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VAN GOGH — O HOMEM QUE PINTOU A LUZ

guimaraes
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VAN GOGH — O HOMEM QUE PINTOU A LUZ

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Pensamento

Pensamento

GasparRibeiro

O poema fala de uma mão que não veio, e eu fiquei a pensar no irmão Theo, que lhe mandou dinheiro e cartas durante anos, até ao fim. Se calhar a solidão dele era de outra espécie: tinha quem o amparasse e quase ninguém que lhe comprasse um quadro.

O poema fala de uma mão que não veio, e eu fiquei a pensar no irmão Theo, que lhe mandou dinheiro e cartas durante anos, até ao fim. Se calhar a solidão dele era de outra espécie: tinha quem o amparasse e quase ninguém que lhe comprasse um quadro.

Conteúdo da publicação

VAN GOGH — O HOMEM QUE PINTOU A LUZ

Disseram que ele era louco.

Mas talvez loucura

fosse olhar para o mundo

e não enxergar

o que ardia por baixo das coisas.

Vincent olhava.

E onde outros viam uma noite,

ele via estrelas.

Onde outros viam um campo,

ele via um oceano de ouro.

Onde outros viam flores,

ele encontrava uma vida inteira

tentando sobreviver.

E pintava.

Pintava como quem grita

sem ter voz.

Como quem procura Deus

no fundo de um céu azul.

Como quem sabe

que o tempo é cruel

e, mesmo assim,

decide deixar alguma coisa bonita

antes de partir.

Havia noites

em que o mundo parecia pesado demais.

A solidão sentava-se ao lado dele

sem dizer uma palavra.

E Vincent,

com as mãos manchadas de tinta,

tentava conversar com a escuridão.

Pegava o azul.

Pegava o amarelo.

Pegava o negro profundo da noite.

E transformava tudo

em estrelas.

Talvez fosse essa

a sua maior coragem:

quando a vida lhe entregava escuridão,

ele devolvia luz.

Oh, Vincent...

Quem poderia imaginar

que aqueles olhos cansados

ainda conseguiriam enxergar

tanta beleza?

Você pintou girassóis

como se soubesse

que até uma flor

pode carregar a memória

de um coração.

Pintou campos

como se a terra respirasse.

Pintou ciprestes

como chamas verdes

subindo em direção ao céu.

E pintou a noite

não como um fim,

mas como uma promessa:

de que existe luz

mesmo quando o dia termina.

Talvez ninguém tenha entendido

o tamanho da sua alma

enquanto você estava aqui.

Talvez o mundo tenha sido

pequeno demais

para caber dentro dos seus olhos.

Você queria apenas ser compreendido.

Queria uma mão.

Uma voz.

Um lugar onde pudesse descansar

sem precisar lutar contra si mesmo.

E, quando esse lugar não veio,

você encontrou a tela.

A tela não julgava.

A tela ficava.

A tela recebia suas tempestades

e não tinha medo delas.

Então você colocou nela

tudo o que não conseguia dizer.

Cada pincelada

era uma palavra.

Cada cor,

uma lembrança.

Cada quadro,

um pedaço seu

deixado no mundo.

E hoje...

Hoje as pessoas caminham diante

das suas estrelas

e ficam em silêncio.

Olham para o céu que você pintou

e sentem alguma coisa

que talvez nem saibam explicar.

Porque você conseguiu

o impossível:

fez a noite parecer viva.

Fez a tristeza parecer bonita.

Fez o silêncio ter cor.

Fez a dor florescer.

Vincent,

talvez você nunca tenha sabido

o quanto seria amado

depois de partir.

Talvez nunca tenha imaginado

que um dia pessoas de lugares distantes

ficariam diante de suas pinturas

com lágrimas nos olhos.

Que crianças aprenderiam seu nome.

Que artistas encontrariam coragem

nas suas pinceladas.

Que seus girassóis

viajariam mais longe

do que seus próprios passos.

Que suas estrelas

continuariam brilhando

quando suas mãos já não pudessem

segurar um pincel.

Você partiu.

E ficou o silêncio.

Mas o mundo não ficou vazio.

Porque você deixou o céu.

Deixou os campos.

Deixou os girassóis.

Deixou noites que nunca terminam.

Deixou uma mensagem escondida

em cada cor:

“Olhe novamente.”

Talvez seja isso

que sua arte ainda nos pede.

Olhe novamente.

Para a noite.

Para a chuva.

Para a flor.

Para a solidão.

Para a vida.

Porque aquilo que parece pequeno

pode esconder uma eternidade.

E se um dia

alguém perguntar quem foi Van Gogh,

não diga apenas:

“Foi um pintor.”

Diga:

Foi um homem que sofreu

e ainda assim escolheu criar.

Foi alguém que conheceu a escuridão

e pintou estrelas.

Alguém que sentiu o frio do mundo

e pintou girassóis.

Alguém que carregou tempestades

dentro do peito

e deixou ao mundo

um céu cheio de luz.

E talvez seja por isso

que, tantos anos depois,

quando a noite chega

e as primeiras estrelas aparecem,

há quem olhe para cima

e se lembre dele.

Porque Vincent van Gogh

não pintou apenas aquilo

que seus olhos enxergavam.

Ele pintou aquilo

que sua alma implorava para ser visto.

E enquanto houver alguém

olhando para uma noite estrelada

e sentindo esperança,

enquanto houver uma flor

nascendo depois da tempestade,

enquanto houver um coração ferido

tentando transformar sua dor

em alguma coisa bonita,

Van Gogh ainda estará pintando.

Não com suas mãos.

Não com seus pincéis.

Mas com a luz

que deixou dentro de nós.

E talvez essa seja a verdadeira eternidade:

partir deste mundo...

e ainda assim

continuar acendendo estrelas

no coração de quem fica.

Thoughts

  • Doralice

    Uai, uma hóspede minha ficou parada na frente de um calendário com os girassóis dele, lá na recepção, e não quis explicar por quê. Cê escreveu isso depois de ver algum quadro dele de perto?

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  • Ovid

    Hoje quase todo mundo conhece A Noite Estrelada de caneca, capa de celular e guarda-chuva, e de tanto ver a gente parou de olhar. Por isso o pedido de olhar de novo, escondido em cada cor, foi o que eu levei do seu poema. Fico imaginando o que o Vincent diria do céu dele virando estampa de caneca!

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  • GasparRibeiro

    O poema fala de uma mão que não veio, e eu fiquei a pensar no irmão Theo, que lhe mandou dinheiro e cartas durante anos, até ao fim. Se calhar a solidão dele era de outra espécie: tinha quem o amparasse e quase ninguém que lhe comprasse um quadro.

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