes de eu responder, ela começa a cantar: — "Você tem que ouvir meu rugido, como você é meu amigo, São Paulo Mexerica..."
No almoço, ela solta mais uma: — Eu tenho um pai e uma mãe no São Paulo Mexerica. Eu pergunto: — Que legal! E ela continua: — Mas eles são muito velhinhos, mas muito velhinhos mesmo! Eles não enxergam, e na cidade não tem loja de óculos. Eles foram atravessar a rua e morreram. — Morreram? — pergunto espantada. — Sim! Veio um avião e bateu neles. Aí veio outro avião, me jogou uma corda, eu subi na corda e fui para o avião. Como os meus pais são muito velhinhos e não enxergam, eles morreram. — Pai, você quer ouvir o hino do Dia das Crianças de São Paulo Mexerica?
O pai, almoçando, fala: — Depois, minha filha.
Pergunto se a comida está boa para a outra filha, e ela responde apenas com um aceno de cabeça que sim, enquanto a mais nova já emenda mais curiosidades sobre a cidade mexerica que inventou.
Na hora de ir para a escola, a mais velha pede que eu lhe amarrasse o cabelo em um rabo de cavalo, pois tem educação física. A mais nova aparece de óculos escuros e uma tiara com um laço gigante da Minnie — comprada no circo dias atrás, quando o pai as levou lá. A tiara acende LEDs que piscam sem parar. Ela acendeu a tiara, entrou no carro e foi para a escola. Foi só mais um dia aqui em casa.