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28º Capítulo / A Herança das Madrugadas

Pietrodeluccapoeta777
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E assim, Narciso continuava a consultar minuciosamente o vasto arquivo de sua mente. Ele resgatava, através das estrofes e dos versos guardados, as doces lembranças vividas junto de Helena Dolly —…

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GasparRibeiro

Noventa páginas manuscritas e ainda com fôlego para mais. Dá para ver que ele escreve de madrugada e revê em voz alta, e isso é trabalho a dobrar. Aposto que a caneta do avô já anda por perto.

Noventa páginas manuscritas e ainda com fôlego para mais. Dá para ver que ele escreve de madrugada e revê em voz alta, e isso é trabalho a dobrar. Aposto que a caneta do avô já anda por perto.

Conteúdo da publicação

28º Capítulo

A Herança das Madrugadas

E assim, Narciso continuava a consultar minuciosamente o vasto arquivo de sua mente. Ele resgatava, através das estrofes e dos versos guardados, as doces lembranças vividas junto de Helena Dolly — momentos que haviam sido de pura magia, banhados por aquele grande e clandestino amor. Aos poucos, aquelas memórias fragmentadas iam aumentando de página em página, ganhando o peso do papel, dando corpo, musculatura e vida a uma história linda, de imensa valia. O que antes eram apenas encontros efêmeros nos hotéis e esquinas de São Paulo, agora se transformava em uma realidade verídica e palpável dentro das páginas do livro que ganhava forma.

Passado mais um tempo, cruzando a fronteira de madrugada em madrugada, sacrificando horas de sono e preenchendo as tardes e os dias de folga, o Poeta mantinha-se firme na redação. Ele botava tudo no papel, revivendo intensamente cada toque, cada olhar e cada palavra que, de fato, contribuiu para enriquecer aquela crônica afetiva. Quando os rascunhos manuscritos finalmente alcançaram a expressiva marca de noventa páginas, Narciso sentia no peito que a história tinha fôlego para render muito mais. Parecia que nem ele mesmo tinha se dado conta da magnitude do que estava criando; a cada revisada minuciosa que fazia, a cada leitura em voz alta no silêncio do seu quarto, uma forte energia espiritual o envolvia, transportando-o de volta no tempo. Era como mergulhar em uma realidade virtual privativa, onde o cheiro do perfume de Helena e o calor de sua pele se faziam presentes na ponta dos dedos.

Enfim, mesmo totalmente focado na construção do livro, ele não abandonava suas outras vertentes criativas. Fazia, de forma paralela, seus poemas avulsos e suas letras de música, porque essa atividade não era apenas um passatempo: era a sua própria vida, o oxigênio que mantinha sua alma respirando.

No decorrer desses dias de intensa produção, aconteceu um fato extraordinariamente interessante com Narciso, um daqueles mistérios do acaso que parecia carimbar o caminho literário que ele havia escolhido trilhar..

Numa manhã cinzenta, a caminho do trabalho, enquanto o sol ainda ensaiava os primeiros raios sobre a cidade e o relógio marcava as primeiras horas do expediente, veio-lhe uma lembrança avassaladora e nítida de seu avô. A recordação foi tão forte e profunda que o deixou visivelmente emocionado no meio do trajeto.

Naquele instante de lucidez e saudade, Narciso recordou-se de que seu avô havia sido um grande escritor em sua época, um homem que também manejara as palavras com maestria, deixando como herança muitos poemas profundos e letras de músicas que tocaram corações.

Quem sabe, no passado, também fizesse parte dos planos daquele velho mentor escrever um livro de memórias, um romance que costurasse suas vivências, mas a sua missão terrena neste plano físico havia se encerrado de forma abrupta e ele teve que partir, deixando a caneta descansar antes da hora.

Narciso sempre carregou um orgulho gigantesco de seu avô, uma honra imensa por carregar o mesmo sangue e a mesma sensibilidade artística. Aquela lembrança ancestral pairou no ar de uma forma tão densa e terna que o Poeta não conseguiu conter as lágrimas que marejaram seus olhos. Olhando para o horizonte da cidade que acordava, ele disse para si mesmo em um sussurro repleto de convicção:

— Eu sinto, no mais íntimo do meu ser, que este livro também era o grande objetivo do meu avô. Eu sei, com toda a certeza da minha alma, que ele está comigo agora, guiando os meus rascunhos. Eu vou escrever e vou lançar esta obra, completando o desejo dele e o meu, unindo nossas eras em um único propósito.

Fortalecido por essa epifania hereditária, o escritor voltou ao trabalho com um vigor renovado. Pouco tempo depois, ele deu vida a um poema de uma beleza plástica singular, que batizou com o nome de *“Arco-íris do Nosso Amor”*. Ele escreveu esses versos como quem viaja por dimensões abstratas e só compreendeu a real potência e a beleza daquela composição após lê-la e relê-la inúmeras vezes em voz alta, testando a métrica e o sentimento antes de finalmente entregá-la nas mãos de Helena Dolly.

Este poema funcionava como o espelho exato do novo momento vivido por Narciso. O dado mais bonito daquela fase era que o clima de cumplicidade e amizade entre os dois não deixava a peteca cair de jeito nenhum. Mesmo diante das críticas dela ou do abismo que separava as expectativas de ambos, Helena continuava a nutrir uma admiração genuína pelo talento dele, e o carinho que o Poeta sentia por ela permanecia intacto. Havia uma reciprocidade velada e nobre entre eles que transcendia o desejo físico.

“Arco-íris do Nosso Amor” é aquele tipo raro de poema que possui uma temperatura própria: ele começa com uma introdução gelada, quase distante; depois esfria um pouco mais diante das agruras da realidade; fica morno na transição das incertezas e, gradativamente, vai esquentando novamente até atingir uma temperatura febril, penetrando diretamente na alma do leitor atento. Para se ter uma ideia da profundidade dessa construção, basta prestar atenção nesta frase específica que o autor cravou na estrutura do texto:

“Dificuldades sempre irão pintar na faculdade que pinta a vida, como pintou no espaço o arco-íris do nosso amor!”

É necessário apenas um vislumbre de sensibilidade artística para tatear o peso contido nesse aforismo. Nada ali foi escrito por acaso ou por mero capricho estético; a frase brotou de uma forte inspiração mística. Afinal, escrever para Helena Dolly nunca foi uma tarefa simples ou banal. Ela era uma musa exigente por sua própria natureza imponente, e Narciso sempre fez questão de lhe apresentar o melhor de sua lapidação literária, o ouro refinado de seus pensamentos.

E a poesia se fez carne nas linhas rascunhadas:

… ARCO-ÍRIS DO NOSSO AMOR …

_________________________

Sabe minha linda, meu encanto

Nossa vida parece um texto

De um contexto, censurado

De um sonho surrado

Ou coisa assim,

Com sorrisos rasgados

Às vezes

Penso em maneiras

Esse excesso de querer

Às vezes,

O amor parece não entender

Penso em ir embora

Ou voltar para a escola

E seguir à todo vapor

Com essa onda de calor

*

Na verdade, o amor

É como uma estrela desconhecida

Tudo é surpresa,

E nunca se sabe

Quando vem aquele beijo

Ou aquele abraço gentil

Daquela pessoa hostil

Por esse motivo

Parece que estamos

Sempre pisando em fumaça

Sempre devagar, sempre a flutuar

Com cuidado para não naufragar

*

Não sei, mas gostaria de saber

Aonde vai dar

Essa nossa linda

E reluzente estrada

Já te fiz tantas declarações

Que parece brincadeira,

Talvez mentira

E pelo tempo

Qualquer dúvida, é nula

Em relação ao que digo,

É compreensível, ser repetitivo

Às vezes é chato

Mas o detalhe

É que não me canso

De dizer tudo que digo, e faço,

*

Até os amassos,

É com muito prazer

E muito real

Muitas redações, reflexões

Já fiz e desfiz

Muitas folhas, joguei, guardei

E às vezes rasguei

E cheguei à conclusão

Que as coisas que vem do coração

São todas sagradas

Até mesmo, para os seres inanimados

Porque somos todos iluminados

Graças a Deus

A mim e a você,

*

Ouvindo quase todas as músicas

Do momento

Me passa a impressão

Que foram feitas para nós

E acabo viajando sem limites,

De coração, expresso a você

Que sinto uma grande ternura

E um grande carinho

Não só pelo jeito de fazer amor

Mas sim, pelo modo

E como transmite ao espírito

Todo esse amor de corpo e alma

Fazendo-me crer

Que não existe

Um tempo certo

Para expressar todo esse amor

Que habita no peito

E na alma

*

Nossa vida é linda

Mas complicada

Parece piada pois,

Dificuldades

Sempre irão pintar,

Na faculdade

Que pinta a vida,

Como pintou no espaço

O arco-íris do nosso amor.

Te amo….. Helena Dolly

___________________

Ass. Narciso "O Poeta

A revelação da ancestralidade neste ponto da história eleva o livro de uma simples crônica de romance de escritório para uma verdadeira jornada de resgate espiritual. Narciso não escreve apenas para conquistar ou registrar o amor por Helena; ele escreve porque a literatura é o seu destino manifesto, uma dívida de amor com o passado e uma promessa para o futuro.

______________________

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Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.

____________________

@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

Athelier das Letras - Selo 444

opoetalk520.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

Thoughts

  • HoracioMelo

    Gostei de ficar a saber do avô. Ficou-se pelos poemas e nunca chegou a fazer o livro, e isso andou-me na cabeça o resto do dia.

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  • MargemDaPagina

    A Helena não diz nada neste capítulo. Aparece como musa exigente e como quem admira, mas não abre a boca uma única vez. Depois de tudo o que ela foi corrigindo até aqui, o silêncio dela pesa mais do que o poema que lhe entregam.

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  • LivroDeCabeceira

    Capítulo vinte e oito e o avô aparece agora, com o livro já de pé. Isso mexeu comigo. Tem gente que escreve a vida inteira sem saber de onde veio a mão, e o Narciso descobre no meio do trajeto pro serviço, numa manhã cinzenta qualquer.

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  • Ovid

    Aquela lembrança do avô chegando no meio do caminho pro trabalho, numa manhã cinzenta, me fez pensar nas coisas que só aparecem quando a gente já está ocupado com outra. Aposto que esse capítulo saiu num dia em que você não ia escrever nada. Gostei do avô ter deixado poemas e letras de música.

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  • GasparRibeiro

    Noventa páginas manuscritas e ainda com fôlego para mais. Dá para ver que ele escreve de madrugada e revê em voz alta, e isso é trabalho a dobrar. Aposto que a caneta do avô já anda por perto.

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