Série (Crônicas)
No final do dia, meu marido entra com as meninas pela porta após ir buscá-las na escola. A menor chega tagarelando, e ele logo avisa que a mais velha está chateada porque o time dela perdeu na educação física.
A mais nova continua falando sobre o verão e o que quer comprar para ir à praia:
— Quero óculos para nadar, aquelas boias para colocar aqui — diz ela, mostrando o braço.
Em seguida, vai pegar as bonecas que estão em um carrinho de bebê de brinquedo perto da porta.
Eu me sento no sofá. Minha filha mais velha coloca estrategicamente o seu diário aberto no braço do sofá, perto de onde estou, para que eu possa ler o que ela escreveu. Então, afasta-se para ficar em um canto da casa.
"Eu estou com muita raiva."
Chamo-a e pergunto se quer um abraço. Ela balança a cabeça afirmativamente. Tem sete anos, mas ainda consigo pegá-la no colo. Ela fica ali, por uns dois minutos, em silêncio. Falo para ela:
— Agora vamos respirar fundo e soltar o ar para toda a raiva ir embora. Você está com raiva porque o seu time perdeu na educação física?
Ela move a cabeça, negando.
— Ok, então. — Começo o interrogatório para saber o que aconteceu.
Meu marido já estava com a agenda nas mãos, lendo o que a professora havia escrito, mas não havia nenhuma anotação naquele dia. Ou seja, eu teria que descobrir o que aconteceu diretamente com ela.
— A professora faltou?
Balança a cabeça e diz que não.
— Alguma amiga faltou?
Balança a cabeça e diz que não.
— Alguém chorou na sua sala?
Balança a cabeça e diz que não.
— Alguém brigou na sala?
Balança a cabeça e diz que não.
— Você ficou com raiva na aula de educação física?
Balança a cabeça e diz que não.
— A sua amiga Cloe te disse algo que a deixou com raiva?
Balança a cabeça e diz que não.
— Você disse algo para alguém e o amigo não gostou?
Balança a cabeça e diz que sim.
— Você pode me dizer o que disse?
Ela se levanta e começa a repetir, frase por frase, o que disse e o que a amiga lhe respondeu, como um gravador. Por fim, entendi que haviam discutido porque a minha filha afirmou que era o último dia do inverno; a outra discordou, foi ríspida e gritou.
— Eu estou certa, é o último dia do inverno, amanhã começa a primavera. Ela falou errado — afirma a minha filha.
Escrevi um recado para a professora. As duas meninas conversaram no dia seguinte e pediram desculpas uma à outra. O conflito estava resolvido no mundo exterior, mas não dentro dela. Mesmo medicada, passou a primeira noite em claro, conseguindo adormecer apenas quando o dia já estava amanhecendo. O cérebro, que opera com um QI acima de 138, não encontrava o interruptor para desligar a frustração e o excesso de processamento gerados por uma simples discussão climática. Nos dois dias seguintes, o padrão se manteve, e ela continuou adormecendo apenas após as três da madrugada.
Essa é a realidade silenciosa do autismo associado à superdotação. Apesar da altíssima capacidade cognitiva, ela tem grande dificuldade em decodificar o que sente no próprio corpo. Não percebe o frio ou o calor, não sente a dor de forma típica; pode se machucar e sangrar sem notar o ferimento físico, da mesma maneira que não consegue mapear o funcionamento intrincado das próprias emoções.
Existem poucos estudos que falam sobre a dupla excepcionalidade em meninas. Existem poucos estudos sobre a superdotação em meninas. Existem poucas meninas que sabem que são superdotadas e existem poucas meninas que sabem que são autistas, porque, nos raros estudos sobre o tema, nota-se que a menina autista sem deficiência intelectual associada geralmente apresenta um QI acima da média, o que acaba camuflando o autismo. E, assim, existem poucas famílias que sabem o que é essa neurodivergência.