Terça-feira, 14 de abril de 2026
É de manhã. Estou no apartamento do Rafael, ajudando a montar seus móveis. Já faz alguns dias que o Joel viajou, e a gente mal trocou mensagens. Acho melhor não sufocá-lo. Olho para o Rafael e percebo que ele está pensativo.
— Por que você está tão pensativo? — pergunto, enquanto aperto um parafuso.
— Ontem eu me declarei para o Wei — solta Rafael, de repente.
— O quê?! — grito, incrédulo. — E o que ele falou?
— Ele ficou chocado e perguntou se eu tinha certeza — diz Rafael.
— E depois? — pergunto, apreensivo.
— Eu entreguei as chaves... e saí correndo — responde ele.
— E o que você vai fazer agora? — questiono.
— Eu não sei — diz Rafael, claramente desesperado. — Como vou olhar na cara do Wei no laboratório?
— Calma — digo, tentando tranquilizá-lo.
— Como eu vou ter calma? A gente trabalha junto! Eu não devia ter feito isso — diz Rafael, passando a mão pelo rosto.
— Você fez o certo. Você abriu o seu coração — respondo.
— Mas o que eu disse vai mudar para sempre a minha relação com ele — diz Rafael, pensativo.
Quinta-feira, 16 de abril de 2026
É de manhã, e estou fazendo biscoitos de polvilho para o Joel. Ele chegou bem tarde ontem à noite, e ainda não tive tempo de vê-lo. A mãe dele me contou que ele adora.
Faço alguns em formato de coração e outros em forma de letras, para montar uma mensagem quando ele abrir a caixa. Essa viagem com certeza fez o Joel refletir sobre o que pensa e sente sobre mim.
Depois de terminar, sigo para o laboratório. Assim que me aproximo da porta de vidro, Joel percebe a minha presença.
— Chefe — diz Joel, com um sorriso, enquanto se aproxima.
Olho para dentro e vejo Wei e Rafael afastados, cada um em um canto do laboratório. Nossa... dá para sentir o clima tenso daqui.
— Fico feliz em vê-lo — acrescenta Joel, após abrir a porta.
— Eu trouxe biscoitos de polvilho — digo, com um sorriso, estendendo a caixa em direção a ele.
— Obrigado, chefe — diz Joel, sorrindo enquanto a pega. — Vamos conversar em outro lugar, o clima aí dentro não está muito bom — acrescenta, fechando a porta em seguida.
Caminhamos pelo corredor.
— Como foi sua viagem? — pergunto, enquanto caminhávamos lado a lado.
— "Refletiu sobre o que sente?" — diz Joel, ao abrir a caixa.
— E então? — pergunto, apreensivo.
— Os biscoitos estão muito bons — responde ele, pegando um e comendo.
— E a mensagem? — insisto.
— Chefe... — diz Joel, respirando fundo. — Eu refleti bastante — acrescenta, agora me olhando.
Meu coração começa a acelerar.
— E qual foi sua conclusão? — pergunto, sentindo o coração disparar.
— Eu só concluí o que eu já sabia — diz Joel, friamente. — Eu não te amo.
— Joel! — digo, me segurando para não chorar.
— Desculpa, mas é a pura verdade — diz Joel, com firmeza na voz.
— Eu estou em um pesadelo, só pode... — digo, com a voz trêmula, enquanto limpo as lágrimas. Meu coração está despedaçado.
— Eu não te amo. Sinto muito. Acho melhor a gente terminar antes que um de nós saia ferido — diz Joel, sem nem um pingo de empatia.
— Você está terminando comigo? — pergunto, incrédulo e desesperado.
— É o melhor a se fazer. Você é uma pessoa incrível, e eu estou me sentindo mal por não conseguir retribuir seus sentimentos — responde Joel.
As palavras de Joel são firmes e decididas.
— Não diz isso, doutor... — digo, com a voz trêmula.
— Sinto muito, chefe, mas você merece alguém melhor do que eu. Siga em frente e encontre alguém que realmente mereça esses biscoitos — diz Joel, me entregando a caixa.
— Mas você é a pessoa que eu amo — digo, com a voz falhando.
— Mas eu não te amo mais. Sei que foi muito difícil para mim te conquistar naquela época, mas... infelizmente, agora não posso obrigar meu coração a te amar — responde Joel.
— Você precisa de espaço, né? — digo, tentando conter o choro. — Eu vou te dar espaço.
— Eu quero conhecer novas pessoas. Por causa do amor doentio que eu sentia por você, eu nunca pude fazer isso — diz Joel, pensativo. — Espero que você consiga fazer o mesmo.
— Doutor, por favor... — imploro, já chorando.
— Desculpa por estar te fazendo chorar — diz Joel, enquanto limpa minhas lágrimas com os dedos.
Depois disso, ele se afasta.
— É melhor você evitar vir aqui por um tempo — acrescenta, antes de se virar e ir embora.
Me sento no corredor, abraço meus joelhos e começo a chorar.
— Você está bem? — escuto uma voz.
Ergo a cabeça e vejo uma mulher. Acho que é uma aluna.
— Estou, sim — digo, levantando-me enquanto enxugo as lágrimas.
— Não parece — responde ela, com cuidado.
— Com licença — murmuro, antes de sair correndo.
Vou para casa e choro ainda mais. O peito dói, como se algo tivesse sido arrancado de mim. Pego o celular com as mãos trêmulas e envio uma mensagem para o Joel.
"Por favor, não faz isso comigo."
Vejo que ele visualiza quase imediatamente.
"Eu sinto muito." — responde Joel.
Poucos segundos depois, sua foto de perfil desaparece.
Ele me bloqueou.
O meu maior medo era que os meus sentimentos pelo Joel desaparecessem do nada, assim como surgiram. Mas eu nunca pensei que seria o amor dele por mim que desapareceria da noite para o dia.
Segunda-feira, 20 de abril de 2026
Já faz alguns dias que não vejo o Joel desde aquele dia. Ele acabou me bloqueando em todas as redes sociais. Estou tentando seguir em frente, mas está difícil... eu amo demais aquele nerd.
Agora eu sei exatamente o que ele sentiu quando fui eu quem o bloqueou da última vez.
De repente, escuto batidas na porta. Dou um pulo da cama e vou até lá. Quando abro, me deparo com a mãe do Joel.
— Oi, Ariel... podemos conversar? — diz ela, com cuidado e preocupação.
— Entre, senhora — respondo, dando espaço.
— Eu vim ver como você está — diz ela, enquanto entra.
Nós nos sentamos no sofá.
— Estou tão triste por você — acrescenta.
— Acho que foi o melhor a se fazer, já que o Joel não me amava mais — digo, com a voz abatida.
— Eu não sei o que está acontecendo com o meu filho — diz ela, pensativa. — Ele está tão frio e distante...
— Mas até com a senhora? — pergunto, chocado.
— Sim. Ele mal responde às minhas mensagens ou às do pai. Já faz dias que não nos visita também — diz, incrédula. — O meu filho não era assim.
— O Joel ficou desse jeito depois que levou uma bolada no rosto — explico.
— Não entendi — diz ela, confusa.
— Algumas semanas atrás, ele estava jogando bola e acabou levando uma bolada bem forte na cara. Ele ficou desacordado por alguns minutos. Depois que acordou... mudou — digo.
Ela me observa com atenção por alguns segundos.
— Você é igual ao meu filho — diz, com um leve sorriso.
— Como assim? — pergunto, confuso.
— Para o Joel, tudo precisa ter uma explicação — responde ela.
— Que saudade eu estou do meu antigo doutor — digo, com a voz embargada.
— Espero que o meu filho caia na real e perceba a pessoa incrível que você é — diz ela.
— Tomara, senhora... eu amo o seu filho. Amo demais — confesso.
Ela suspira e me abraça.
— Preciso confessar que não fiquei nem um pouco feliz quando o Joel disse que estava namorando você — admite. — Mas depois que te conheci, percebi o quanto eu estava errada. Você é um tesouro, Ariel.
— Obrigada, senhora — digo, chorando em seus braços.
Sábado, 25 de abril de 2026
O doutor Prado veio com uma proposta muito interessante: ele me contratou como chef particular para uma festa privada que reunirá vários físicos renomados. Confesso que o verdadeiro motivo de eu ter aceitado é outro... eu quero ver o Joel. Mesmo que seja de longe. Estou com tanta saudade dele que chega a doer.
Agora estou na cozinha da mansão. O doutor Prado me entregou o cardápio mais cedo — só pratos chiques, daqueles que parecem obras de arte. Confesso que fiquei até nervoso no começo. Os funcionários da casa estão aqui para me ajudar.
— Você é mesmo o chef da noite? — pergunta uma das funcionárias, me observando enquanto separo os ingredientes.
— Sou eu mesmo — respondo, colocando o avental. — Prometo não explodir a cozinha.
Ela ri.
Enquanto cozinho, os funcionários observam tudo com atenção. Após finalizar todos os pratos, eles começam a levar as bandejas para o salão. Depois de organizar a cozinha, sigo para o salão da mansão. Está lotado. Olho atentamente ao redor, tentando ver se encontro o Joel.
— Então você é o chef da noite? — pergunta Henrique, aproximando-se. — Suas sobremesas estão perfeitas — acrescenta, enquanto come.
— Fico feliz que tenha gostado — respondo, com um sorriso contido.
— Esses doces me fazem lembrar dos tempos de escola — diz Henrique, com um sorriso nostálgico. — E, principalmente, do meu primeiro amor.
— Primeiro amor? — pergunto, curioso.
— Você era meu primeiro amor — responde Henrique, respirando fundo.
— O quê? — digo, chocado.
— Sim, eu gostava tanto de você que acabei fazendo coisas totalmente erradas — diz Henrique, todo sem graça.
— O que você fez? — pergunto, curioso e confuso ao mesmo tempo.
— Lembro que até te hipnotizei — diz Henrique, ficando vermelho. — 1, 2 e 3. Você lembra? — diz antes de estalar os dedos.
De repente, minha cabeça começa a girar e, em um piscar de olhos, tudo fica escuro.