Carregando…

Manuscrito das três faces

miguelv341
Pública 0 conversa 0 pensamento 9 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Vagantes condenados: Demônio negro

In groups

Conteúdo da publicação

Vagantes condenados: Demônio negro

Ao longo de milhares de anos, surgiram entre os humanos aberrações terríveis que trouxeram calamidades devastadoras sobre o mundo, pondo fim a muitas eras e dando início a outras. Uma raça que no passado era tratada como uma insignificante bactéria desenvolveu-se com uma velocidade tão monstruosa que, em apenas uma era, chegou a destronar deuses de suas posições divinas, encharcando o mundo em sangue e morte.

Temendo essa imensa capacidade de evolução humana, os grandes seres do passado tomaram medidas drásticas para impedir que novos monstros nascessem. Eles acorrentaram a humanidade, suprimindo-a ao ponto de que, a cada cem anos, uma horda de criaturas grotescas surgisse de fendas no espaço, dando início a um genocídio sem propósito, razão ou punição. O único motivo por trás disso era um medo agonizante e sem fim dos próprios seres que eles, um dia, já haviam tratado como escravos.

Para poder acorrentar a humanidade, os grandes seres do passado tiveram que renunciar às suas próprias existências, sacrificando-se para criar as correntes que hoje aprisionam os homens como cães. Essa decisão, embora terrível, foi motivada por um desespero profundo em conter o potencial destrutivo da raça humana, que havia se tornado uma ameaça tão poderosa quanto os próprios deuses.

Eles haviam perdido a esperança há muito tempo, cansados de esperar por um amanhecer que parecia nunca chegar. Aqueles que outrora rezavam pela luz da salvação agora constatavam, com amargura, que essa mesma luz havia trazido apenas trevas e sofrimento para suas vidas. Ironicamente, os seres a quem imploravam por redenção eram os mesmos que lhes infligiam a maior dor.

Após anos de súplicas sem resposta, um novo caminho precisava ser encontrado. Dizia-se que, se não se pode vencer o inimigo, é melhor se juntar a ele. Dessa semente de pensamento, um demônio de ódio e rancor brotou, alimentado pela condenação imposta por aqueles a quem odiava.

Subitamente, um grito desesperado rasgou o ar:

— Papai! Socorro!

O pai, tomado por um desespero avassalador, reuniu todas as suas forças e correu em direção ao filho. Quando finalmente se aproximou, o sangue jorrando em seu rosto o fez parar, paralisado de horror. Sua criança, agora uma mera carcaça, servia de brinquedo para a criatura, que a manipulava com a mesma indiferença de um garoto brincando com a comida.

A dor e a impotência diante daquela cena dilaceravam o coração do pai, incapaz de salvar seu filho daquele destino cruel. Sua alma encheu-se de um desejo ardente por vingança, uma sede de retribuição que o consumia por dentro. Naquele momento, o homem que buscava desesperadamente a luz da salvação deu lugar a um ser movido pelo ódio.

Sua mente esvaziou-se da razão, dando lugar a uma raiva cega. No entanto, uma atitude guiada por tal fúria só serviu para encurtar sua já baixa expectativa de vida. Cego pela ira, o homem agiu imprudentemente e teve seu corpo empalado pelo braço da criatura.

Seu corpo, tenso e trêmulo, estava prestes a ser completamente dilacerado. Conforme sua visão embaçava e seus batimentos cardíacos desaceleravam, a queda de sua pressão arterial acentuava-se. Sua pele esfriava e suas unhas escureciam enquanto seus órgãos lutavam para manter as funções vitais. Nos últimos momentos, a audição começou a falhar, deixando-o ainda mais isolado no limiar da morte.

No instante final, o homem moribundo vislumbrou algo surpreendente. Uma figura vestida com um sobretudo preto e um capuz que ocultava seu rosto aproximou-se. O ser parou ao lado de seu corpo, dirigiu-lhe o olhar e, ajoelhando-se, proferiu palavras de conforto:

— Vossa alma já pode encontrar a luz e descansar. Daqueles à frente, eu cuido — disse a figura, estendendo a mão para o homem em seus últimos suspiros.

Os olhos da criatura brilhavam com uma sombria curiosidade enquanto brincava com os restos da criança. Subitamente, percebeu a presença da entidade vestida de negro, que emanava uma aura poderosa e sinistra.

— Accipe manum mortis et sequere eam ut amicus vetus — suas palavras ecoaram pelo ar.

Ao ouvir aquele chamado, a criatura parou abruptamente. Seu corpo todo tremeu de pavor e ela assumiu uma postura defensiva, como um animal acuado pronto para atacar.

— O que há de errado, cachorrinho? Há pouco você não estava se divertindo com o corpo? Por que parou? — a entidade indagou em tom zombeteiro.

Antes que a criatura pudesse reagir, um grande traço negro rasgou o véu entre as realidades, engolindo todas as ameaças presentes e banindo-as para a inexistência.

— Ainda não há de estar completa... Um caminho árduo me aguarda — a entidade declarou, com a voz carregada de determinação.

Os poucos cidadãos que presenciaram a cena ficaram atônitos. Finalmente, um deles aproximou-se hesitante e gaguejou:

— Co-Como podemos… agradecer ao senhor?

— Não agradeça. Eu fiz isso por mim mesmo, não por vocês — a entidade respondeu, com a expressão impassível.

— Mesmo assim! Eu o agradeço! — insistiu o cidadão, determinado a demonstrar sua gratidão.

— Faça como quiser — disse a entidade, sem dar importância.

— Senhor! Pelo menos diga seu nome, por favor! — o cidadão implorou.

— ... Eu me chamo Merlin Às Goitia Yoru no hikari.

— É... meio grande o teu nome, senhor! — o cidadão comentou, tentando aliviar a tensão.

— ... Também acho — a entidade concordou, com um leve tom de resignação.

Antes que qualquer outro questionamento pudesse ser feito, Merlin desapareceu em um piscar de olhos, deixando os sobreviventes perplexos.