série (crônicas)
Quarenta e oito horas após o desaparecimento...
O grupo de WhatsApp do bairro começa a ferver:
— Bom dia, vizinhos. Meu marido está desaparecido há quarenta e oito horas. Ele saiu de casa com uma jaqueta de couro na cor marrom, calça jeans e uma mochila, e está com uma moto vermelha, como na foto abaixo. Se alguém souber de algo ou viu alguma coisa, por favor, entre em contato comigo ou com a polícia. (Foto)
Milhares de comentários pipocam, mas ela segue sem dar muitos detalhes.
A vizinha Maria de Souza, da casa da rua acima da minha, me chama no aplicativo por mensagem privada:
— Oi, vizinha, você viu o grupo hoje? Tem alguma informação sobre o caso?
— Eu a conheço de vista. Já falei com ela pelo WhatsApp quando fiz a doação da casinha de cachorro das minhas meninas [as cachorras] que faleceram. Deixei as casinhas na calçada e, quando voltei, já não estavam mais lá. À noite, ela me enviou uma mensagem agradecendo. Não a conheço pessoalmente.
— Ela é a mulher da ONG dos cachorros de rua. O marido dela é pedreiro, mora com a mãe já muito idosa, e na casa dela há uns trinta cachorros. Mas você sabe alguma coisa sobre o desaparecimento do marido?
— Disso, eu não sei — respondo, e finalizo a conversa.
Setenta e duas horas após o desaparecimento...
A esposa do homem desaparecido envia um áudio no grupo do bairro, parecendo chorar:
— Os vizinhos que tiverem câmeras e imagens da rua, por favor, verifiquem se no dia do desaparecimento ele estava sozinho ou acompanhado.
A vizinha Maria de Souza me envia uma mensagem no privado:
— Oi, bom dia! Você tem alguma notícia sobre o desaparecimento do vizinho?
— Não tenho, só o que colocam no grupo. Fiquei com dó dela agora, no áudio parecia estar chorando.
— Fui até lá na casa dela: ele sacou cinco mil reais em espécie no banco, a polícia encontrou imagens dele no mesmo dia comprando algumas roupas também, e o celular está desligado. Ela está achando que ele foi sequestrado. Mas ele não é pedreiro? — Maria de Souza perguntou.
— Acho que é pedreiro, sim. — E finalizo a conversa.
Envio para todos os contatos da minha lista o post de desaparecido, avisando que é um vizinho e que a família está procurando. Qualquer informação, era para entrar em contato com o número da postagem.
Quarto dia do desaparecimento.
A vizinha Maria de Pádua me chama no WhatsApp por mensagem privada:
— Oi, vizinha, tudo bem?
— Oi. Tudo bom, e você, como está? — respondo.
— Eu vi a sua mensagem hoje. Tem um vizinho desaparecido? — pergunta Maria de Pádua.
— Tem sim, o marido da mulher da ONG. Já é o quarto dia. Repasse para seus contatos, caso alguém tenha visto. Você não está no grupo do bairro?
— Não estou.
— Quer que eu te coloque?
— Não, odeio grupos de bairro.
— Tá bom.
— É daquela casa que tem um monte de cachorro, duas ruas antes da nossa? — pergunta a vizinha Maria de Pádua.
— Sim, é a mulher da ONG que resgata os cachorros. Fiquei com dó dela, ela enviou um áudio no grupo parecendo estar chorando.
— Ah, então eu a conheço! Ela resgata cachorro com a esposa de um amigo do meu marido do trabalho. Já a vi algumas vezes em reuniões sociais, mas ele eu não conheço. Esse homem do post é ele?
— Sim, foi a esposa do desaparecido que colocou a foto no grupo. Mas eu não os conheço, só sei quem são e onde moram.
— Eu estou com uma sensação de que já vi esse homem... — fica pensativa a vizinha Maria de Pádua. — Mas qualquer coisa, me manda recado aqui. Beijo, vizinha! — Beijo. Finaliza a conversa.
Quinto dia após o desaparecimento, à noite.
A esposa do homem desaparecido coloca no grupo:
— Meu marido foi encontrado, agradeço a todos pela ajuda.
E não colocou mais nenhuma explicação no grupo.
Um dia após o desaparecido ter sido encontrado...
— Bom dia, vizinha! — diz a vizinha Maria de Pádua.
— Tenho uma coisa para te contar. O vizinho desaparecido estava aqui no meu hotel! Depois que você enviou aquele post, eu fiquei pensando que já tinha visto ele. Aí fui conferir o nome dele na ficha do hotel e o nome do post: ele já estava há cinco dias aqui, pedindo comida e trancado dentro do quarto. Aí eu liguei para o telefone que estava no post e disse que achava que ele estava aqui. Ela veio e era ele mesmo!
— Capaz! Ele estava fazendo o quê esses dias todos no hotel? Amante?
— Não, as meninas aqui que trabalham me disseram que ele não recebeu ninguém, vizinha, só pedia comida e, pelo visto, assistia à TV.
— Capaz! — Eu já estava com uma raiva do homem. — Ele ficou esses dias no hotel assistindo TV e pedindo comida, enquanto a esposa chorava, fazia B.O. e procurava por ele? Ela bateu nele?
— Não bateu, eu acho... Quer dizer, a gente ficou ali perto da porta, mas parecia que ela estava só chorando.
— Esse homem deveria apanhar! Coitada, cinco dias procurando o homem em todos os lugares e ele no hotel comendo, dormindo e assistindo TV?! — Falo indignada.
— Eu teria batido se fosse o meu marido. — reponde Maria de Pádua.
— Sábado aparece aqui para a gente tomar café — ofereço para a vizinha Maria de Pádua.
— Tá bom, se eu estiver em casa, passo aí para a gente tomar café. Beijo.
Fiquei morta de raiva de um desconhecido que havia passado cinco dias em um hotel.