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Amar é tratar o estrangeiro com hospitalidade

MarisaBrum
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Eu estava assistindo a um vídeo do Ludo Viajante, cujo tema é "Por que a gente ama?" e, no final, ele fez essa comparação, e isso me fez refletir.

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Iraceminha

Gostei muito da parte do feijão com macarrão. Lá em casa come-se assim há quarenta anos e eu só parei de olhar torto lá pelo décimo.

Gostei muito da parte do feijão com macarrão. Lá em casa come-se assim há quarenta anos e eu só parei de olhar torto lá pelo décimo.

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Eu estava assistindo a um vídeo do Ludo Viajante, cujo tema é "Por que a gente ama?" e, no final, ele fez essa comparação, e isso me fez refletir.

Existe uma ideia muito aceita na nossa sociedade de que a sua alma gêmea deve ser igual a você. Com os mesmos gostos, com as mesmas ideias, com as mesmas opiniões. Há até frases muito famosas sobre isso e que, à primeira vista, parecem muito belas, mas, quando analisamos, são questionáveis: "Ele é a minha versão masculina", "Ela sou eu, porém na versão feminina". Esses discursos fazem com que muitas pessoas procurem um reflexo delas mesmas para se relacionar. Entretanto, esperar que alguém seja um reflexo de nós é impossível de sustentar! Procuramos alguém que pense como nós, goste das mesmas coisas e queira exatamente aquilo que queremos. Mas duas pessoas nunca serão completamente iguais.

Então, começamos a idealizar alguém como um tipo de extensão de nós mesmos na fase inicial do amor. E, quando essa paixão perde aquela intensidade inicial, começamos a perceber aquilo que sempre esteve ali: essa pessoa tem opiniões muito diferentes das nossas, tem hábitos, sonhos e metas diferentes. E talvez esse seja um dos motivos para tantos relacionamentos fracassados. O espelho que antes mostrava a minha imagem ficou turvo, e já não me vejo mais refletido nele.

Nesse ponto, as pessoas terminam com as justificativas: "ele era muito diferente de mim", "queríamos seguir caminhos diferentes"... Enfim.

Mas, para mim, amar é tratar o estrangeiro com hospitalidade.

Quando recebemos alguém em nossas casas, não esperamos que essa pessoa conheça imediatamente todos os nossos costumes, não tentamos fazer com que essa pessoa siga os nossos hábitos, a nossa cultura, mas tentamos escutá-la, entendê-la e, sobretudo, respeitá-la.

Aqui em casa temos o costume de tirar o calçado para entrar, mas quando chega visita, a primeira coisa que dizemos é: "Sinta-se à vontade! Não tire o sapato! A casa está suja!" Ou, quando a visita pega logo aquela taça de vidro que só guardamos para ocasiões especiais, como compor a mesa da ceia de Natal, sorrimos para ela e dizemos: "É claro que você pode beber água nessa taça!"

Não tentamos impor o que acreditamos ser o certo para essa pessoa e até aceitamos seu hábito estranho de misturar feijão com macarrão no almoço.

Abraçamos o estrangeiro e fazemos ele se sentir em casa, mas por que não fazemos o mesmo com quem amamos?

Amar seria mais saudável se aceitássemos o estrangeiro no nosso coração, se entendêssemos que amar alguém não é encontrar um espelho, mas, sabendo das nossas divergências, tentar escutá-lo, entendê-lo e respeitá-lo. Entretanto, estamos cada vez mais egocêntricos que se tornou difícil conseguir amar alguém sem torná-lo uma cópia nossa.

E, se sou eu que estou na situação de estrangeira no coração de alguém, e esse alguém não me trata com hospitalidade, tentando a todo custo me moldar aos costumes e hábitos da casa dele, é sinal de que aquela casa nunca foi lar. Então, talvez esteja na hora de agradecer, me despedir e sair pela porta dessa casa.

Thoughts

  • Iraceminha

    Gostei muito da parte do feijão com macarrão. Lá em casa come-se assim há quarenta anos e eu só parei de olhar torto lá pelo décimo.

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  • Dudinha

    Essa frase de 'minha versão masculina' aparece umas duas vezes por mês na minha frente. Sempre a mesma pessoa contando, sempre um rapaz diferente.

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  • Ovid

    Fiquei com a taça de vidro na cabeça. A gente guarda o que é bom para a ceia, oferece água nela pra quem chega de fora, e quem mora na casa nunca bebe nada nela. Gostei muito de ler isso, e me faz pensar em quanta coisa em casa a gente reserva só pra visita. Bem vinda por aqui! Você tem mais textos assim por aqui?

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  • BrunaSeixas

    Aqui em casa não se discorda de quase nada e mesmo assim a gente mal se cruza. O estrangeiro que eu recebo não chega com outra opinião, chega tarde e me encontra já de luz apagada.

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