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35º Capítulo/OS MISTÉRIOS DO ACASO / Hoje… E os Mistérios do Mar

Pietrodeluccapoeta777
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anogueira52

Boa noite. Pegar a serra debaixo daquele temporal e não desistir do bate-volta era coisa que se fazia muito, a gente ia de Fusca cheio e voltava de madrugada com areia no banco. Aposto que o Narciso nem tirou o sapato antes de sentar pro poema, meia-noite

Boa noite. Pegar a serra debaixo daquele temporal e não desistir do bate-volta era coisa que se fazia muito, a gente ia de Fusca cheio e voltava de madrugada com areia no banco. Aposto que o Narciso nem tirou o sapato antes de sentar pro poema, meia-noite e meia.

Conteúdo da publicação

35º Capítulo

Hoje… E os Mistérios do Mar

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Pietrodeluccapoetanarcisosilva é uma publicação apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se assinante grátis ou assinante pagante.

Eis aqui o capítulo 35 que traz uma leveza visual e praticamente cinematográfica que quebra a tensão dos conflitos anteriores. O Poeta e a Helena, mais um casal de amigos irão fazer um passeio na praia, mesmo sob a garoa e o temporal da serra, para ambos funcionará como uma lavagem ritualística nas almas .

Quando o tempo abre na baixada, a dinâmica do quarteto traz uma vivacidade deliciosa para a história, culminando um abraço estático à beira-mar, onde o respeito aos antigos e às entidades do oceano mostra a profundidade espiritual de Narciso, mais ainda da Helena.

A transição da névoa da serra para a clareza da praia reflete perfeitamente o estado de espírito dos dois casais.

Helena, a pérola do encanto — como Narciso, costumava chamá-la carinhosamente em seus momentos de intimidade e pureza —, possuía uma aura densamente misteriosa para não dizer mística. Com o passar do tempo, esse magnetismo enigmático foi dando um toque absolutamente original, autêntico e inconfundível e indispensável ao romance que construíam juntos.

Ela era um “pitel”, dona de um jeito muito especial de ser; com uma presença que prendia o Poeta em sua atmosfera particular de forma completamente natural e espontânea, ironicamente parecia uma aranha que induzia o Narciso a cair na sua teia. Aquela conexão parecia brotar diretamente das profundezas mais da alma era assim alucinante, parecia memórias de outras vidas ou, quem sabe, manifestando-se através dos muitos mistérios que regem o acaso da nossa existência.

A verdade é que o sentimento era de uma força incontrolável e um imã poderoso que unia os dois. Todas as vezes em que Narciso ia trabalhar decidido a colocar um ponto final em tudo, acabar com aquele romance, bastava chegar perto de Helena, que o cara ficava mais derretido que parafina de vela acesa. Porém, aquela ideia rígida e aquele nervosismo acumulado ia embora, feito vapor d’água exposta ao calor do sol do meio-dia.

Algumas vezes ele tentou, de fato, emudecer a própria voz, mudar drasticamente as suas atitudes e erguer barreiras defensivas, mas o carisma e o pragmatismo de Helena eram tão impecáveis que acabavam fazendo com que o escritor esquecesse, de imediato, aqueles pensamentos de findar com tudo.

O Poeta trazia consigo uma certeza absoluta e íntima: aquele compromisso espiritual firmado entre os dois ainda não tinha sido totalmente concluído pelo destino. A história deles ainda estava caminhando, passando por provações necessárias, pequenos testes e turbulências cotidianas que são normais na vida de qualquer casal. No entanto, o fardo dessas incertezas pesava mais para o lado de Narciso, que simplesmente não conseguia esconder o que sentia por sua deusa grega, principalmente quando estava sob o raio da visão.

O que realmente marcou e ficou claro na trajetória entre o escritor e a sua musa foi a espontaneidade dos momentos divididos. E, para eles, os melhores dias para as escapadas e os passeios despretensiosos eram sempre aos sábados, como a memória faz questão de registrar.

Foi exatamente em um desses sábados após o expediente que os dois combinaram um passeio com os amigos Alex Williams e Márcia Karolina. O plano era simples e audacioso: de irem os quatro rumo à praia no famoso bate-volta para espairecer. Naquela manhã específica, o dia amanheceu cinzento, muito nublado, frio e com um chuvisco insistente caindo sobre a cidade.

Porém, o tempo feio não influenciou o ânimo do grupo e muito menos fez com que cogitassem o cancelamento da viagem. Dispostos e animados, subiram todos no veículo de Narciso e pegaram a estrada assim mesmo, dispostos a curtir o sábado a desafiar o inverno.

Durante o trajeto, o clima dentro do carro era de pura descontração. Seguiam brincando, contando piadas e rindo alto, enquanto a garoa fina batia no para-brisa.

Na descida da serra, a natureza resolveu mostrar sua força: desabou um temporal medonho daqueles de assustar até motoristas experientes, limitando a visibilidade e exigindo cautela. Contudo, conforme o veículo avançava e vencia os quilômetros da rodovia, o tempo foi gradativamente ficando brando. O céu começou a se limpar, revelando um céu azul fantástico, e a temperatura acabou ficando muito mais agradável e acolhedora.

Enfim, os quatros chegaram na baixada santista. Rodaram mais uns trinta quilômetros pela orla até que, já no final da tarde, o relógio marcava precisamente 16h38 —, decidiram estacionar e parar em um quiosque bem bacana à beira-mar. Ali, sentados com o pé na areia, pediram algumas cervejas bem geladas, brindaram à vida e começaram a apreciar as legítimas especiarias praianas, saboreando porções de peixes frescos, frutos do mar e outros petiscos locais.

Num clima de total e absoluta leveza, todos conversavam, trocavam confidências e sorriam abertamente. Em dado momento, impulsionado pela liberdade que o oceano transmite, Alex levantou-se da mesa e anunciou em tom brincalhão que iria molhar os pés nas espuminhas da praia. Ele estendeu a mão e levou a Márcia Karoline para acompanhá-lo naquela aventura. Um pouco ressabiada e tímida ela foi assim mesmo, com o frio que ainda soprava, ela não rejeitou o convite e caminhou lentamente com ele até a margem para observar de perto o encrespar das ondas e a imensidão do mar.

Dali a poucos minutos, o que se via eram pezinhos molhados e muitos risos ecoando longe.

Enquanto isso, Narciso e Helena permaneceram sentados no quiosque, conversando amenidades e observando ao longe a beleza imponente daquele espaço infinito. Conversa vai, conversa vem, Alex e Márcia retornaram à mesa, tomaram mais uns drinks para aquecer o corpo e, animados pelo álcool e pela descontração, voltaram para a margem para continuar a brincadeira com as ondas.

Quando Narciso desviou o olhar para a praia, tomou um susto divertido: Alex já estava com a água na altura da cintura, puxando Márcia cada vez mais para o meio do mar. Não se contentando em apenas molhar os pés, os dois perderam o equilíbrio e caíram na água com roupa, calçado e tudo, numa cena dantesca digna de cinema.

Diante do flagrante cômico, Narciso e sua amada levantaram-se rindo e caminharam também em direção à água para molhar os pés. Ali, sentindo o frescor da maré, pintou um clima de romance. Beijos calorosos e abraços apertados foram trocados com intensidade. A tarde, aos poucos, foi caindo no horizonte, o céu com tomando os tons de aquarela, quando Helena Dolly olhou para as ondas e quebrou o silêncio com uma pergunta intrigante:

— Você sabia que o mar tem dono, Narciso?

— Sim, eu sei perfeitamente — respondeu o Poeta, com serenidade. — Aprendi que é preciso pedir licença antes de entrar nele. É uma lição valiosa que herdei dos mais antigos.

— Olha só... Tá ficando espertinho e sabido, hein! — elogiou ela, com um sorriso aberto e admirado.

— Não, minha linda, isso não é esperteza, é o básico. Temos que respeitar as entidades e as forças da natureza também. O mar exige respeito.

— Que momento gostoso e maravilhoso este que estamos vivendo aqui, Narciso... Eu estou amando tudo isso de verdade, você não faz ideia do bem que isso me faz — confessou ela, encostando a cabeça em seu ombro.

— Eu também estou gostando demais, meu amor. E aproveito o ensejo de estarmos aqui para te dizer, olhando nos seus olhos, que eu te adoro imensamente, linda!

E os beijos foram rolando de forma automática, guiados pelos impulsos do prazer e da cumplicidade recém-restaurada. Muitos abraços afetuosos foram despendidos incansavelmente entre os dois, numa ternura de dimensão imensurável que fazia o mundo real parecer um sonho perfeito. No momento daquela conversa íntima, ainda com os pés submersos na água mansa, Narciso permanecia abraçado a Helena; ela estava de costas para o peito dele, e ambos contemplavam de frente a vastidão do mar.

Com os corpos colados, dividindo o mesmo calor, eles ficaram assim por uns bons minutos, estáticos, curtindo o silêncio, o quebrar das ondas e a grandiosidade do instante.

Não demorou muito para que a noite caísse em definitivo sobre a praia. Como os dois amigos estavam literalmente encharcados da cabeça aos pés, o grupo teve que procurar uma loja no comércio local para comprar algumas peças de roupa seca para que eles pudessem se trocar e se livrar do frio das vestes encharcadas. Resolvido o contratempo, os quatro caminharam calmamente pelas ruas iluminadas da cidade praiana. Visitaram alguns pontos turísticos legais, tomaram mais algumas cervejas, riram das trapalhadas do banho de roupa e cultivaram um clima de harmonia tão perfeito que, se pudessem, ficariam ali a noite inteira.

No entanto, por volta das 22h25, iniciaram a viagem de regresso do agradável passeio. Subiram a serra em segurança e chegaram bem à capital por volta de 00h30. Helena foi deixada com todo o cuidado na porta de sua residência, despedindo-se com um olhar promissor, e Narciso seguiu em direção à sua própria casa, que não ficava tão distante dali.

Naquele começo de madrugada, o corpo do escritor manifestava o cansaço natural da viagem, mas a sua mente estava em completo estado de ebulição. O cansaço não foi o bastante para fazê-lo deixar para o dia seguinte a tarefa de registrar o que havia sentido. Ele precisava urgentemente escrever o poema que havia canalizado através dos momentos mágicos vividos naquelas últimas horas.

Naquele sábado, Narciso sentiu com nitidez o quanto amava e dependia da presença de Helena. Ele fazia questão de verbalizar isso a ela, pois nunca conseguia camuflar os seus sentimentos. E o Poeta o fazia sempre que possível, repetindo com frequência e sinceridade absoluta as frases:

“Te amo, te adoro, te quero bem, você é a minha paixão”.

Feliz da vida e com a alma lavada pelas águas do mar e do afeto, Narciso sentou-se diante do papel e deu vida à poesia intitulada *Hoje*, com o pensamento totalmente fixado na imagem de sua linda Helena Dolly.

...Hoje…

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Hoje

Quando estou contigo

Me considero feliz

Talvez, pelo que fiz

Num mundo

Que condiz

Em leis escritas a giz

*

Me apeguei com calma

Em tua alma

Em tua essência,

Em teu íntimo

Que é como a brisa

Que frisa

A marca de um processo

De uma mudança,

*

Tudo muda

Quando se desnuda

A limpeza da matéria

Você, minha musa

Carismática

Na matemática do mundo

Que tudo soma

E acrescenta

Quando apresenta

A tua beleza

*

A certeza

Nos traz a grandeza

Desse amor

Que se assemelha

À beleza de uma flor…

Linda Helena Dolly.

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Ass. Narciso "O Poeta"

“A simplicidade de um sábado à beira-mar provou que, quando o amor é ditado pela alma, até as tempestades da serra abrem espaço para o sol brilhar. Narciso e Helena encontraram nas águas salgadas a purificação necessária para escreverem, juntos, mais uma página inesquecível de suas vidas”.

ENQUETE DOS MISTÉRIOS DO ACASO:


O que você achou do simbolismo do mar neste capítulo?

Vote e participe do debate literário nos comentários:

[ Opção 1 ] Perfeito! O mar funcionou como um elemento de limpeza espiritual, lavando as mágoas antigas do casal.

[ Opção 2 ] O mais bonito foi o respeito de Narciso com as entidades do mar, mostrando sua conexão com o sagrado.

[ Opção 3 ] A cena de Alex e Márcia caindo na água foi o alívio cômico perfeito para desarmar o orgulho de Helena.

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Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.

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@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

Athelier das Letras - Selo 444

opoetalk520.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

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Thoughts

  • anogueira52

    Boa noite. Pegar a serra debaixo daquele temporal e não desistir do bate-volta era coisa que se fazia muito, a gente ia de Fusca cheio e voltava de madrugada com areia no banco. Aposto que o Narciso nem tirou o sapato antes de sentar pro poema, meia-noite e meia.

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  • Ovid

    Pedir licença antes de entrar no mar, dito pelo Narciso no meio de um beijo, me fez pensar em quanta gente carrega essas regrinhas herdadas dos mais velhos sem saber direito de onde vieram. Aposto que a Helena fez aquela pergunta pra testar ele, e ele passou. Dá pra ver que o poema da madrugada nasceu dali!

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  • TintaEAvesso

    Pra mim a hora mais viva é o Alex puxando a Márcia até a cintura e os dois caindo de roupa e tudo. Aposto que é disso que eles vão rir daqui a anos, mais do que do pôr do sol.

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