Estênio acordava todo dia, antes mesmo de o sol dar as caras, impulsionado por um despertador infalível: o solavanco metálico da porta de aço da mercearia no térreo. Seu Agenor a erguia religiosamente às 5h30, assim que chegava com a fornada de pão.
Apressado em colocar os pés no chão, levantava atordoado pela mesma dupla de sempre: a enxaqueca latejante e a tremedeira nas mãos que insistiam em visitá-lo todas as manhãs. Não perdia tempo para dar início ao ritual de espantá-las.
Na janela, espiava o céu para adivinhar o clima do dia enquanto acendia o último cigarro do maço — o remédio certo para aplacar a dor de cabeça. Em seguida, descia os degraus até a mercearia e pedia a dose da marvada mais forte da casa. Virava numa talagada só, sentindo o líquido descer queimando a garganta, até ver a tremedeira parar e o corpo finalmente obedecer.
De volta ao conjugado no terceiro andar, escovava os dentes, ajeitava o cabelo e vestia a roupa menos suja do monte. Por cima de tudo, vestia o velho colete amarelo — uma peça mágica que sempre impunha certo respeito e fazia o povo imaginar que ele era fiscal de alguma coisa.
Trancava a porta, guardava as chaves junto ao celular e a carteira no bolso interno do colete e descia uma última vez. No balcão, pedia um pingado quente, um pão na chapa e se abastecia com um maço de cigarro paraguaio. Estava pronto para a labuta. Seguia rumo à 25 de Março para peneirar clientes no meio da multidão que já engolia a rua logo cedo, guiando os apressados até as lojas que representava.
A 25 de Março já fervia. O mar de gente entupia as calçadas, disputando espaço centímetro a centímetro com as lonas estendidas e as bancas dos ambulantes. Era exatamente aí que a missão de Estênio se tornava vital: ele era a linha de frente das lojas físicas. Se dependesse apenas da sorte, o pedestre gastaria tudo no primeiro camelô da calçada e iria embora. A cabeça de Estênio funcionava como um arquivo vivo de toda a região; ele sabia de cabeça qual galpão tinha a bijuteria mais barata, onde o estacionamento cobrava fração de hora, qual concorrente tinha o melhor estoque e quem cobrava menor taxa no cartão. Em questão de segundos, batia o olho no passante, lia a intenção e virava um pré-vendedor imbatível.
Mas aquele colete amarelo e os olhos sempre inquietos serviam para muito mais do que bater metas. Estênio era o radar da rua. Conhecia a diferença entre o olhar perdido de um comprador do interior e o movimento esquivo dos trombadinhas que rondavam as bolsas alheias. Com uma encarada firme ou um pigarro discreto, desarmava o bote dos gatunos antes que o tumulto se formasse. Para os lojistas e até para os próprios ambulantes vizinhos, sua presença valia como uma guarda informal.
No cotidiano, almoço decente era luxo proibido. Na maioria dos dias, beliscava uma coxinha murcha no balcão ou engolia um pastel em três dentadas, sem parar de caminhar. Cada nota economizada na refeição era o trocado garantido para aliviar o boleto da luz ou do aluguel.
Havia, contudo, uma sagrada exceção. Uma vez por mês, numa quarta-feira reforçada, Estênio se dava ao luxo de ser gente. O dono do pequeno restaurante da travessa, que já conhecia a sua sina, deixava sempre reservada uma generosa feijoada para o fim da tarde. Quando as portas de aço finalmente começavam a baixar estrondosamente e o turbilhão da 25 dava sua primeira trégua, Estênio pendurava o colete no encosto da cadeira, sentava-se com calma e saboreava cada garfada de feijão gordo, couve refogada e torresmo crocante. Ali, diante daquele "rango de responsa" e longe da pressa do mundo, o radar da rua finalmente desligava — e a vida ganhava, por alguns minutos, um sabor de plena dignidade.