35º Capítulo
Hoje… E os Mistérios do Mar
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Eis aqui o capítulo 35 que traz uma leveza visual e praticamente cinematográfica que quebra a tensão dos conflitos anteriores. O Poeta e a Helena, mais um casal de amigos irão fazer um passeio na praia, mesmo sob a garoa e o temporal da serra, para ambos funcionará como uma lavagem ritualística nas almas .
Quando o tempo abre na baixada, a dinâmica do quarteto traz uma vivacidade deliciosa para a história, culminando um abraço estático à beira-mar, onde o respeito aos antigos e às entidades do oceano mostra a profundidade espiritual de Narciso, mais ainda da Helena.
A transição da névoa da serra para a clareza da praia reflete perfeitamente o estado de espírito dos dois casais.
Helena, a pérola do encanto — como Narciso, costumava chamá-la carinhosamente em seus momentos de intimidade e pureza —, possuía uma aura densamente misteriosa para não dizer mística. Com o passar do tempo, esse magnetismo enigmático foi dando um toque absolutamente original, autêntico e inconfundível e indispensável ao romance que construíam juntos.
Ela era um “pitel”, dona de um jeito muito especial de ser; com uma presença que prendia o Poeta em sua atmosfera particular de forma completamente natural e espontânea, ironicamente parecia uma aranha que induzia o Narciso a cair na sua teia. Aquela conexão parecia brotar diretamente das profundezas mais da alma era assim alucinante, parecia memórias de outras vidas ou, quem sabe, manifestando-se através dos muitos mistérios que regem o acaso da nossa existência.
A verdade é que o sentimento era de uma força incontrolável e um imã poderoso que unia os dois. Todas as vezes em que Narciso ia trabalhar decidido a colocar um ponto final em tudo, acabar com aquele romance, bastava chegar perto de Helena, que o cara ficava mais derretido que parafina de vela acesa. Porém, aquela ideia rígida e aquele nervosismo acumulado ia embora, feito vapor d’água exposta ao calor do sol do meio-dia.
Algumas vezes ele tentou, de fato, emudecer a própria voz, mudar drasticamente as suas atitudes e erguer barreiras defensivas, mas o carisma e o pragmatismo de Helena eram tão impecáveis que acabavam fazendo com que o escritor esquecesse, de imediato, aqueles pensamentos de findar com tudo.
O Poeta trazia consigo uma certeza absoluta e íntima: aquele compromisso espiritual firmado entre os dois ainda não tinha sido totalmente concluído pelo destino. A história deles ainda estava caminhando, passando por provações necessárias, pequenos testes e turbulências cotidianas que são normais na vida de qualquer casal. No entanto, o fardo dessas incertezas pesava mais para o lado de Narciso, que simplesmente não conseguia esconder o que sentia por sua deusa grega, principalmente quando estava sob o raio da visão.
O que realmente marcou e ficou claro na trajetória entre o escritor e a sua musa foi a espontaneidade dos momentos divididos. E, para eles, os melhores dias para as escapadas e os passeios despretensiosos eram sempre aos sábados, como a memória faz questão de registrar.
Foi exatamente em um desses sábados após o expediente que os dois combinaram um passeio com os amigos Alex Williams e Márcia Karolina. O plano era simples e audacioso: de irem os quatro rumo à praia no famoso bate-volta para espairecer. Naquela manhã específica, o dia amanheceu cinzento, muito nublado, frio e com um chuvisco insistente caindo sobre a cidade.
Porém, o tempo feio não influenciou o ânimo do grupo e muito menos fez com que cogitassem o cancelamento da viagem. Dispostos e animados, subiram todos no veículo de Narciso e pegaram a estrada assim mesmo, dispostos a curtir o sábado a desafiar o inverno.
Durante o trajeto, o clima dentro do carro era de pura descontração. Seguiam brincando, contando piadas e rindo alto, enquanto a garoa fina batia no para-brisa.
Na descida da serra, a natureza resolveu mostrar sua força: desabou um temporal medonho daqueles de assustar até motoristas experientes, limitando a visibilidade e exigindo cautela. Contudo, conforme o veículo avançava e vencia os quilômetros da rodovia, o tempo foi gradativamente ficando brando. O céu começou a se limpar, revelando um céu azul fantástico, e a temperatura acabou ficando muito mais agradável e acolhedora.
Enfim, os quatros chegaram na baixada santista. Rodaram mais uns trinta quilômetros pela orla até que, já no final da tarde, o relógio marcava precisamente 16h38 —, decidiram estacionar e parar em um quiosque bem bacana à beira-mar. Ali, sentados com o pé na areia, pediram algumas cervejas bem geladas, brindaram à vida e começaram a apreciar as legítimas especiarias praianas, saboreando porções de peixes frescos, frutos do mar e outros petiscos locais.
Num clima de total e absoluta leveza, todos conversavam, trocavam confidências e sorriam abertamente. Em dado momento, impulsionado pela liberdade que o oceano transmite, Alex levantou-se da mesa e anunciou em tom brincalhão que iria molhar os pés nas espuminhas da praia. Ele estendeu a mão e levou a Márcia Karoline para acompanhá-lo naquela aventura. Um pouco ressabiada e tímida ela foi assim mesmo, com o frio que ainda soprava, ela não rejeitou o convite e caminhou lentamente com ele até a margem para observar de perto o encrespar das ondas e a imensidão do mar.
Dali a poucos minutos, o que se via eram pezinhos molhados e muitos risos ecoando longe.
Enquanto isso, Narciso e Helena permaneceram sentados no quiosque, conversando amenidades e observando ao longe a beleza imponente daquele espaço infinito. Conversa vai, conversa vem, Alex e Márcia retornaram à mesa, tomaram mais uns drinks para aquecer o corpo e, animados pelo álcool e pela descontração, voltaram para a margem para continuar a brincadeira com as ondas.
Quando Narciso desviou o olhar para a praia, tomou um susto divertido: Alex já estava com a água na altura da cintura, puxando Márcia cada vez mais para o meio do mar. Não se contentando em apenas molhar os pés, os dois perderam o equilíbrio e caíram na água com roupa, calçado e tudo, numa cena dantesca digna de cinema.
Diante do flagrante cômico, Narciso e sua amada levantaram-se rindo e caminharam também em direção à água para molhar os pés. Ali, sentindo o frescor da maré, pintou um clima de romance. Beijos calorosos e abraços apertados foram trocados com intensidade. A tarde, aos poucos, foi caindo no horizonte, o céu com tomando os tons de aquarela, quando Helena Dolly olhou para as ondas e quebrou o silêncio com uma pergunta intrigante:
— Você sabia que o mar tem dono, Narciso?
— Sim, eu sei perfeitamente — respondeu o Poeta, com serenidade. — Aprendi que é preciso pedir licença antes de entrar nele. É uma lição valiosa que herdei dos mais antigos.
— Olha só... Tá ficando espertinho e sabido, hein! — elogiou ela, com um sorriso aberto e admirado.
— Não, minha linda, isso não é esperteza, é o básico. Temos que respeitar as entidades e as forças da natureza também. O mar exige respeito.
— Que momento gostoso e maravilhoso este que estamos vivendo aqui, Narciso... Eu estou amando tudo isso de verdade, você não faz ideia do bem que isso me faz — confessou ela, encostando a cabeça em seu ombro.
— Eu também estou gostando demais, meu amor. E aproveito o ensejo de estarmos aqui para te dizer, olhando nos seus olhos, que eu te adoro imensamente, linda!
E os beijos foram rolando de forma automática, guiados pelos impulsos do prazer e da cumplicidade recém-restaurada. Muitos abraços afetuosos foram despendidos incansavelmente entre os dois, numa ternura de dimensão imensurável que fazia o mundo real parecer um sonho perfeito. No momento daquela conversa íntima, ainda com os pés submersos na água mansa, Narciso permanecia abraçado a Helena; ela estava de costas para o peito dele, e ambos contemplavam de frente a vastidão do mar.
Com os corpos colados, dividindo o mesmo calor, eles ficaram assim por uns bons minutos, estáticos, curtindo o silêncio, o quebrar das ondas e a grandiosidade do instante.
Não demorou muito para que a noite caísse em definitivo sobre a praia. Como os dois amigos estavam literalmente encharcados da cabeça aos pés, o grupo teve que procurar uma loja no comércio local para comprar algumas peças de roupa seca para que eles pudessem se trocar e se livrar do frio das vestes encharcadas. Resolvido o contratempo, os quatro caminharam calmamente pelas ruas iluminadas da cidade praiana. Visitaram alguns pontos turísticos legais, tomaram mais algumas cervejas, riram das trapalhadas do banho de roupa e cultivaram um clima de harmonia tão perfeito que, se pudessem, ficariam ali a noite inteira.
No entanto, por volta das 22h25, iniciaram a viagem de regresso do agradável passeio. Subiram a serra em segurança e chegaram bem à capital por volta de 00h30. Helena foi deixada com todo o cuidado na porta de sua residência, despedindo-se com um olhar promissor, e Narciso seguiu em direção à sua própria casa, que não ficava tão distante dali.
Naquele começo de madrugada, o corpo do escritor manifestava o cansaço natural da viagem, mas a sua mente estava em completo estado de ebulição. O cansaço não foi o bastante para fazê-lo deixar para o dia seguinte a tarefa de registrar o que havia sentido. Ele precisava urgentemente escrever o poema que havia canalizado através dos momentos mágicos vividos naquelas últimas horas.
Naquele sábado, Narciso sentiu com nitidez o quanto amava e dependia da presença de Helena. Ele fazia questão de verbalizar isso a ela, pois nunca conseguia camuflar os seus sentimentos. E o Poeta o fazia sempre que possível, repetindo com frequência e sinceridade absoluta as frases:
“Te amo, te adoro, te quero bem, você é a minha paixão”.
Feliz da vida e com a alma lavada pelas águas do mar e do afeto, Narciso sentou-se diante do papel e deu vida à poesia intitulada *Hoje*, com o pensamento totalmente fixado na imagem de sua linda Helena Dolly.
...Hoje…
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Hoje
Quando estou contigo
Me considero feliz
Talvez, pelo que fiz
Num mundo
Que condiz
Em leis escritas a giz
*
Me apeguei com calma
Em tua alma
Em tua essência,
Em teu íntimo
Que é como a brisa
Que frisa
A marca de um processo
De uma mudança,
*
Tudo muda
Quando se desnuda
A limpeza da matéria
Você, minha musa
Carismática
Na matemática do mundo
Que tudo soma
E acrescenta
Quando apresenta
A tua beleza
*
A certeza
Nos traz a grandeza
Desse amor
Que se assemelha
À beleza de uma flor…
Linda Helena Dolly.
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Ass. Narciso "O Poeta"
“A simplicidade de um sábado à beira-mar provou que, quando o amor é ditado pela alma, até as tempestades da serra abrem espaço para o sol brilhar. Narciso e Helena encontraram nas águas salgadas a purificação necessária para escreverem, juntos, mais uma página inesquecível de suas vidas”.
ENQUETE DOS MISTÉRIOS DO ACASO:
O que você achou do simbolismo do mar neste capítulo?
Vote e participe do debate literário nos comentários:
[ Opção 1 ] Perfeito! O mar funcionou como um elemento de limpeza espiritual, lavando as mágoas antigas do casal.
[ Opção 2 ] O mais bonito foi o respeito de Narciso com as entidades do mar, mostrando sua conexão com o sagrado.
[ Opção 3 ] A cena de Alex e Márcia caindo na água foi o alívio cômico perfeito para desarmar o orgulho de Helena.
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Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.
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@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
Athelier das Letras - Selo 444
opoetalk520.substack.com
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