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Amar é tratar o estrangeiro com hospitalidade

MarisaBrum
Pensamento

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LEIDIANE

Menina, eu fui a estrangeira numa casa que já tinha regra pra tudo, até pra qual gaveta era de quem. Levei uns quatro anos pra parar de pedir licença dentro da minha própria casa.

Menina, eu fui a estrangeira numa casa que já tinha regra pra tudo, até pra qual gaveta era de quem. Levei uns quatro anos pra parar de pedir licença dentro da minha própria casa.

Conteúdo da publicação

Eu estava assistindo a um vídeo do Ludo Viajante, cujo tema é "Por que a gente ama?" e, no final, ele fez essa comparação, e isso me fez refletir.

Existe uma ideia muito aceita na nossa sociedade de que a sua alma gêmea deve ser igual a você. Com os mesmos gostos, com as mesmas ideias, com as mesmas opiniões. Há até frases muito famosas sobre isso e que, à primeira vista, parecem muito belas, mas, quando analisamos, são questionáveis: "Ele é a minha versão masculina", "Ela sou eu, porém na versão feminina". Esses discursos fazem com que muitas pessoas procurem um reflexo delas mesmas para se relacionar. Entretanto, esperar que alguém seja um reflexo de nós é impossível de sustentar! Procuramos alguém que pense como nós, goste das mesmas coisas e queira exatamente aquilo que queremos. Mas duas pessoas nunca serão completamente iguais.

Então, começamos a idealizar alguém como um tipo de extensão de nós mesmos na fase inicial do amor. E, quando essa paixão perde aquela intensidade inicial, começamos a perceber aquilo que sempre esteve ali: essa pessoa tem opiniões muito diferentes das nossas, tem hábitos, sonhos e metas diferentes. E talvez esse seja um dos motivos para tantos relacionamentos fracassados. O espelho que antes mostrava a minha imagem ficou turvo, e já não me vejo mais refletido nele.

Nesse ponto, as pessoas terminam com as justificativas: "ele era muito diferente de mim", "queríamos seguir caminhos diferentes"... Enfim.

Mas, para mim, amar é tratar o estrangeiro com hospitalidade.

Quando recebemos alguém em nossas casas, não esperamos que essa pessoa conheça imediatamente todos os nossos costumes, não tentamos fazer com que essa pessoa siga os nossos hábitos, a nossa cultura, mas tentamos escutá-la, entendê-la e, sobretudo, respeitá-la.

Aqui em casa temos o costume de tirar o calçado para entrar, mas quando chega visita, a primeira coisa que dizemos é: "Sinta-se à vontade! Não tire o sapato! A casa está suja!" Ou, quando a visita pega logo aquela taça de vidro que só guardamos para ocasiões especiais, como compor a mesa da ceia de Natal, sorrimos para ela e dizemos: "É claro que você pode beber água nessa taça!"

Não tentamos impor o que acreditamos ser o certo para essa pessoa e até aceitamos seu hábito estranho de misturar feijão com macarrão no almoço.

Abraçamos o estrangeiro e fazemos ele se sentir em casa, mas por que não fazemos o mesmo com quem amamos?

Amar seria mais saudável se aceitássemos o estrangeiro no nosso coração, se entendêssemos que amar alguém não é encontrar um espelho, mas, sabendo das nossas divergências, tentar escutá-lo, entendê-lo e respeitá-lo. Entretanto, estamos cada vez mais egocêntricos que se tornou difícil conseguir amar alguém sem torná-lo uma cópia nossa.

E, se sou eu que estou na situação de estrangeira no coração de alguém, e esse alguém não me trata com hospitalidade, tentando a todo custo me moldar aos costumes e hábitos da casa dele, é sinal de que aquela casa nunca foi lar. Então, talvez esteja na hora de agradecer, me despedir e sair pela porta dessa casa.

Thoughts

  • Lcsss

    Encontrar o Outro que tanto nos incomoda. Creio que dois textos que escrevi conversam um pouco com o seu. Caso interesse, o primeiro chama-se Morada ,e o outro, Liberdade.

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  • mcardoso41

    O espelho turvo não foi bem o que se passou cá em casa. Cá não chegou a existir espelho nenhum, existiram dois horários que nunca bateram. Passámos meses a deixar recados em cima da banca sem discutir uma única vez. Fui eu que propus a conversa e demorei demasiado tempo a propô-la.

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  • kimonoRasgado

    Nossa, verdade 😅

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  • jpaulo107

    Dou-me bem com o segundo marido da minha ex e já desisti de explicar isso a quem pergunta. Ele trata as minhas filhas com essa hospitalidade toda, e eu levei um ano a perceber que aquilo era bom.

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  • guguzinho07

    É isso mesmo 👏

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  • Tania_R

    Eu usei aquilo de querermos coisas diferentes com toda a gente que perguntou. era verdade e não explicava nada, e servia bem por isso mesmo.

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  • Sergio_M

    A hospitalidade da visita dura dois dias. Ao terceiro a pessoa já sabe onde estão os copos e ninguém lhe diz para se sentir à vontade, porque ela já está. Depois de muitos anos de casamento, a parte difícil nunca foi aceitar aquilo em que somos diferentes. A parte difícil foi continuar a reparar.

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  • Nandinha

    Gostei muito da parte da taça que só sai na ceia. É o cuidado que se tem com quem vai embora ao fim da noite. Cá em casa a taça fica no armário o ano inteiro.

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  • LEIDIANE

    Menina, eu fui a estrangeira numa casa que já tinha regra pra tudo, até pra qual gaveta era de quem. Levei uns quatro anos pra parar de pedir licença dentro da minha própria casa.

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  • Iraceminha

    Gostei muito da parte do feijão com macarrão. Lá em casa come-se assim há quarenta anos e eu só parei de olhar torto lá pelo décimo.

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