Dá pra perceber que a meritocracia é só uma história bem contada
pra manter a gente correndo atrás do vento.
O suor dos que ralavam escorre como lama pelos dedos calejados,
enquanto os nascidos com a chave de ouro
abrem todas as portas sem nunca sujar as mãos.
A gente nasce sem mapa,
aprende cedo que o esforço é moeda falsa
que não compra nem o pão de ontem.
Eles nascem com o caminho traçado,
herdam o atalho, o sobrenome, o sorriso que convence.
A gente quebra a coluna carregando tijolo,
sonha com uma casa que nunca vai ser nossa.
Eles assinam um papel e o prédio já tem o nome deles.
A gente engole o orgulho até virar azia,
estuda de madrugada, abre mão de tudo,
e ainda ouve que “faltou garra”.
Eles tropeçam pra cima,
caem em redes de segurança tecidas por gerações.
No fim, a culpa cai no nosso colo
como poeira que nunca sai da roupa.
E a gente continua acreditando
que um dia o suor vai valer alguma coisa.
Mas o suor só vira lama.
E as portas continuam fechadas
para quem não nasceu com a chave na mão.