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A Fome que Devora a Fé - Parte 1

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Pensamento

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ideia1922

O enquadramento de Pietà, ao vivo e com a inimiga no lugar da Virgem, é o momento mais duro do capítulo. Desconfio que o homem armado não caiu sozinho: alguém de Omni Opus preferiu derrubá-lo a deixar um mártir na tela.

O enquadramento de Pietà, ao vivo e com a inimiga no lugar da Virgem, é o momento mais duro do capítulo. Desconfio que o homem armado não caiu sozinho: alguém de Omni Opus preferiu derrubá-lo a deixar um mártir na tela.

Conteúdo da publicação

1 de setembro

Nas escrituras sagradas de Omni Opus, religião e nome da nação eram uma coisa só. Entre seus textos mais antigos, uma profecia era repetida havia séculos:

Se o Oito Sagrado de Ouro quebrar suas asas, Omni Opus será destruída pela própria fé cega.

Naquele dia, toda a nação estava diante das telas.

As transmissões mostravam Mãe Ceres em um campo de trigo, cercada por trezentos refugiados de Arcadia. Ao redor deles, tanques de guerra ocupavam a paisagem. Soldados armados vigiavam cada movimento, enquanto equipes de televisão registravam tudo em tempo real.

Omni Opus esperava uma chacina.

Uma hecatombe.

Corpos espalhados pelo trigo, sangue manchando a terra e Mãe Ceres revelada, enfim, como a criatura monstruosa que seus governantes haviam descrito durante gerações.

Era isso que as pessoas esperavam ver.

Mas as câmeras mostraram outra coisa.

Comida.

Água.

Atendimento médico.

Os trezentos refugiados recebiam cuidados enquanto soldados armados permaneciam ao redor deles. Não havia execuções, gritos de agonia ou ordens para abrir fogo. Havia médicos trabalhando, pessoas distribuindo alimentos e crianças que, pela primeira vez em muito tempo, podiam comer sem precisar disputar os restos com os próprios companheiros.

Mãe Ceres dividia o pão.

Uma criança pequena, suja e faminta, aproximou-se dela com um pedaço de pão nas mãos. Tinha o rosto encardido, os cabelos emaranhados e as roupas endurecidas pela poeira. Caminhava com a hesitação de quem aprendera cedo demais a desconfiar de qualquer gesto de bondade.

Mãe Ceres se abaixou e a tomou nos braços, acomodando-a no colo.

A sujeira grudou em seu véu. As pequenas mãos deixaram marcas nas vestes que, até então, permaneciam imaculadas.

Ela não se importou.

Não recuou diante do cheiro, não demonstrou repulsa, tampouco tentou afastar a criança para preservar a própria aparência. Apenas a acolheu, como se aquele pequeno ser, coberto de miséria, fosse um cidadão de Ceres recebido de volta à sua casa.

A criança continuou comendo.

E Mãe Ceres permaneceu ali, sustentando-a nos braços.

Em Omni Opus, ninguém sabia o que fazer com aquela imagem.

A nação que a odiava profundamente, que havia transformado sua cidade em inimiga declarada e promulgado incontáveis decretos contra seus interesses, assistia à sua maior adversária oferecer aquilo que seus próprios princípios religiosos afirmavam defender.

A misericórdia.

Omni Opus jamais firmara acordos econômicos com Ceres. O antagonismo não era apenas político: era uma questão de fé, identidade e poder. Para seus governantes, a existência de Ceres representava uma afronta à ordem sagrada.

O ódio chegara ao extremo quando Omni Opus derrubara a estação espacial CERES I, acusando-a de blasfemar contra o Oito Sagrado.

As armas utilizadas naquela operação haviam sido fornecidas secretamente por Arcadia. Os dois países compartilhavam o mesmo inimigo e acreditavam que, eliminando Ceres, também eliminariam aquilo que ela representava.

Agora, os refugiados de Arcadia estavam sendo alimentados justamente pela mulher que seus próprios aliados haviam enviado para morrer.

A ironia era grande demais para caber nas narrativas oficiais.


Os trezentos refugiados não haviam chegado ali por acaso.

Tudo fora planejado para transformar o campo de trigo em um espetáculo de condenação. Os refugiados seriam usados como armadilha: Mãe Ceres deveria executá-los, ou ao menos reagir com a violência que Omni Opus esperava atribuir a ela.

As equipes de televisão haviam sido convocadas para registrar o acontecimento. A transmissão ao vivo garantiria que nenhuma versão alternativa pudesse competir com as imagens.

O plano era simples.

Provocar uma tragédia, apontar as câmeras e entregar ao continente uma vilã.

E, se Mãe Ceres demonstrasse misericórdia, melhor ainda. A humilhação pública poderia ser explorada de outras maneiras. Seus inimigos estavam preparados para interpretar qualquer gesto como fraqueza, manipulação ou encenação.

Não haviam considerado a possibilidade de que ela simplesmente não quisesse matar aquelas pessoas.

Afinal, quinhentos anos de história haviam ensinado aos povos daquele continente a reconhecer a crueldade sob inúmeras justificativas. As guerras mudavam de nome, os governantes trocavam de rosto e os discursos adquiriam novas palavras, mas a necessidade de fabricar monstros continuava intacta.

A diferença entre a crueldade de quinhentos anos atrás e a do presente era que, agora, podíamos vê-la em cores, ao vivo e em alta resolução.

E Omni Opus estava vendo.


Nas casas, nos estabelecimentos comerciais e nas praças públicas, as pessoas permaneciam imóveis diante das telas.

Algumas choravam.

Outras apertavam os punhos, incapazes de conciliar o que viam com aquilo em que haviam sido ensinadas a acreditar.

Havia ódio, devoção e admiração, tudo misturado em uma confusão que ninguém ousava confessar em voz alta.

Era possível odiar Mãe Ceres e, ainda assim, desejar que ela continuasse alimentando aquela criança.

Era possível considerar Ceres uma blasfêmia e sentir vergonha ao perceber que sua inimiga oferecia aos famintos aquilo que a própria nação não lhes oferecera.

A fé não desaparecia. Era mais complicado do que isso.

Ela começava a entrar em conflito consigo mesma.

Então, um homem se levantou entre os refugiados.

No início, sua presença não chamou a atenção. Era apenas mais um homem entre trezentos sobreviventes, alguém que poderia estar procurando água, tentando se aproximar dos médicos ou buscando um lugar para se sentar.

Mas ele estava armado.

Sacou a arma e apontou diretamente para Mãe Ceres.

Ela ainda segurava a criança.

Por um instante, ninguém compreendeu o que estava acontecendo. Os operadores de câmera ajustaram o enquadramento, os soldados começaram a se movimentar e os refugiados próximos ao homem recuaram, tomados pelo pânico.

Mãe Ceres viu a arma.

E se colocou diante da criança.

Não houve discurso. Nenhuma ordem. Nenhuma tentativa de negociar com o homem.

Apenas um movimento.

Ela protegeu a pequena criatura com o próprio corpo e ergueu uma das mãos na direção do cano, como se um gesto tão simples pudesse deter uma bala.

O pão ainda estava nas mãos da criança.

O véu de Mãe Ceres estava sujo. Suas vestes, antes imaculadas, carregavam as marcas dos dedos pequenos que haviam se agarrado a ela.

As câmeras registraram tudo.

A mulher que Omni Opus queria ver como um monstro estava prestes a morrer protegendo uma criança refugiada.

O disparo pareceu inevitável.

As pessoas diante das telas prenderam a respiração.

Naquele instante, Mãe Ceres morreria ao vivo.


Mas o tiro não aconteceu.

O homem começou a cair.

Primeiro, seus joelhos cederam. Depois, seu corpo tombou sobre o campo de trigo, desaparecendo parcialmente entre as hastes douradas.

A arma escapou de sua mão.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

Mãe Ceres colocou a criança no chão, certificou-se de que ela estava afastada e correu até o homem.

Ajoelhou-se ao lado dele e o tomou nos braços, sustentando sua cabeça e seu corpo como se tentasse impedir que a própria terra o reclamasse.

A cena, enquadrada pelas câmeras, lembrava uma Pietà.

Mas não havia um filho morto nos braços de uma mãe.

Havia um homem que acabara de tentar matá-la.

— Não... Não, meu filho. Viva!

A voz de Mãe Ceres rompeu o silêncio.

Ela apertou o homem contra si, procurando alguma resposta em seu rosto. A mão que, segundos antes, se erguera para deter uma bala agora tentava amparar aquele que a dispararia.

Então, ela ergueu os olhos.

— Amós! Amós, faça alguma coisa!

Amós chegou depressa e se ajoelhou ao lado dos dois. Verificou a condição do homem e iniciou as manobras de reanimação, pressionando-lhe o peito enquanto gritava por assistência médica.

Os profissionais que atendiam os refugiados interromperam o que faziam e correram até eles. Um deles assumiu os procedimentos, enquanto outro preparava os equipamentos necessários.

Mãe Ceres não se afastou imediatamente.

Continuou ajoelhada no trigo, observando os médicos trabalharem sobre o corpo daquele homem.

O homem que apontara uma arma para ela.

O homem que poderia tê-la matado diante de todo o continente.

Os refugiados assistiam à cena, assustados e confusos. Alguns tentavam entender o que havia acontecido; outros procuravam se afastar, temendo que novos disparos se seguissem.

As câmeras continuavam ligadas.

Em Omni Opus, milhões de pessoas testemunhavam algo para o qual não possuíam uma narrativa pronta.

A mulher que deveria morrer acabara de correr para socorrer seu assassino.

A inimiga da nação chamara um homem armado de meu filho.

E ninguém sabia por quê.

Naquele momento, as escrituras sagradas de Omni Opus não ofereciam respostas. Seus sacerdotes não tinham uma interpretação preparada, seus governantes não dispunham de um pronunciamento convincente e seus comentaristas não conseguiam transformar aquela cena em uma vitória ideológica.

O campo de trigo permanecia diante de todos.

Os tanques continuavam ali.

Os soldados ainda carregavam suas armas.

E, no centro de tudo, médicos tentavam salvar a vida de um refugiado enquanto Mãe Ceres aguardava, ajoelhada na terra, com as vestes sujas pela criança que alimentara.

A transmissão prosseguia.

O continente inteiro assistia.

E, pela primeira vez naquele dia, Omni Opus não sabia em quem acreditar.

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Thoughts

  • Gumercindo

    Rapaz, o cinegrafista ajeitando o enquadramento com a arma apontada pra ela. Filme nenhum que eu vi tinha essa frieza.

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  • ideia1922

    O enquadramento de Pietà, ao vivo e com a inimiga no lugar da Virgem, é o momento mais duro do capítulo. Desconfio que o homem armado não caiu sozinho: alguém de Omni Opus preferiu derrubá-lo a deixar um mártir na tela.

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