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Os Mistérios do Acaso - Capítulo 13

Pietrodeluccapoeta777
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​Existe um instante preciso, suspenso no tempo, onde a palavra cansa de ser escudo e o silêncio passa a ser convite. É a véspera do encontro. Até aqui, Narciso e Helena moveram-se como dois astros…

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Conteúdo da publicação

13º Capítulo

OS MISTÉRIOS DO ACASO

O Desejo, a Dúvida e o Embate dos Humanos!

A Fronteira Invisível do Sentir

​Existe um instante preciso, suspenso no tempo, onde a palavra cansa de ser escudo e o silêncio passa a ser convite. É a véspera do encontro. Até aqui, Narciso e Helena moveram-se como dois astros em órbitas desalinhadas: ele, munido da persistência solar de quem crê na exclusividade da alma; ela, protegida pela névoa fria de quem já viu o inverno se repetir várias vezes.

​O embate dos humanos não se dá pela força, mas pela vulnerabilidade. Quando a mesa de uma lanchonete comum se transforma em altar de confidências, as certezas começam a ruir. A poesia de Narciso — esse manifesto de imperfeição que clama pelo direito de ser humano — opera um corte sutil na armadura de Helena. Não há mais como recuar.

​O que se desenha a seguir não é apenas o cruzamento de dois corpos, mas a matemática perfeita do desejo: os cinquenta por cento da insistência apaixonada que ara o terreno, e os cinquenta por cento da entrega lúcida que abre a porta. Antes que os lençóis testemunhem a entrega, as almas já assinaram o armistício. O poema está posto. O abismo chama. E ambos decidiram saltar.

​Um embate interessante a ser discutido: Helena ou Narciso, quem tem razão?

Até o presente momento, olhando de perto para a psicologia dos dois, ambos têm pontos muito válidos, e é exatamente por isso que o diálogo deles é tão rico e magnético.

​O lado de Helena (A Linha de Defesa): Ela não fala a partir da lógica, ela fala a partir da experiência, da cicatriz. Dizer que "todos os homens são iguais" foi um mecanismo de defesa clássico (totalmente compreensível). Generalizar o sofrimento passado é a forma que o ego encontra para tentar prever o futuro e evitar novas quedas. Se todos são iguais, ela não precisa baixar a guarda, e se não baixar a guarda, ninguém a machuca. O ponto dela é o realismo pragmático de quem já foi ferida pelo "balaio" comum dos desavisados.

​O lado de Narciso (O Manifesto da Singularidade e da exceção): Narciso traz a verdade existencial e poética. Colocar a humanidade inteira numa mesma caixa é um atentado contra a individualidade. Ele tem razão ao exigir ser visto pelo que ele apresenta, e não pelos fantasmas que outros homens deixaram no armário de Helena. Para Narciso, o amor só é possível se houver o benefício da dúvida. Porém para Helena a poesia é uma forma de andar no mundo da lua, ela não enxerga com os mesmos olhos do Poeta.

Nesse estágio da trajetória, O Poeta, expressava com a clareza cristalina o quanto desejava sua amada Helena. Independente de qualquer fato, tropeço ou silêncio, ela era, sem sombra de dúvida, o seu objetivo central de amor. Era uma fascinação sem tamanho que transformou a sua rotina; a partir daquele ponto, Narciso passou a ser, gradualmente, muito mais romântico que antes. A sua vida tornou-se mais suave, pintada com cores mais alegres, mesmo com todos os mistérios da Helena e obstáculos que surgiam. Hoje, Narciso está mais calmo e sereno, como se a compreensão começasse a reinar, soberana, em sua aura.

Helena Dolly, por sua vez, carregava o peso de decepções passadas. Para ela, os homens eram todos iguais em seus defeitos, uma crença que já havia despejado sobre Narciso em diversas conversas. Ele, no entanto, nunca aceitou essa premissa. O Poeta defendia com unhas e dentes a ideia de que cada indivíduo é um universo particular, com virtudes, atitudes e maneiras próprias de ser. Para Narciso, era um erro absurdo colocar todos na mesma caixa por culpa de alguns "desavisados" que cruzaram o caminho dela.

Certa tarde, após o expediente, o acaso (ou o destino) levou ambos à lanchonete de costume. Narciso estava concentrado, mergulhado em pensamentos, quando Helena surgiu à mesa.

— Você aqui? O que você está fazendo aqui, Narciso? — indagou ela, surpresa.

— Daqui a pouco vou embora! — respondeu ele, contido.

— Vai beber algo?

— Sim, mas aceito o mesmo que você: uma cerveja bem gelada.

— Por favor, amigo, mais uma bem gelada — pediu Narciso ao garçom.

Helena olhou para o rosto dele, estudando cada linha.

— O que foi? Por que você está com essa cara?

— Ah... Estava pensando na vida, em tudo o que você disse sobre os homens, não tiro a sua razão, porém, não me vejo igual a ninguém!

Ele continuou a contemplar o movimento da rua por uns dois minutos, até que a vontade de escrever falou mais alto. Pegou sua caneta e começou a rabiscar um rascunho no canto da mesa. Helena, tomada pela curiosidade, tentava descobrir o que ele escrevia, mas Narciso, com um sorriso de canto de boca, colocou o cardápio na frente, protegendo o seu segredo. Quando terminou, entregou-lhe o papel:

"Somos a foto do momento deste fato. A realidade é o agora, e o futuro também. O amanhã é depois, e depois já era, na era atual."

Ela leu, guardou o bilhete na bolsa e a conversa seguiu por mais 40 minutos. Narciso não admitia ser colocado naquele balaio. Ele desconsiderava a ideia de atribuir a qualidade de uma classe inteira por culpa de uma minoria. Ainda intrigado…

— Por que você sustenta essa ideia, Helena? — perguntou ele.

— Porque são, e sem exceção! Vocês, homens, são todos iguais.

— Tudo bem... Cada um pensa como quer. Se a sua forma de ver o mundo é essa, eu não posso fazer nada!

Foi quando ela deu uma ressalva, talvez para amenizar a situação e a irritação do Narciso!

— Mas você, Narciso, é especial. Existe em você ótimas qualidades que eu adoro! — cedeu ela, revelando uma mínima brecha. Palavras que ela até aquele momento não havia dito ao Poeta.

Embora o coração batesse forte por ela, Narciso foi taxativo, num momento de rara firmeza:

— Se for para ficar com esse tipo de ideia, Helena, prefiro dar um tempo. Ou você confia, ou não confia. Não sou eu quem vive cercado de mistérios e suspenses.

— Você pode dar o tempo que quiser, Narciso, mas sempre irá me procurar! — disparou ela, confiante.

— Vamos ver. Se eu disser que acabou, é porque acabou.

— Já te falei para não me deixar entrar no seu mundo da forma como aconteceu. Você não vai se livrar de mim tão cedo!

Ele não entendeu o fundamento daquilo, mas sentiu uma firmeza que o deixou pensativo. Era exatamente o que ele sonhava: estar ao lado dela. Mas qual seria o jogo dela? Ele preferiu deixar para lá e, em vez de cobrar, escreveu "Sou humano, somos humanos". Foi sua forma de mostrar que errar é humano e que ninguém está isento de cometer lapsos. Para Narciso, o homem é um produto gerado por si mesmo; uns são sensatos, outros insanos, mas a poesia é a diferença. O Poeta sabia: jamais um ser será igual ao outro, pois, no mundo, cada qual se encaixa na metade que lhe convém.

SOU HUMANO, SOMOS HUMANOS

________________________________

Pensei ter encontrado meu caminho.

Pensei.

E ofereci o meu carinho.

Não neguei, apenas

Me enganei no curso da navegação,

Pois sou humano.

Como o vampiro,

Também respiro.

Me emociono

Quando aciono meu coração.

Diferente...

Não sou de ninguém.

E o que há de desumano

Em querer ser humano?

Os valores de um Ser

Jamais serão iguais.

Pedras,

Eu não jogo,

Apenas devolvo.

Às vezes,

Eu queria, eu quis,

Algo fiz.

Mas vontade

É coisa que dá e passa.

Ouvi o som de um sax,

Pois sou humano.

O desengano

Talvez seja coisa de cigano,

De coração leviano.

Faz sentido.

A cegueira

Faz o amor verdadeiro

Caminhar sobre o formigueiro.

Há de sermos abençoados,

Perdoados.

Somos humanos!

E nunca será tarde

Para dizer:

Eu te amo.

Aprecio as belas coisas

Que a vida oferece.

Talvez não seja compreendido.

Neste compromisso

Não sou eu,

Um menino

Ou um moleque.

Quem vos diz,

Quem vos fala

É a Sra. Maturidade,

Sra. da idade,

Respeitada em qualquer tempo

E espaço.

A interpretação

Depende da visão

Que às vezes aceita,

Às vezes condena.

Somos humanos!

Fui no alvo certo,

Mas no coração errado

Porque sou humano.

________________________

Ass. Narciso "O Poeta"

O Autor.

​No geral o script tornou-se um robusto roteiro invisível entre o Poeta e Helena jazia sobre a mesa, escancaradamente aberto, como um mapa cujas coordenadas apontavam para o inevitável. Faltava pouco, quase nada, para que ambos cruzassem a fronteira final e mergulhassem naquele processo de intimidade que já não era mais uma possibilidade, mas uma necessidade latente, pulsando no ritmo acelerado de seus corações. O ar entre eles parecia denso, carregado por uma eletricidade que fazia os pelos dos braços se eriçarem, um silêncio que gritava mais alto que qualquer palavra.

​Helena emanava uma natureza incitante; sua provocação não era um artifício, mas um estado de ser, como o perfume que exala de uma flor quando a noite cai. Talvez ela tenha se contido até ali, controlando seus próprios impulsos para não causar um tumulto emocional — ou quem sabe, esse fosse, de fato, um dos grandes mistérios deste encontro: a dança de quem hesita antes de se entregar ao abismo. Sem essa contenção calculada, o Poeta e Helena já teriam zarpado em direção àquela Lua cheia de nuvens há muito tempo. No entanto, foi a insistência obstinada do Poeta que finalmente quebrou a resistência. Ele a convenceu de que ambos mereciam provar, ainda que um pequeno fragmento, daquela intensidade que eles vinham cultivando com tamanha devoção (mais ele). Negar-lhe aquele gesto seria como afastar um prato de comida de um ser faminto — mas aqui, a fome era de alma, e o alimento era o amor, esse combustível inesgotável e perigoso.

​A condução dos fatos seguiu essa geometria perfeita de desejos que se cruzam, onde o protagonismo não se perde, mas se divide equitativamente em uma simbiose absoluta. A parcela de cinquenta por cento para cada um não é apenas justa; é a única medida possível para um encontro desta magnitude.

​Os cinquenta por cento do Poeta: Representam a persistência feroz, a fome de amor que ele manifestou com a audácia de quem não teme a derrota. É a sua dedicação, quase litúrgica, que preparou o terreno, arando a terra onde o sentimento iria florescer. É o movimento vital de ida, a chama que não se apaga mesmo diante do vento contrário.

​Os cinquenta por cento de Helena: Representam o ápice do discernimento, o momento da escolha consciente. Ela abdica, naquele instante, do pedestal de musa inalcançável para se revelar como a mulher real. Ao reconhecer a legitimidade daquele sentimento e a força daquele homem, ela decide, com a serenidade de quem conhece o próprio desejo, “abrir a porta”. É o momento sublime de aceitação, onde a espera termina e o encontro, finalmente, acontece..

No próximo Capítulo, será o grande momento entre o Poeta e a Helena Dolly…

(Responda nos comentários)

*Helena afirma que 'todos os homens são iguais', enquanto Narciso defende que cada indivíduo é um universo único. Na sua experiência, você acredita que é possível superar traumas passados e enxergar alguém novo sem o peso das decepções antigas, ou a Helena tem um ponto?

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​Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.

@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

Athelier das Letras - Selo 444

opoetalk520.substack.com

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