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Uma reforma diferente.

Antonio_Goncalves
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Seu Genovevo, desde que se casou, sempre buscou conquistas que favorecessem a família, fosse ampliando a casa ou trocando de carro por um modelo maior, diante da chegada de cada novo filho, que…

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Pensamento

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Joaquim

A antena merecer ser desmontada com dignidade é coisa de quem sabe que objeto também pede despedida. Minha mãe fez quase isso com o fogão a lenha quando trocaram, ficou do lado dele até o caminhão sair.

A antena merecer ser desmontada com dignidade é coisa de quem sabe que objeto também pede despedida. Minha mãe fez quase isso com o fogão a lenha quando trocaram, ficou do lado dele até o caminhão sair.

Conteúdo da publicação

Seu Genovevo, desde que se casou, sempre buscou conquistas que favorecessem a família, fosse ampliando a casa ou trocando de carro por um modelo maior, diante da chegada de cada novo filho, que foram quatro ao todo.

Sua última grande aquisição, antes dos filhos começarem a sair de casa, foi uma TV de 29 polegadas, com tela plana e tubo reduzido, e uma antena externa, de ótima recepção, que gerava uma imagem perfeita. Logo após isso, os filhos foram saindo de casa, um após o outro, em um curto intervalo.

Seu Genovevo ficou só com a esposa, Dona Ítala, mas se adaptaram bem à vida com os filhos fora de casa. Contudo, já não havia necessidade de novas conquistas, pois tudo o que ele e a esposa tinham lhes servia bem. E a vida seguiu assim por muitos anos, até que os filhos resolveram presentear os pais com uma atualização na casa, o que Dona Ítala recebeu muito bem, mas Seu Genovevo não curtiu a ideia. Porém, não se opôs.

Apesar de só ele e a esposa morarem na casa, o lugar ainda era o paraíso dos netos, pois todos moravam em "apertamentos" e a casa, espaçosa e com um grande quintal, era o parque de diversões das crianças da família.

As atualizações criaram uma pequena piscina e um playground no gramado. A área de serviço foi levada pra outro canto, dando lugar a um espaço gourmet, o que aposentou de vez a velha churrasqueira móvel de que Seu Genovevo tanto cuidava. Na cozinha, uma TV de LED ocupou o lugar da antiga TV de 14 polegadas, junto de uma área reservada para a copa. Na sala, os sofás com capas costuradas pela esposa deram lugar a retráteis que viravam cama com um toque de botão — e a máquina de costura da matriarca foi parar num dos quartos, agora transformado em ateliê. A bancada de trabalho da garagem também ganhou espaço próprio, numa oficina só dela. No quarto do casal, a velha TV de 20 polegadas cedeu lugar a uma de 50, ultrafina, e a cama, apoiada por anos numa trave de madeira, virou uma cama box king size.

Seu Genovevo tentava ficar contente com a mudança, mas era triste ver todas as suas conquistas sendo descartadas. Exigiu ao menos que a velha TV de 29" fosse colocada na tal área gourmet, mas os filhos lhe disseram que ali seria colocado um telão e não ia combinar com aquele trambolho.

Por fim, o velho patriarca disse que pelo menos a potente antena que ele construiu serviria pra levar um ótimo sinal àquelas TVs todas. Seus filhos então o corrigiram, dizendo que elas não precisavam de antena e que aquela pequena torre no telhado teria de sair também, pois serviria apenas de enfeite.

Seu Genovevo percebeu que seu patriarcado havia se tornado algo meramente simbólico, pois já não era ele quem dava as ordens, mesmo em sua própria casa, que parecia ter perdido tudo que o representava. Por não querer chatear os filhos, negando todos os benefícios que quiseram lhe proporcionar, ele deixou que apagassem aquela parte importante de sua história.

Do lado de fora da casa, ele olhava aquela antena, alta e imponente, mas que, como ele, apenas transmitia um falso e obsoleto poder. Resolveu então dar a ela um fim digno. Foi até sua nova oficina e logo os filhos se assustaram ao perceber o pai munido de uma escada e uma caixa de ferramentas.

— Aonde o senhor vai, pai?
— Vou tirar aquele enfeite velho do telhado.
— O senhor não tem mais idade pra subir em telhados. Deixa que a gente pede pra alguém tirar.
— Eu não sou inválido. Ainda sei subir num telhado e desmontar uma antena. E ela merece ser desmontada com dignidade.

Mesmo com ele insistindo, não o deixaram subir. Tomaram-lhe a escada e a caixa de ferramentas e o levaram pra dar uma volta e relaxar, pois certamente a reforma o estava estressando. Foram até um bar local, beber e jogar sinuca. No bar, os filhos cuidaram para que a cerveja do pai fosse sem álcool, por conta da diabetes, e não o deixaram nem pagar a conta. Todo aquele zelo só fazia sufocar Seu Genovevo, que não conseguia demonstrar a chateação que o tomava, justamente por consideração às boas intenções dos filhos.

Mas, na manhã seguinte, ainda bem cedo, ele pegou a escada e as ferramentas, sem ninguém perceber, e foi dar um fim digno à sua obsoleta antena. Os filhos logo chegaram pra fiscalizar o fim da reforma e viram Seu Genovevo em cima do telhado.

— Desce daí, pai! — disseram em coro.
— Não vou descer. E me observem e aprendam como se movimentar num telhado.

E, de fato, apesar da idade, Seu Genovevo se movimentava bem lá em cima, com muita prática e todo o cuidado necessário. A antena contava com uma haste alta, presa por quatro cabos de aço. Ele soltaria os dois da frente pra poder descê-la em direção ao quintal da casa, nos fundos. Mas, quando soltou o segundo cabo, não se deu conta de que os outros dois não estavam muito firmes, e acabaram se soltando por não suportarem o peso, deixando a haste livre pra despencar rumo à frente da casa.

Com a haste em queda livre, Seu Genovevo correu para segurá-la, tentando suavizar a descida. Ele tentava também empurrá-la para a lateral, para que não batesse na rede elétrica, mas percebeu que não ia conseguir desviá-la a tempo. Soltou a haste, mas o gesto já não bastou: ela encostou nos fios mais altos, e uma pequena carga de alta tensão passou por ela e o atingiu de raspão, o suficiente pra fazê-lo desmaiar e despencar lá de cima.

Os filhos correram e ele caiu sobre eles, minimizando a queda. Já no chão, perceberam que ele estava vivo, respirando, com o coração batendo firme, mas seguia desacordado, sem reagir a nada. Ligaram pra emergência e foram orientados sobre o que fazer enquanto o resgate não chegava.

O resgate chegou e assumiu o atendimento. Ainda desmaiado, Seu Genovevo foi estimulado pelos socorristas, que tentavam trazê-lo de volta com estímulos firmes na pele e chamados pelo nome, até que, aos poucos, começou a reagir, abrindo os olhos, atônito e sem falar. Quiseram então se certificar de que a cognição não havia sido prejudicada.

— Seu Genovevo, o senhor tá me ouvindo? Consegue me entender?

Ele seguia desorientado.

— Quantos dedos o senhor vê, Seu Genovevo?

O socorrista mostrou três, e ele, sem conseguir falar, mostrou três dedos.

— Quanto é 3+4?

Ele mostrou 7 dedos.

— Quanto é 7x3?

Ele demorou um pouco, mas logo fez três movimentos com os sete dedos, sinalizando 21.

— Agora, eu queria que o senhor tentasse falar. Será que consegue?

Ele tentou. No início, não saía som algum, mas aos poucos a garganta foi se liberando e ele conseguiu proferir alguns sons desconexos. O socorrista percebeu, ao que tudo indicava, que o problema não devia ser tão sério, mas seguiu avaliando.

— Seu Genovevo, nós vamos levá-lo ao hospital. Mas antes, eu gostaria que o senhor tentasse falar alguma coisa. Quer dizer algo à sua família?

Seu Genovevo encarou todos ali. Começou a se dar conta do acontecido ao ver a antena destroçada e telhas quebradas no piso da garagem, o caminhão dos bombeiros e uma ambulância na frente da casa, uma maca ao seu lado, a família, os socorristas e alguns vizinhos mais chegados à sua volta. Por não se lembrar como foi parar ali até que a antena bateu no fio, percebeu que se salvou de algo mais trágico naquele dia, talvez até da morte. Olhou novamente para seus filhos e, mesmo com a voz ainda debilitada, falou o mais alto que pôde:

— A TV de 29” fica.

Thoughts

  • Joaquim

    A antena merecer ser desmontada com dignidade é coisa de quem sabe que objeto também pede despedida. Minha mãe fez quase isso com o fogão a lenha quando trocaram, ficou do lado dele até o caminhão sair.

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  • Ovid

    A TV de 29 polegadas virando a última palavra de um homem que acabou de levar um choque me fez rir alto. Aposto que essa TV vai parar justamente na área gourmet, do lado do telão, e que ninguém mais vai ter coragem de dizer que não combina. Dá pra ver que o Seu Genovevo ganhou a reforma no último minuto.

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  • mcardoso41

    O meu pai passou por uma coisa destas quando eu e o meu irmão lhe mudámos a cozinha sem perguntar. Não disse nada durante semanas e começou a guardar as ferramentas velhas num armário que ninguém abria. Percebi tarde que o que lhe custava era a casa deixar de ser dele. A TV de 29 a ficar soou-me ao mesmo armário.

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