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36º Capítulo/OS MISTÉRIOS DO ACASO / A Graça

Pietrodeluccapoeta777
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36º Capítulo

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Ovid

A viagem de sábado à praia lavando tudo e, poucos dias depois, a chuva de verão que passa: me fez pensar que esses dois só conseguem ficar bem longe da empresa. Aposto que se a conversa sobre o golpe acontecer, vai ser de novo perto do mar e não nos corre

A viagem de sábado à praia lavando tudo e, poucos dias depois, a chuva de verão que passa: me fez pensar que esses dois só conseguem ficar bem longe da empresa. Aposto que se a conversa sobre o golpe acontecer, vai ser de novo perto do mar e não nos corredores. Trinta e seis capítulos e a gente ainda torcendo por eles!

Conteúdo da publicação

36º Capítulo

A Graça

___________________________________________

Este capítulo traz uma densidade psicológica impressionante: da euforia do passeio no mar para a dura realidade que Narciso terá que enfrentar — a financeira e a do orgulho masculino —, criando um dos momentos mais humanos e honestos desta obra. Narciso, pela timidez, terá uma grande dificuldade em se abrir e falar sobre sua crise material, optando pelo silêncio e pelo recolhimento ao risco de ficar exposto e vulnerável. É um quadro perfeito de como a falta de comunicação se alimenta daquilo que faltou ser dito.

O título “A Graça” encontra sua justificativa no desenvolvimento. Narciso poderia terminar o capítulo revoltado, ressentido ou acusando Helena. Em vez disso, ele tenta reconhecer aquilo que recebeu da relação: amor, carinho, corpo, tempo, amizade e inspiração.

Helena ficou triste, entendeu o afastamento do Poeta como desinteresse; já ele teve a mesma percepção e enxergou a reação dela como total indiferença. É como se tivesse sido um "chumbo trocado" reincidente entre ambos, mas agora sob a ótica da maturidade e da aceitação da Graça Divina. Isso eleva a crise material a um patamar espiritual, onde tudo o que foi vivido — inclusive as dores — será recebido como uma dádiva que não se cobra.

Olhando de fora, é uma realidade densa e complexa, muitas vezes até dolorosa de se admitir, mas os altos e baixos nos acompanham e persistem com uma força quase magnética na continuidade daquele relacionamento.

Passada aquela euforia da viagem de sábado à praia, onde as águas pareciam ter lavado todas as impurezas e mágoas, Narciso começou a baquear e a sentir os primeiros sinais de que aquela calmaria inata tinha sido passageira. Ele sentia na alma e com o coração apertado que, apesar de Helena ter revelado todo o seu íntimo e feito declarações lindas sobre as saudades que sentia e o quanto gostava dele, tudo fora meramente superficial — como uma chuva de verão.

Como tantas outras tempestades, aquela veio rápida, lavando tudo o que estava pela frente, mas logo se dissipou no horizonte, fazendo com que aquele amor perdesse de novo a sua força, mas agora com cheiro de despedida. Helena estava, dia após dia, demonstrando um comportamento que entristecia o Poeta. Suas atitudes cotidianas, o seu humor oscilante, o seu jeito arredio e as suas maneiras frias vinham deixando Narciso muito chateado, praticamente o empurrando para o afastamento. Ele estava aborrecido e completamente cheio de dúvidas.

Afinal de contas, até aquele momento ela era e continuava sendo o seu grande amor e a musa de sua vida; esquecê-la ou simplesmente arrancá-la do peito subitamente seria uma tarefa impossível para a sua alma de escritor. No entanto, ele tinha que tomar uma decisão o mais breve possível, porque viver daquele jeito, em meio aos espinhos, estava sendo uma clara demonstração de masoquismo.

Para piorar, o emocional e o cotidiano de Narciso estavam severamente castigados por momentos difíceis em outras áreas de sua vida. Ele passava por uma fase de grande turbulência, inclusive a financeira, o que o obrigou a ser econômico e a realizar uma contenção drástica e rigorosa de gastos. Com a corda no pescoço e o orçamento apertado, os hábitos do casal inevitavelmente mudaram de forma drástica. Aqueles jantares, passeios e saídas constantes que alimentavam a leveza do romance desapareceram; eles quase já não saíam mais.

Narciso, embora fosse um homem de mente aberta, expansivo e moderno, trazia consigo o peso de um orgulho silencioso. Via-se profundamente constrangido e humilhado em ter que sentar com Helena Dolly para falar abertamente sobre as dificuldades materiais que estava atravessando e sobre os demais problemas que se agigantaram ao seu redor. Sem alternativa, foi obrigado a mudar a sua rotina por completo, recolhendo-se em seu próprio canto e passando a impressão de que "pulou do barco".

Por consequência desse isolamento forçado, a sua rotina com Helena Dolly foi ficando cada vez mais restrita, limitada apenas aos horizontes cinzentos da empresa. O relacionamento, privado do oxigênio dos momentos a sós e dos sorrisos despretensiosos, foi se definhando de forma agonizante e sufocante.

Naquela fase, a ligação entre os dois parecia estar acabando aos poucos, em doses homeopáticas e imperceptíveis — como um conta-gotas, como a areia que escapa por entre os dedos. Porém, não estava nos planos ou no programa original de Narciso terminar aquele romance de forma tão melancólica e esdrúxula; sem sombra de dúvidas, colocar um ponto final naquele momento seria algo extremamente penoso e doloroso para o seu coração. Consciente de si, o escritor, com os pés fincados na realidade, sabia que teria que terminar com a dignidade que sempre teve. Os meios para salvar a relação pareciam ter se esgotado por completo.

Afinal, Helena era uma mulher vivida, cabeça feita, dona de uma personalidade forte e convicta. Narciso sabia muito bem que, na prática, a chave tinha virado: implorar por atenção ou suplicar por migalhas de afeto não iria comovê-la nem adiantar absolutamente nada.

Por incrível que pareça, além de não ferir ainda mais a sua dignidade diante do iminente fim, ele só tinha motivos para agradecer a essa doce, linda e meiga criatura que, compreensivelmente, foi muito gentil e generosa durante o tempo em que caminharam juntos, cedendo a ele o seu amor sincero, o calor do seu corpo, o aconchego do seu carinho, o valor do seu tempo, a lealdade da sua amizade e, acima de tudo, a força de sua inspiração literária.

Sentado em sua mesa de trabalho, Narciso raciocina com maturidade e pondera a intensidade do seu querer. Dentro de sua simplicidade nata, sempre procurou tomar o rumo certo nas curvas da existência, mas tinha consciência de que nem tudo é perfeito ou está no trilho exato nesta nossa caminhada terrena. A crise financeira o detonou; foi uma implosão sem remédio que o abatia — uma realidade nua e crua. Aquela queda brusca em seus rendimentos o forçou a cortar na carne qualquer gasto supérfluo e a dar um tempo indeterminado nas diversões.

O grande erro do Poeta foi o silêncio. Ele não comunicou esse fato a Helena. Embora fosse uma pessoa expressiva, não conseguiu se abrir com ela; não se sentiu à vontade para confessar que tinha sido vítima de um grande golpe e que a sua situação financeira estava péssima. A consequência foi imediata: a impressão que dava para Helena, que via apenas o afastamento físico do homem, era a de que ele simplesmente não queria mais nada com ela. E por essa exata falta de comunicação, Helena Dolly mantinha-se completamente distante e indiferente.

Quando se cruzavam nos corredores, ele parecia um estranho perto dela, e o peso desse gelo o deixava imensamente entristecido.

Mas Narciso, independentemente de qualquer fator externo, crise ou distância, amava profundamente a sua musa. Guardava no peito a certeza absoluta de que, em qualquer dia ou época futura, ela teria a imensa satisfação de saber, na íntegra e sem rasuras, a verdadeira intensidade daquele querer. E, claro, se a decisão dela fosse o afastamento definitivo, seria respeitada, como sempre foi. Como tudo no universo tem a sua hora certa e o seu momento exato para acontecer, os dias bonitos vividos pelo casal jamais serão esquecidos ou apagados pelo tempo, porque o amor verdadeiro e a paixão avassaladora ainda estavam presentes, latentes e profundamente plantados na alma do Poeta.

Consciente de todas as facetas da realidade, embora sofresse com a previsão da dor da separação, ele pensava que talvez fosse a decisão mais sensata. Ficar por ficar, mantendo uma relação de aparências por mera conveniência, não faria o menor sentido, já que o amor perdera o brilho, a vida e a alegria; acima de tudo, seria um cotidiano tedioso e insustentável para os dois.

Passados alguns dias desse calvário silencioso, Narciso acordou em uma manhã ensolarada um tanto pensativo e com o pensamento fixado firmemente na imagem de Helena Dolly. Passava as horas imaginando todas as hipóteses possíveis para aquele impasse — afinal, ninguém é dono de ninguém no mundo e nesta vida terrena tudo é perfeitamente possível.

Somos todos seres passivos e expostos a todas as agruras, fatalidades e felicidades que a existência oferece, dependendo exclusivamente do merecimento de cada um de nós.

Que dureza para o Poeta! Todos esses fatores acumulados — a falta de dinheiro, o orgulho ferido e a iminência da perda — vinham causando um choque em seu sistema nervoso. Ultimamente, andava com os nervos à flor da pele, totalmente minado pelo estresse. Tudo, por mais ínfimo que fosse o detalhe, gerava uma incômoda irritabilidade. E quando finalmente se acalmava e colocava as ideias no lugar, mal conseguia acreditar que, na prática, já estava sem a sua amada ao lado.

Contudo, o Poeta, por tudo o que é, por tudo o que foi em sua trajetória e por tudo o que possui de bom no coração, reconhecia-se como um homem profundamente abençoado por Deus. Em sua juventude e em tempos passados, já havia sido um galanteador, teve muitas paixões intensas e muitos amores marcantes, mas nenhum deles havia sido tão avassalador, maduro e semelhante ao que sentia por Helena. Ela, sem sombra de dúvidas, havia ido muito além de qualquer expectativa que ele ousara projetar.

Para o Poeta, a complexidade dessa realidade era imensa. Helena, ao mesmo tempo em que podia estar inteiramente com ele, às vezes parecia não poder, dividida entre seus fantasmas e obrigações familiares. Isso fazia com que o escritor enfrentasse uma caótica confusão de pensamentos. No entanto, em meio ao caos em sua mente, ele escolheu enxergar tudo o que vivera como uma autêntica Graça Divina. Afinal, as maiores riquezas da vida nós recebemos do Criador sem precisar pagar um único centavo, e nos doamos aos que amamos sem nada cobrar em troca.

Foi com esse espírito de pura gratidão, leveza e conexão com o sagrado que Narciso, o Poeta, sentou-se para escrever a poesia intitulada “A Graça”. Ele mentalizou com força que as dádivas divinas têm o seu preço invisível, que se chama merecimento, mas a sua distribuição é inteiramente gratuita. Conforme o tema que transbordava de sua alma…

…A Graça…

_______________

Dívidas com o teu irmão

As palavras que ganhaste de graça

E que graça tem

Guardar para ti

A graça

Ganhada de graça?

Dividir a graça

Não é só na teoria

*

O fato consumado da graça

Está na beleza

De externar o amor

A bondade, a irmandade

Que certamente

Vai saciar a fome

De qualquer espírito

*

Agradeça a graça

E de graça

Passe a graça

Sem egoísmo

Porque não tem graça

Parar a graça,

Não tenha vergonha

Pois como a água

*

Quanto mais graça passar

Mais graça tu receberás

Porque

O que fundamentaliza a graça

Tanto na vida material

Quanto na rotina espiritual,

É a lei da recíproca

Pela graça

E com muita graça….

____________________

Ass. Narciso "O Poeta"

Mesmo no marasmo das dificuldades financeiras e no silêncio dos desentendimentos, o Poeta compreendeu que o amor por Helena não era uma transação comercial, mas uma dádiva espiritual. A verdadeira graça não reside em possuir o outro, mas em ter sido digno de partilhar a vida, o corpo e a poesia com a Pérola do Encanto — essa foi a luz que focou o casal na lucidez do prazer!

ENQUETE DOS MISTÉRIOS DO ACASO:

Narciso agiu certo em esconder seus problemas financeiros de Helena Dolly?

Deixe seu voto e sua opinião sincera nos comentários abaixo:

[ Opção 1 ] Sim! O homem precisa manter sua dignidade e resolver seus problemas antes de sobrecarregar a mulher que ama.

 

[ Opção 2 ] Não. O silêncio dele foi o grande culpado pela indiferença dela; se ele tivesse se aberto, ela poderia ter sido sua parceira na crise.

 

[ Opção 3 ] Isso mostra que o relacionamento deles ainda carecia de total confiança, provando que o amor espiritual precisava passar por esse teste.

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Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.

________________________________

@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

Athelier das Letras - Selo 444

opoetalk520.substack.com

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Thoughts

  • LeandroPocas

    Contei a enquete ao balcão e ficou dois a um para a opção 1, com o dono da tasca a jurar que homem não chora dinheiro à mesa!

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  • Rui_Salgueiro

    Opção 2. O golpe era a primeira coisa a contar, antes do resto. E quem foi que o enganou, ainda vamos saber?

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  • Ovid

    A viagem de sábado à praia lavando tudo e, poucos dias depois, a chuva de verão que passa: me fez pensar que esses dois só conseguem ficar bem longe da empresa. Aposto que se a conversa sobre o golpe acontecer, vai ser de novo perto do mar e não nos corredores. Trinta e seis capítulos e a gente ainda torcendo por eles!

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  • Oliviamar

    Opção 2. Sem dúvida.

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