Calça e camisa social num sábado, para sentar num banco de praça. Fiquei preso nisso. Homem dessa idade se veste assim para sair de casa mesmo quando o destino é só o banco, e eu me vejo nos dois, depende da semana.
C 010 - DUAS PERCEPÇÕES!
Pensamento
Calça e camisa social num sábado, para sentar num banco de praça. Fiquei preso nisso. Homem dessa idade se veste assim para sair de casa mesmo quando o destino é só o banco, e eu me vejo nos dois, depende da semana.
Conteúdo da publicação
(serie crônicas)
Era uma tarde de primavera, um entardecer de sábado. Com ventos calmos acariciando a grama, as copas das árvores dançavam em um balançar suave, criando um mosaico vivo de luz e sombra pelo parque. Acima delas, o céu exibia um espetáculo grandioso: o azul claro cedia espaço a um dourado incandescente, fundindo-se com intensas faixas de laranja vibrante e tons de lilás no horizonte. As nuvens, iluminadas de baixo para cima, ganhavam contornos de fogo e delicadas pinceladas rosadas. Cortando esse oceano de cores, bandos de pássaros revoavam em perfeita sincronia, deslizando alegremente em uma dança de despedida do dia, enquanto buscavam abrigo para a noite nos galhos mais altos.
Um senhor de 70 anos estava sentado em um banco da praça. Vestia calça e camisa sociais; no pulso, um antigo relógio de ponteiros. As rugas ao redor de seus olhos revelavam sua idade, mas não demonstravam cansaço. Ele havia, há pouco tempo, passado uma temporada internado no hospital para cuidar da saúde. Hoje, estava ali, olhando o horizonte, admirando o espetáculo do céu, o voo livre das aves e o balançar das plantas com a brisa. Estava feliz por simplesmente existir naquele instante. Logo à frente, um ipê imponente se destacava, com suas flores amarelas rodopiando ao vento, levadas por ele como em uma valsa. Próximo dali, um grupo de crianças brincava de roda e com uma bola de futebol. Riam e corriam, felizes sob os olhares atentos dos pais. O senhor, observando a cena, abriu um sorriso de nostalgia e contentamento. Era bom contemplar a vida em movimento, crescendo e se desenvolvendo; a vida em cores e sorrisos logo ali perto. Um belo dia de sábado, uma doce tarde de primavera.
A poucos metros dali, um outro senhor, também na casa dos 70 anos, ocupava outro banco. Vestia-se de forma semelhante, com calça e camisa sociais. Ele também havia passado uma temporada recente em um hospital, mas só estava na praça porque o médico lhe prescrevera banhos de sol.
A praça, para ele, era um suplício: barulhenta, cheia de crianças correndo e pais gritando os nomes dos filhos. O canto dos pássaros se recolhendo nas copas não passava de uma gritaria estridente que irritava seus ouvidos, e as árvores balançando pareciam apenas desorganizar a paisagem. O vento trazia cheiros misturados e amontoava folhas secas nos cantos, quando não as jogava longe. E aquela luz do entardecer, com o céu excessivamente colorido, não tinha encanto algum; era apenas enfadonha. Era como um carrasco trazendo a escuridão, o que, para aquele senhor, fazia o dia parecer ainda mais exaustivo. Pensou, amargurado: só faltava chover à noite para coroar mais um daqueles dias insuportáveis.
Os dois homens dividiam a mesma tarde, a mesma idade e até a mesma fragilidade de um corpo que recém deixara o leito de um hospital. Respiravam o mesmo ar e olhavam na mesma direção, mas habitavam mundos internos completamente opostos. A mesma primavera que florescia para um, murchava para o outro. No fim das contas, a paisagem ao redor é apenas uma tela em branco; a mente e a percepção são os pincéis que pintam a nossa realidade. Duas perspectivas em um mesmo cenário provam que a beleza — ou o peso — dos nossos dias nunca está naquilo que vemos, mas na forma como escolhemos enxergar.
Thoughts
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PermalinkDiscordo do fecho. O primeiro está na praça porque quis, o segundo porque o médico mandou, e a crónica chama a isso uma escolha de olhar. Um foi ao sol por vontade, o outro foi levado, e isso já não é a mesma tarde. Convence-me mais o meio, quando o mesmo vento leva flores do ipê a um e amontoa folhas secas ao outro.
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PermalinkFiquei do lado do segundo, gajo! Mandarem-te do hospital para um banco com miúdos aos berros, também eu só queria chuva para ter desculpa.
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PermalinkO segundo está à espera que anoiteça. Depois do duende e do telemóvel perdido, esta é a crónica mais calada da série, pá.
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PermalinkÉgua, o teu segundo banco é o Seu Raimundo que compra o jornal aqui e reclama do calor, do trânsito e da manchete, e no dia seguinte volta. Vou ler isto pra ele amanhã. Tu vai voltar nesse senhor nas próximas crônicas?
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PermalinkUai, recebi uma vez duas irmãs no mesmo quarto de frente pra serra. Uma acordava e abria a janela; a outra fechava a cortina reclamando da claridade. Mesmo café, mesma vista, e cada uma voltou pra casa com uma viagem diferente. Seu segundo senhor, o das folhas secas amontoadas nos cantos, é a irmã da cortina, e eu fiquei com pena dele igual fiquei dela.
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PermalinkCalça e camisa social num sábado, para sentar num banco de praça. Fiquei preso nisso. Homem dessa idade se veste assim para sair de casa mesmo quando o destino é só o banco, e eu me vejo nos dois, depende da semana.
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PermalinkO primeiro senhor feliz so por existir naquele instante, e o outro a poucos metros a contar as horas para anoitecer. Eu fico com a ideia de que o segundo tambem volta a praca amanha, mesmo que so por causa do medico, e que numa dessas tardes acaba por olhar para o ipe sem querer. Gostei muito desta cronica, @BELADIA!
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PermalinkQuem narra dá a felicidade do primeiro de graça e a amargura do segundo com receita médica. A gente sabe por que o segundo está ali e não sabe por que o primeiro está feliz, e eu fiquei desconfiando que tu deixou isso assim de propósito. Quem está contente nunca precisa explicar, quem reclama explica tudo, visse.
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PermalinkA paisagem ao nosso redor é apenas uma tela em branco!
A LEITURA NOS LEVA A MUNDOS DIFERENTES.
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