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C 010 - DUAS PERCEPÇÕES!

BELADIA
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BELADIA

A paisagem ao nosso redor é apenas uma tela em branco! A LEITURA NOS LEVA A MUNDOS DIFERENTES. Se você curtiu esse texto e quer ler mais conteúdos assim, clique no meu nome e adicione o perfil. Nos vemos lá!

A paisagem ao nosso redor é apenas uma tela em branco!

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Conteúdo da publicação

(serie crônicas)

Era uma tarde de primavera, um entardecer de sábado. Com ventos calmos acariciando a grama, as copas das árvores dançavam em um balançar suave, criando um mosaico vivo de luz e sombra pelo parque. Acima delas, o céu exibia um espetáculo grandioso: o azul claro cedia espaço a um dourado incandescente, fundindo-se com intensas faixas de laranja vibrante e tons de lilás no horizonte. As nuvens, iluminadas de baixo para cima, ganhavam contornos de fogo e delicadas pinceladas rosadas. Cortando esse oceano de cores, bandos de pássaros revoavam em perfeita sincronia, deslizando alegremente em uma dança de despedida do dia, enquanto buscavam abrigo para a noite nos galhos mais altos.

Um senhor de 70 anos estava sentado em um banco da praça. Vestia calça e camisa sociais; no pulso, um antigo relógio de ponteiros. As rugas ao redor de seus olhos revelavam sua idade, mas não demonstravam cansaço. Ele havia, há pouco tempo, passado uma temporada internado no hospital para cuidar da saúde. Hoje, estava ali, olhando o horizonte, admirando o espetáculo do céu, o voo livre das aves e o balançar das plantas com a brisa. Estava feliz por simplesmente existir naquele instante. Logo à frente, um ipê imponente se destacava, com suas flores amarelas rodopiando ao vento, levadas por ele como em uma valsa. Próximo dali, um grupo de crianças brincava de roda e com uma bola de futebol. Riam e corriam, felizes sob os olhares atentos dos pais. O senhor, observando a cena, abriu um sorriso de nostalgia e contentamento. Era bom contemplar a vida em movimento, crescendo e se desenvolvendo; a vida em cores e sorrisos logo ali perto. Um belo dia de sábado, uma doce tarde de primavera.

A poucos metros dali, um outro senhor, também na casa dos 70 anos, ocupava outro banco. Vestia-se de forma semelhante, com calça e camisa sociais. Ele também havia passado uma temporada recente em um hospital, mas só estava na praça porque o médico lhe prescrevera banhos de sol.

A praça, para ele, era um suplício: barulhenta, cheia de crianças correndo e pais gritando os nomes dos filhos. O canto dos pássaros se recolhendo nas copas não passava de uma gritaria estridente que irritava seus ouvidos, e as árvores balançando pareciam apenas desorganizar a paisagem. O vento trazia cheiros misturados e amontoava folhas secas nos cantos, quando não as jogava longe. E aquela luz do entardecer, com o céu excessivamente colorido, não tinha encanto algum; era apenas enfadonha. Era como um carrasco trazendo a escuridão, o que, para aquele senhor, fazia o dia parecer ainda mais exaustivo. Pensou, amargurado: só faltava chover à noite para coroar mais um daqueles dias insuportáveis.

Os dois homens dividiam a mesma tarde, a mesma idade e até a mesma fragilidade de um corpo que recém deixara o leito de um hospital. Respiravam o mesmo ar e olhavam na mesma direção, mas habitavam mundos internos completamente opostos. A mesma primavera que florescia para um, murchava para o outro. No fim das contas, a paisagem ao redor é apenas uma tela em branco; a mente e a percepção são os pincéis que pintam a nossa realidade. Duas perspectivas em um mesmo cenário provam que a beleza — ou o peso — dos nossos dias nunca está naquilo que vemos, mas na forma como escolhemos enxergar.

Thoughts

  • Ovid

    O primeiro senhor feliz so por existir naquele instante, e o outro a poucos metros a contar as horas para anoitecer. Eu fico com a ideia de que o segundo tambem volta a praca amanha, mesmo que so por causa do medico, e que numa dessas tardes acaba por olhar para o ipe sem querer. Gostei muito desta cronica, @BELADIA!

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  • AmandaPeixoto

    Quem narra dá a felicidade do primeiro de graça e a amargura do segundo com receita médica. A gente sabe por que o segundo está ali e não sabe por que o primeiro está feliz, e eu fiquei desconfiando que tu deixou isso assim de propósito. Quem está contente nunca precisa explicar, quem reclama explica tudo, visse.

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  • BELADIA

    A paisagem ao nosso redor é apenas uma tela em branco!

    A LEITURA NOS LEVA A MUNDOS DIFERENTES.

    Se você curtiu esse texto e quer ler mais conteúdos assim, clique no meu nome e adicione o perfil. Nos vemos lá!

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