Sábado, 25 de abril de 2026
Abro os olhos e percebo que estou deitado em uma cama. Olho para o lado e vejo Henrique sentado à beira dela. De repente, tudo volta à minha mente — lembro claramente de tudo, inclusive das minhas memórias do ensino médio.
Encaro Henrique. Foi ele... ele me hipnotizou.
— Você... — digo, com rancor na voz.
— Chefe, você finalmente acordou — diz Henrique, preocupado.
— Você me hipnotizou... agora eu lembrei — digo, chocado.
— Desculpa — responde Henrique, sem graça.
— Como você pôde fazer isso? — questiono, incrédulo.
— Eu era só um adolescente apaixonado — diz Henrique, me olhando. — E não pensei que fosse funcionar.
— Mas funcionou muito bem — rebato, revoltado. — Por sua culpa, eu tratei o Joel mal durante anos.
— Não exagera também, né? Vocês já estão até namorando — diz Henrique, tentando se justificar. — Na época, eu fui imaturo. Fiz tudo por ciúmes, agi sem pensar.
— E não serviu de nada, porque, alguns meses depois, fui morar na Coreia — acrescenta.
— Por isso você reagiu daquele jeito no restaurante naquele dia — digo, ainda revoltado.
— Eu sei... fui um tremendo otário — confessa Henrique. — Eu não suporto o Joel... ele sempre consegue tudo o que quer.
— Por isso nunca desfiz a hipnose. Mas depois descobri que vocês já estavam namorando, então pensei que estava tudo bem — completa.
— Então é isso... — digo, com a boca aberta. — A bolada que levei na cara... foi isso que me fez despertar.
— Não estou entendendo — diz Henrique, confuso.
— Eu levei uma bolada na cara e, quando acordei, comecei a gostar do Joel da noite para o dia — explico, ainda atônito. — A bolada quebrou o cadeado que estava prendendo meus sentimentos por ele.
— Um cadeado que você colocou — digo, olhando para ele com rancor.
— Chefe, por favor, esquece isso. O doutor Martins até conseguiu te conquistar — diz Henrique, firmemente. — Vocês já namoram.
— A gente não namora mais — digo, de cabeça baixa.
— Então você largou o doutor Martins? — pergunta Henrique, chocado.
— Não — respondo, com a voz triste. — Foi ele que terminou comigo.
— O quê? — grita Henrique, incrédulo. — Como assim ele te largou? Ele só pode ter ficado louco... passou 15 anos te cortejando!
— Aconteceu uma coisa — digo, pensativo. — Depois que ele levou aquela bolada na cara, ficou estranho.
— Bolada que você deu — acrescento, olhando para Henrique com desconfiança. — Por acaso você tem alguma coisa a ver com o jeito estranho do Joel? Você, por acaso, o hipnotizou para parar de gostar de mim? — pergunto, horrorizado.
— Chefe, para — diz Henrique, erguendo a mão. — Primeiro: eu te superei há muitos anos. Segundo: as minhas hipnoses nunca funcionaram... você foi a exceção. A primeira e única pessoa.
— Aquela bolada mexeu nos parafusos da cabeça dele — digo, incrédulo. — Ele se tornou uma pessoa sem empatia.
— O doutor Martins está muito estranho mesmo — diz Henrique, desconfiado. — Parece até outra pessoa.
— Com licença — diz o doutor Prado, entrando no quarto. — Como está se sentindo, chefe?
— Estou bem, senhor — digo, com um sorriso.
— Você está liberado para ir embora — diz o doutor Prado, ainda preocupado.
— E perder o melhor da festa? — respondo, me levantando. — Eu vou ficar.
— Que bom — diz o doutor Prado, contente. — Então vamos lá para baixo. Venha ouvir os elogios da sua comida.
Henrique e eu logo descemos para o salão.
De repente, o DJ coloca uma melodia suave, e os físicos que estavam acompanhados de suas esposas e namoradas logo se dirigem ao salão para dançar. Olho para o lado e vejo Joel dançando com Rayssa, bem agarrados. Aquilo dói profundamente no meu coração. Joel logo percebe a minha presença.
— Você é tão linda — diz Joel, fazendo carinho no cabelo dela.
— Obrigada, doutor — responde Rayssa, encostando a cabeça no peito dele.
— Ele ficou completamente maluco! — diz Henrique, incrédulo ao ver a cena.
— Acho melhor eu ir embora — digo, de cabeça baixa.
— Você prometeu que ia ficar — diz Henrique, me olhando. — Não liga para aquele idiota.
— Não consigo... — respondo, ainda cabisbaixo.
— Você quer dançar comigo, chefe? — pergunta Henrique, estendendo a mão.
— Sim — respondo, após respirar fundo, enquanto seguro a mão dele.
— Não ligue para esse otário — diz Henrique, segurando gentilmente minha cintura.
— Queria que fosse tão fácil assim... — murmuro.
Olho para o Joel e percebo que ele me encara com um olhar de incômodo. Dou um pequeno sorriso e encosto a cabeça no peito de Henrique.
Joel arregala os olhos, incrédulo.
— Me beija, doutor — pede Rayssa, aproximando o rosto.
— Claro, princesa — responde Joel, sem tirar os olhos de mim.
Ele então beija Rayssa.
Ver aquilo dói como um soco no estômago.
— O quê...? — murmuro, incrédulo e chocado.
— Você pode me beijar, se quiser — diz Henrique, me olhando com cuidado.
Henrique está com os olhos brilhando... acho que ele mentiu. Ele provavelmente ainda tem sentimentos por mim.
No calor do momento, eu o beijo.
Mas logo sinto alguém nos separar com violência.
— Tira essas mãos dele! — grita Joel, furioso, puxando Henrique e o jogando no chão.
Todos ao redor se assustam com a cena.
— Você tá louco, cara?! — grita Henrique, caído.
— Sim! — responde Joel, antes de começar a esmurrá-lo.
— Para com isso, doutor Martins! — gritam outros físicos, tentando tirar Joel de cima de Henrique.
O que está acontecendo com ele? Ele está completamente fora de controle. Eu nunca o vi assim.
Fico horrorizado ao vê-lo esmurrando Henrique.
Esse definitivamente não é o meu doutor.
— Joel, para com isso! — grito, desesperado.
Joel então para.
— Tirem esse louco de cima de mim! — grita Henrique, assustado.
— O que há com você, doutor? — pergunta um dos físicos, incrédulo.
Joel se levanta lentamente e vem em minha direção.
Seus olhos estão frios.
Olho para o chão e vejo Henrique com o rosto todo machucado.
Foi o Joel que fez isso?
Ele o feriu.
Não... definitivamente, esse homem não é o meu doutor.
Dou alguns passos para trás enquanto ele se aproxima. Meu corpo treme.
Esse não é o Joel que eu amo.
É como se outra pessoa tivesse assumido o controle do corpo do meu amor.